Manual da fotografia de rua
Na fotografia de rua, o importante é a espontaneidade, uma vez que a cena não vai se repetir
A fotografia de rua, ou street photography, é um dos gêneros mais prestigiados da arte fotográfica — e também um dos mais desafiadores de praticar.
O objetivo não é fotografar a rua em si, mas cenas cotidianas. Fazer um retrato ou fotografar arquitetura é mais fácil porque o objeto a ser fotografado está ali, disponível.
Na fotografia de rua o importante é a espontaneidade, uma vez que a cena não vai se repetir. O fotógrafo precisa estar preparado, com a câmera sempre pronta para o disparo.
Além disso, ele precisa circular bastante, ir a lugares em que cenas relevantes acontecem.
E o principal: o fotógrafo precisa ter uma imensa cara de pau de ver uma pessoa ou um grupo de pessoas, fotografá-los e ir embora como se nada tivesse acontecido.
Para complicar ainda mais, as boas fotos costumam ser feitas de perto. Se a pessoa notar que vai ser fotografada, ela em geral fica constrangida e a foto perde a espontaneidade.
Daí a importância das câmeras portáteis, como a prestigiada Leica modelo M, usada por fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Joseph Koudelka, René Burri e tantos outros.
Destaque para Cartier-Bresson, que enterrou a sua durante a guerra e depois voltou para buscá-la — ele que chegou a ser dado como morto no conflito, pois ficou três anos como prisioneiro de guerra, e o Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, começou a organizar uma grande retrospectiva que seria póstuma.
Até que descobriu-se que ele estava vivo, e foi convidado para abrir a exposição.
Cartier-Bresson foi um dos grandes da fotografia de rua, e usava de várias técnicas para captar suas imagens: deixava o foco pré-estabelecido, esperava em lugares visualmente interessantes até aparecer uma cena relevante, compunha rigorosamente a imagem buscando linhas diagonais, padrões geométricos e equilíbrio entre luz e sombra.
Hoje tenho a impressão de que fotografia de rua tem se tornado mais difícil de fazer. As pessoas passaram a acreditar nesse negócio de “direito de imagem”, que nem existe, e são capazes de perseguir o fotógrafo em busca do suposto direito.
Eu mesmo, que pratico fotografia de rua, já fui perseguido por um muçulmano em Paris (ele pensou que havia sido fotografado por mim) e por um taxista em Brasília (ele também nem era o tema da foto).
É uma prática um tanto perigosa.
Do ponto de vista de quem é fotografado, não deveria ter medo algum. Um fotógrafo faz muitas fotos (às vezes milhares) para chegar a uma foto publicável. Mesmo que você tenha sido fotografado, é mínima a chance de sua foto ir para uma exposição ou um livro (ou até mesmo do Instagram do fotógrafo).
O fotógrafo português Nanã Souza Dias disse-me certa vez que a média de boa foto de rua de um fotógrafo profissional é uma por ano. Não duvido desse número. Claro que um Cartier-Bresson deve ter produzido mais, mas o número é realista.
Para quem quer fazer fotografia de rua, aí vão algumas dicas. Primeiro de tudo: você deve ser rápido e discreto. Uma vez que fizer a foto, você sai com agilidade. Se quiser fotografar um casal se beijando sentado num banco de praça finja que está fotografando outra coisa até eles se acostumarem com a sua presença — quando isso acontecer, faça a foto.
O principal: sempre “salve” a sua foto — ou seja, nunca deixe alguém te fazer apagar a foto, nem mesmo vê-la (no caso da fotografia digital).
Em tempos de vigilância e da crescente desconfiança entre as pessoas, a fotografia exige (e nos ensina) a ter coragem e a romper a barreira entre as pessoas. É um exercício de atenção ao mundo e as pessoas.
Josias Teófilo é escritor, jornalista e cineasta
Instagram: josiasteofilo
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