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A “ilha perdida” que já existiu no Brasil e hoje está a 650 metros de profundidade

A Elevação do Rio Grande também pode ser reconhecida como extensão do território brasileiro

Por Júlio Nesi
03/04/2026
Em Geral
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Divulgação: Marinha do Brasil

Divulgação: Marinha do Brasil

Existe uma formação geológica no Atlântico Sul que, milhões de anos atrás, era uma ilha tropical de proporções gigantescas. Hoje, está submersa a centenas de metros de profundidade, a 1.200 quilômetros da costa brasileira.

Pesquisadores do Brasil e do Reino Unido confirmaram que essa estrutura, chamada Elevação do Rio Grande, já foi uma ilha com dimensões comparáveis à Islândia.

Com a descoberta, também é possível que a ilha seja reconhecida como parte do território nacional brasileiro. O Brasil usa as evidências científicas para pedir à Organização das Nações Unidas (ONU) que reconheça a região como parte da plataforma continental brasileira.

O que é a Elevação do Rio Grande?

A Elevação do Rio Grande é um conjunto de montanhas submarinas, planaltos, cânions e fendas tectônicas localizado no Atlântico Sul. A estrutura se ergue desde a base oceânica, a cerca de 5.000 metros de profundidade, com o topo situado entre 700 e 2.000 metros abaixo do nível do mar.

Se estivesse em terra, formaria uma paisagem marcada por picos mais altos do que o Pico da Neblina, que é a montanha mais alta do Brasil. A elevação inteira tem dimensões próximas às da Espanha, cerca de 500 mil km².

Como a ilha desapareceu?

Entre 50 e 40 milhões de anos atrás, no período chamado Eoceno, as partes mais altas da elevação estavam acima da superfície, formando uma grande ilha vulcânica de clima tropical, muito provavelmente recoberta de florestas e rodeada por recifes.

Com o passar do tempo, essa paisagem foi sendo erodida pela ação do vento, das chuvas e das ondas. Depois vieram sucessivos derramamentos de lava que encobriram o terreno. O que os cientistas encontram hoje, no fundo do oceano, são camadas de argila vermelha, típica de solos tropicais, comprimidas entre blocos de basalto negro.

A submersão ocorreu pela subsidência da própria elevação: ela afundou à medida que a câmara magmática abaixo dela esfriou. Ou seja, foi o terreno que desceu, não o oceano que subiu.

Que prova confirmou isso?

A prova mais importante veio de uma expedição em 2018, quando pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) navegaram até a região a bordo do navio Alpha Crucis. Durante dragagens no topo da elevação, a equipe trouxe à tona amostras de argila vermelha. Esse tipo de solo só se forma em condições tropicais, ao ar livre, com calor e umidade.

Uma nova análise, feita posteriormente em parceria com pesquisadores britânicos a bordo do navio RRS Discovery, confirmou que aquela argila não poderia ter se formado debaixo d’água. Isso selou a hipótese: aquela área já esteve exposta ao sol.

Bramley Murton, professor da University of Southampton e cientista-chefe da expedição britânica, apontou outro indício relevante: as bordas do planalto da chamada Grande Fenda são compostas por campos de pedregulho de basalto, um tipo de rocha que só se forma em áreas de energia muito alta, como leitos de rios ou costas onde as ondas colidem com penhascos.

Terras do Brasil?

Com base na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o governo brasileiro alega que essas ilhas fazem parte de seu território nacional.

Pesquisadores da USP identificaram que o solo da elevação tem composição geológica semelhante à do interior de São Paulo. Esse dado reforça o argumento de que a estrutura é uma continuação natural do território continental brasileiro.

A submissão brasileira está em análise na Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU desde fevereiro de 2025. Um parecer preliminar divulgado em março endossou a metodologia dos pesquisadores.

Além da questão territorial e científica, a Elevação do Rio Grande guarda algo de alto valor econômico: depósitos de ferromanganês e terras raras. Esses minerais são essenciais para a produção de baterias, equipamentos de energia renovável e tecnologia de ponta.

A pesquisadora Carina Ulsen, da USP, explica que o que se encontra na região é uma concentração anômala de minerais, o que pode transformar a área em uma nova fronteira econômica para o país.

O Brasil já possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Se o pedido à ONU for aprovado, o país garantirá direitos exclusivos sobre os recursos minerais do leito marinho da elevação.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Tags: Brasil ONUElevação do Rio Grandegeologia submarinailha perdidailha submersaOceano atlânticoplataforma continentalterras rarasUSP
Júlio Nesi

Júlio Nesi

Jornalista alagoano formado pela UFAL, já atuei em produção de conteúdo digital para portais, rádio e redes sociais.

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Reprodução: Unplash / Nikolai Kolosov

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