SpaceX busca 1,8 trilhão de dólares e testa Wall Street
Abertura de capital da SpaceX expõe debate sobre poder de Elon Musk, governança corporativa e avaliação trilionária no mercado
A abertura de capital da SpaceX, prevista para o dia 12 de junho, já produz efeito em Wall Street. Mesmo antes da estreia, investidores, bancos e gestores discutem menos o potencial do negócio espacial e mais até onde o mercado está disposto a aceitar estruturas criadas para concentrar poder nas mãos de Elon Musk.
A empresa reduziu a meta de avaliação para pelo menos 1,8 trilhão de dólares após conversas com investidores e coordenadores da oferta, 200 bilhões de dólares a menos do que o inicialmente imaginado.
Ainda assim, o valor colocaria a SpaceX entre as companhias mais valiosas do mundo logo no primeiro dia de negociação. A operação pode levantar dezenas de bilhões de dólares e se tornar o maior IPO já realizado.
O entusiasmo é sustentado pelo avanço da Starlink, a rede de milhares de satélites que disponibilizam internet em dezenas de países e que se tornou a principal fonte de receita do grupo. Documentos divulgados para a oferta mostram faturamento de cerca de 18,7 bilhões de dólares em 2025, acima dos 14 bilhões registrados no ano anterior.
A SpaceX chega ao IPO após incorporar sua divisão de inteligência artificial (xAI), o que explica parte significativa das perdas. Apesar de a Starlink ter gerado lucro operacional positivo, com cerca de 10,3 milhões de assinantes, a empresa como um todo reportou prejuízo líquido de quase 5 bilhões de dólares em 2025.
Ao mesmo tempo, os gastos elevados com lançamentos de foguetes, satélites, inteligência artificial e o desenvolvimento da Starship, o maior foguete da história, que deverá levar o homem à Lua em poucos anos, pesam no resultado.
A combinação entre crescimento acelerado e perdas bilionárias não afastou investidores. O interesse ganhou força após um novo teste da Starship que mostrou avanços importantes para o programa espacial, considerado peça central da estratégia de longo prazo da companhia.
A aposta é que a redução dos custos de lançamento amplie a expansão da Starlink e abra novos mercados ligados à comunicação e à operação de satélites.
Analistas e fundos institucionais, porém, questionam se o valuation de 1,8 trilhão de dólares já precifica adequadamente os riscos de execução do Starship, a concorrência crescente e a forte dependência de uma única pessoa.
Mas o prospecto também revelou uma estrutura de governança que vem provocando desconforto entre investidores. Musk mantém controle dominante dos votos, influência direta sobre o conselho e mecanismos que dificultam ações judiciais de acionistas.
Relatórios analisados pela Reuters, Financial Times e New York Times apontam que a empresa construiu salvaguardas capazes de limitar mudanças de comando mesmo em cenários de forte pressão dos acionistas. Musk deve manter cerca de 42% do capital econômico e 85% do poder de voto.
O debate acontece num momento em que o mercado americano volta a premiar empresas associadas à inteligência artificial e a setores de rápido crescimento com avaliações cada vez maiores.
O interesse pela oferta cresce mesmo com as perdas bilionárias da empresa e as críticas à estrutura de governança. Nos próximos meses, o mercado terá de decidir quanto está disposto a pagar por uma companhia que domina o mercado de internet via satélite e ocupa posição central nos novos projetos de exploração espacial, mantendo ao mesmo tempo uma estrutura de controle concentrada nas mãos de Elon Musk.
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