Mainardi não vai para o céu
O livro "Meus Mortos" pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora
Diogo Mainardi é um homem de muitas existências e de muitas desistências.
Foi estudante da London School of Economics e logo saiu da universidade. Depois de se graduar e pós-graduar no que interessava, sob a (des)orientação do Ivan Lessa, aproveitou o embalo, seguiu o bom mau exemplo do mestre e foi embora do Brasil.
Escreveu e produziu filmes, mas desistiu do cinema. Depois de publicar Malthus, Arquipélago, Polígono das Secas e Contra o Brasil, mandou a literatura às favas.
Para enganar o tédio, virou o colunista mais influente da Veja.
O tempo passou, o país parou e ele se cansou da influência, do colunismo e da Veja.
Falou tudo o que quis, até que não quisesse falar mais nada no Manhattan Connection.
Fundou O Antagonista e encheu o saco do jornalismo chapa-branca, enquanto se enchia da imprensa, da política, dos leitores.
Até do Lula, de quem foi o melhor inimigo, ele desistiu.
Primeiro com A Queda, em que conta a história, entre outras histórias, do erro médico que fez seu filho Tito nascer com paralisia cerebral, e agora com Meus Mortos, em que perambula por Veneza com o filho Nico e o cachorro Palmiro, Mainardi parece ter abandonado qualquer esperança.
Sem o peso da esperança, pode continuar.
Como um materialista que tivesse fé no espírito artístico, como um budista a quem irritassem as iluminações, ele faz do seu livro um hilário álbum de retratos em que se mostra e se esconde por meio da pintura de Tiziano, das saudades do irmão, dos desencontros com o pai, das cinzas da mãe.
Ele sabe que somos feitos dos mortos e dos vivos que nos habitam e que habitamos.
A opção retrô – e experimental – pela fotonovela causa estranheza a princípio, mas é uma ótima solução formal. Mainardi junta o cômico e o melancólico, o factual e o ficcional, o histórico e o biográfico, a arte e a peste para costurar, se possível for, algumas porções de sentido em meio ao absurdo.
O livro pode ser lido como o epitáfio adiado de um homem cínico, que se despede dos seus antes da hora, porque nunca se sabe quando chega a hora. Mas também pode ser lido como a saudação de um homem que, depois de desistir da vida, resolveu desistir da morte. Só pra ver o que será.
Gustavo Nogy é escritor
X: @GustavoNogy
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Comentários (7)
Lilian Ermida
2025-12-14 22:42:01O livro é muito, muito bom!!!
Leila Sibele Pilger Glufke
2025-12-14 18:25:45Excelente! Gosto muito do Mainardi, há muito tempo
Marcia
2025-12-14 08:57:38Mainardi deixa muita saudades pelo seu trabalho e por ser o que é. Desejo a ele vida longa ainda que ele já exalte a morte.
Glecy Bragazzi Borja
2025-12-13 16:38:51L I N D O !!!!
Denise Pereira da Silva
2025-12-12 21:24:42Que texto lindo, Gustavo Nogy. Sensível e comovente. Captou muito bom o espírito irrequieto e indomável de Diogo Mainardi, ser humano que muito admiro e a quem desejo tudo de bom no entender do mesmo.
Avelar Menezes Gomes
2025-12-12 17:25:07Esse negocio de desistir da morte, será que funciona ?
Albino
2025-12-12 08:05:39Cacilda!!!