Sócrates, pensador grego que viveu por volta de 470 a.C., era conhecido por ser um dos primeiros filósofos a arar a terra da filosofia moderna; ele estudou exaustivamente relações humanas, ética e justiça. Um dos pontos mais conhecidos do pensador era sua visão sobre as relações de amizade em questão de virtude e utilidade.
A frase “O amigo deve ser como o dinheiro; antes de precisar dele, é necessário saber o seu valor” não é atribuída ao filósofo à toa . Para Sócrates, a amizade ia muito além de um “passatempo” e era sim um dos bens mais preciosos que alguém poderia ter.
Qual é a lógica por trás da metáfora?
Com a frase, Sócrates aponta a natureza da relação de amizade, diferenciando uma relação transacional de uma relação recíproca. Uma transação é uma pessoa receber algo em troca de outra coisa de igual valor. Nessa relação, existe a pressão pelo “pagamento”.
Já na recíproca também há troca, no entanto, não há a pressão e expectativa de pagamento como na transacional. Ambas as pessoas oferecem tempo, bens materiais, alimento e até dinheiro; a troca pode não ser 100% igual, mas ambos participam, não por haver uma regra obrigando, mas porque ambos desejam o bem do outro.
Considerando isso, Sócrates então relaciona o amigo ao dinheiro. Ele defendia que devemos escolher amigos com o mesmo critério e cuidado que usamos para cuidar do nosso patrimônio, avaliando a “moeda” (o caráter) antes de precisar “gastá-la” (pedir ajuda).
Na prática, e diferentemente da romantização da amizade, o filósofo via a amizade como algo que precisa ser cultivado e testado pela razão. Afinal, assim como você não espera ficar pobre para entender que o dinheiro é importante, você não deve esperar uma crise para valorizar um amigo.
Na saúde e na doença
O filósofo ainda destaca que uma amizade não está presente apenas em momentos de urgência, mas também nos períodos menos turbulentos da vida.
Muitas amizades podem ser “improvizadas” ou imprevistas, causadas pela ocasião, mas toda amizade é cultivada. Isso significa convivência e observação, vendo a lealdade, a presença e o caráter dos amigos ao longo da vida. Assim, podemos avaliar quem confiamos para estar ao nosso lado em momentos em que o apoio humano é mais necessário.
Era líquida
Vale ressaltar que a era de Sócrates é muito diferente dos tempos modernos. O sociólogo Zygmunt Bauman, por exemplo, destaca que a relação moderna de amizade é frágil, efêmera e superficial, destacando o papel das redes sociais que facilitaram tanto a conexão quanto a desconexão de pessoas.
Para o sociólogo, a maior parte das conexões atuais são simplesmente passageiras, com pessoas preferindo se “conectar” a realmente se relacionar com outros, com contatos passivos como comentários e curtidas gerando a ilusão de relacionamento. Isso causa o efeito de “Solidão na multidão”, que é ter diversos “amigos” nas redes sociais, mas nenhuma companhia fora das telas.
Bauman sempre reforçou que uma amizade “real” precisa de conexão além das telas. O abraço, o olhar, o tempo de qualidade compartilhado e a convivência durante momentos difíceis seriam vitais para as amizades.
Então como avaliar?
Apesar da visão pessimista do sociólogo, a metáfora de Sócrates pode ser usada justamente como um “guia”. Pessoas podem usá-lo não apenas para se guiar em como ser um amigo “real”, mas também para avaliar que amigos são “reais” e quais são os “líquidos”.
No caso, você pode avaliar os amigos que estão presentes no dia a dia. No caso, avaliar quem só aparece quando precisa de algo e desaparece quando você em si precisa de ajuda, ver quem fica além dos momentos de urgência.
Além disso, a metáfora também convida à reflexão sobre si mesmo. Você está presente na vida de quem considera amigo? É honesto? Ou só fala com seus entes queridos quando está passando por problemas?
A frase do filósofo grego tem milênios de idade, mas até hoje continua evocando questionamentos.





