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Edição Semana 432

Por que todo maconheiro pensa que é artista?

Fumar baseado não produz talento, imaginação ou sensibilidade estética, mas funciona como rito de admissão

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Josias Teófilo
4 minutos de leitura 07.08.2026 03:30 comentários 4
Por que todo maconheiro pensa que é artista?
Marcha da Maconha. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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Existe um caminho muito comum para o mundo das artes, em que o jovem, no final do ensino médio, aprende a tocar violão, a fotografar ou a filmar, assume uma certa aparência de artista (deixa o cabelo crescer, faz tatuagens ou passa a usar roupas alternativas), começa a frequentar ambientes em que artistas frequentam e, de repente, passa a colher os frutos de ser um artista.

Mesmo sem ainda realizar uma obra de arte, ele conquista mulheres, é convidado a participar de círculos de artistas e entra na boemia típica, que inclui fumar maconha.

Por tudo isso, ele acredita que é artista. Como poderia não ser?

Só que um artista precisa de uma formação, e o sujeito pula essa etapa em função do convívio social, da aparência.

É claro que o mimetismo é fundamental na formação de um artista. Artistas imitam outros artistas por meio da convivência. Mas a formação e o estudo são importantes em qualquer arte, até na música popular.

Existe – especialmente no cinema e na música popular – uma certa sociabilidade baseada na maconha, que é uma droga bem social.

Noto certa uniformização das pessoas que entram nesses grupos: não só pela troca e pela amizade, mas por certo medo comum por usar uma substância proibida. Eles tendem a ficar à parte, ou se sentirem ao mesmo tempo especiais e perseguidos.

As opiniões tendem a ser bastante parecidas: votam na esquerda, defendem a legalização das drogas e do aborto, defendem e praticam relações amorosas mais fluidas (como a não-monogamia) e, para o que nos interessa no tema deste artigo, têm uma visão da arte politicamente engajada que serve a uma mudança social.

Não preciso nem dizer que, por isso tudo, ele despreza os cânones da arte e da cultura e está disposto a adaptar tudo para a conveniência política do momento.

Uma vez que ele não tem uma formação sólida, ou mesmo nenhuma formação, enxerga a arte como um comentário da atualidade política inspirado por leituras apressadas da atuação de artistas do passado.

Ora, o sujeito foi tragado para dentro do meio artístico. Ele não teve tempo de refletir profundamente sobre nada. Assumiu certa aparência, recebeu benesses por aparentar pertencer a um grupo e paga o preço para pertencer a ele: compartilhar das opiniões comuns dos artistas.

Os estereótipos dos artistas mudam de acordo com a época: quando eu estava na faculdade, no Recife, era um sujeito meio mangueboy, que anda de chinelo.

Mais recentemente, a coisa foi mudando, e o sujeito passou a usar bigode, calção curto e ecobag. A última mutação é usar saia e desconstruir os estereótipos masculinos – o que eu pessoalmente acho lamentável.

E o pior é que as pessoas realmente se agregam a partir de clichês estéticos e olham com cara feia para quem é diferente – diferente no sentido estético e, principalmente, no sentido ideológico.

É por isso que todo maconheiro pensa que é artista – ou ao menos parece pensar. Maconha não produz talento, imaginação ou sensibilidade estética. Ela acaba funcionando como um rito de admissão.

Fumar, vestir-se de certa maneira, repetir algumas opiniões e frequentar os lugares certos oferece ao sujeito a sensação de já pertencer ao mundo da arte – o que é um erro.

Na verdade, a maconha, quanto mais é usada, mais reduz a cognição e a memória, dois componentes fundamentais da imaginação – a matéria-prima essencial do artista.

O que falta em imaginação, sobra em engajamento e identidade de grupo – o que não deixa de ser uma forma de compensação.

Josias Teófilo é escritor, jornalista e cineasta

X: @josiasteofilo

Instagram: josiasteofilo

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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Josias Teófilo

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Comentários (4)

Orestillo Meliani Simone

2026-08-10 13:17:32

Perfeito


2026-08-08 17:40:21

Penso como vc, Josias. Talento ê outros quinhentos!


Mauro Seraphim

2026-08-07 09:50:48

É exatamente assim que acontece. Muito bom texto.


Avelar Menezes Gomes

2026-08-07 07:52:11

Kkkk bela sacada


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Comentários (4)

Orestillo Meliani Simone

2026-08-10 13:17:32

Perfeito


2026-08-08 17:40:21

Penso como vc, Josias. Talento ê outros quinhentos!


Mauro Seraphim

2026-08-07 09:50:48

É exatamente assim que acontece. Muito bom texto.


Avelar Menezes Gomes

2026-08-07 07:52:11

Kkkk bela sacada



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