A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta grave sobre a situação do Ebola na República Democrática do Congo. Segundo o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, mais de 900 casos suspeitos foram registrados no país, dos quais ao menos 101 foram confirmados. A OMS já declarou o surto uma emergência de saúde pública de importância internacional.
A cepa responsável pelo surto atual é a Bundibugyo, uma variante rara do vírus. Ao contrário do tipo Zaire, mais conhecido, o tipo Bundibugyo não tem vacina nem tratamento aprovados e disponíveis, o que torna o controle da doença ainda mais difícil.
Por que o Congo é tão afetado?
O Congo registra surtos de Ebola com uma frequência maior do que qualquer outro país no mundo. Desde a descoberta do vírus em seu território, em 1976, o país registrou 17 surtos. O pior deles, entre 2018 e 2020, deixou mais de 2.200 mortos.
A combinação de fatores geográficos, sociais e políticos torna o país um terreno fértil para o vírus. Mais de 60% do território é coberto por florestas densas, onde animais como morcegos, macacos e porcos-espinhos atuam como reservatórios naturais do vírus Ebola.
Para grande parte da população rural, a caça de animais silvestres é uma questão de sobrevivência, não de escolha. Em algumas regiões da Bacia do Congo, a carne de caça representa até 80% da proteína consumida localmente.
Eteni Longondo, ex-ministro da Saúde Pública do país, afirma que mudar esse hábito é um dos maiores desafios das autoridades de saúde. “Você não pode simplesmente dizer às pessoas que abandonem sua cultura e que parem imediatamente. Elas continuam comendo carne de animais selvagens porque não têm outra alternativa”, disse.
Conflito armado complica resposta
A situação no leste do país é agravada por uma rebelião armada ativa. Na província de Ituri, epicentro do surto atual, quase 5 milhões de pessoas vivem em meio a conflitos constantes. A violência dificulta o acesso das equipes de saúde às comunidades afetadas e aumenta a mobilidade da população, o que favorece a dispersão do vírus.
Em Bukavu e Goma, duas cidades controladas por grupos rebeldes, também foram confirmados casos da doença. A OMS aponta que a detecção tardia, a ausência de tratamentos e a instabilidade política são os principais fatores que mantêm o surto sem controle.
Como Ebola é transmitido?
O vírus chega aos humanos por meio do contato com o sangue ou com fluidos corporais de animais infectados. A partir daí, a transmissão entre pessoas ocorre por meio do contato direto com fluidos corporais ou com superfícies contaminadas. Os sintomas incluem febre alta e hemorragias internas e externas, podendo ser fatais em poucos dias.
Mais de 80% dos 100 milhões de habitantes do Congo vivem em extrema pobreza, o que limita o acesso a cuidados de saúde básicos e reduz a capacidade de isolamento em casos de infecção.





