Duas escritas e um dos maiores mistérios da Antiguidade
Pesquisadores começam a usar inteligência artificial para tentar decifrar a Linear A
A invenção da escrita representa uma das maiores transformações da história da civilização. Trata-se, para nós, de um ponto de viragem sem precedentes.
Enquanto a palavra falada desaparece no instante em que é pronunciada – e, então, depende de memória e tradição para se manter com alguma tangibilidade –, a palavra escrita persiste.
Ela permite registrar acontecimentos, organizar o comércio, administrar territórios, preservar tradições religiosas e transmitir conhecimento para gerações que não conhecerão aqueles que produziram os primeiros registros… segundo um mecanismo a que Platão se refere como “signos exteriores”.
Não por acaso, as primeiras formas de escrita surgiram em sociedades que alcançavam níveis crescentes de complexidade econômica e política. Quanto maior a necessidade de administrar pessoas, mercadorias, tributos e propriedades, maior também a necessidade de registrar informações de maneira estável.
Logo, é preciso dizer, a escrita não surge, em seus primeiros movimentos, para registrar a história, a poesia ou a filosofia de um povo. Ela tem caráter eminentemente de “inventário”.
Foi exatamente esse processo que ocorreu na ilha de Creta durante a Idade do Bronze. Entre aproximadamente 2 mil a.C. e 1.450 a.C., desenvolveu-se ali a civilização minoica, considerada uma das mais sofisticadas do Mediterrâneo oriental.
Os grandes palácios de Cnossos, Festo, Mália e Zakros concentravam funções políticas, religiosas, administrativas e econômicas. Neles, eram armazenados cereais, azeite, vinho, metais e produtos manufaturados provenientes de diferentes regiões.
Oficinas funcionavam sob supervisão palaciana, impostos eram recolhidos e redistribuídos, mercadorias entravam e saíam continuamente. Uma organização dessa dimensão exigia instrumentos capazes de controlar informações com precisão.
No início do século 20, quando o arqueólogo britânico Arthur Evans iniciou as escavações do palácio de Cnossos, encontrou centenas de pequenas tábuas de argila cobertas por sinais simples, formados principalmente por linhas retas e traços geométricos.
Como ainda não era possível compreender seu conteúdo, Evans limitou-se a classificá-los segundo sua aparência gráfica.
Chamou o sistema mais antigo de Linear A e reservou o nome Linear B para um conjunto semelhante de inscrições encontradas em contextos arqueológicos mais recentes.
O Linear A foi utilizado pela administração da civilização minoica durante seu período de maior prosperidade.
É, ao que tudo indica, um sistema predominantemente silábico, acompanhado por ideogramas empregados, parece, para indicar determinados produtos, animais, recipientes e outras categorias administrativas.
As inscrições conhecidas aparecem em tábuas de argila, selos, vasos e outros objetos ligados ao funcionamento cotidiano dos palácios.
Nenhum poema, tratado filosófico ou narrativa histórica chegou até nós por meio dessa escrita. O que foi preservado corresponde, em grande parte, ao universo burocrático de uma administração altamente organizada.
A sobrevivência dessas inscrições resulta de uma circunstância inesperada. As tábuas de argila eram moldadas para uso temporário e normalmente não eram queimadas em fornos.
Permaneciam secando ao ar livre e, terminado seu propósito, podiam ser descartadas ou reaproveitadas.
Os incêndios que destruíram diversos palácios minoicos alteraram esse destino. O calor acabou cozinhando acidentalmente a argila, tornando aquelas pequenas peças suficientemente resistentes para atravessar mais de três mil anos.
Aquilo que havia sido produzido para durar apenas alguns meses converteu-se em um dos mais importantes testemunhos da civilização minoica.
Por volta de 1.450 a.C., o equilíbrio político do mar Egeu começou a mudar.
Os micênios, estabelecidos na Grécia continental, em Peloponeso, passaram a exercer domínio sobre Creta e incorporaram parte da estrutura administrativa existente.
Em vez de abandonar o sistema de escrita encontrado nos palácios, adaptaram-no às necessidades de sua própria língua. Dessa adaptação surgiu o Linear B.
O Linear B passou a representar o grego micênico, a forma mais antiga da língua grega conhecida atualmente. O Linear A continuou registrando a língua falada pelos minoicos, um idioma cuja classificação permanece desconhecida.
Essa distinção só se tornou clara em meados do século 20. Até então, nenhum dos dois sistemas havia sido decifrado. A situação mudou em 1952, quando Michael Ventris, trabalhando em colaboração com o filólogo John Chadwick, demonstrou que o Linear B registrava efetivamente uma forma arcaica do grego.
A descoberta permanece como uma das maiores realizações da linguística histórica. Ventris não dispunha de uma inscrição bilíngue comparável à Pedra de Roseta, tampouco de qualquer documento que oferecesse uma chave evidente para a solução do problema.
Sua conclusão nasceu da análise paciente da distribuição dos sinais, da frequência com que apareciam, da identificação de padrões recorrentes e da hipótese de que determinados grupos poderiam corresponder aos nomes de cidades conhecidas do mundo micênico. Pouco a pouco, o sistema começou a revelar sua lógica interna.
Centenas de tábuas deixaram de ser simples conjuntos de sinais para revelar listas de trabalhadores, inventários de rebanhos, registros de azeite, vinho, tecidos, armas, perfumes e oferendas destinadas aos deuses.
O sucesso obtido com o Linear B levou muitos estudiosos a imaginar que o Linear A seguiria rapidamente o mesmo caminho. Convém, entretanto, não atribuir a tal expectativa um alcance que ela não tem.
O Linear A continua sem decifração aceita pela comunidade científica. Não sabemos a que família linguística pertencia a língua registrada nessas inscrições. Desconhecemos sua gramática, seu vocabulário e as relações que possa ter mantido com outros idiomas da Antiguidade.
A situação é exótica porque conhecemos muito sobre o contexto em que esses textos foram produzidos. Sabemos quem os escreveu, em que edifícios foram utilizados, quais atividades administrativas desempenhavam e até quais produtos aparecem representados por diversos ideogramas. O núcleo linguístico do sistema, porém, continua resistindo às tentativas de interpretação.
Agora, a inteligência artificial começa a entrar em jogo.
Recentemente, pesquisadores sugeriram que técnicas de aprendizado de máquina poderiam oferecer novas pistas para a interpretação do Linear A. A notícia repercutiu amplamente porque sugeria a possibilidade de aproximar os estudiosos de um enigma que atravessa mais de um século de pesquisas.
O entusiasmo inicial, contudo, veio acompanhado de prudência, como deve ser nesses casos.
Os estudos apresentam hipóteses sobre padrões linguísticos e possíveis interpretações, mas elas precisam ser confrontadas com um número muito maior de inscrições e submetidas ao exame crítico de outros pesquisadores.
Em linguística histórica, uma proposta dessa natureza só alcança aceitação quando consegue explicar de maneira consistente um conjunto amplo de documentos e produzir resultados reproduzíveis por diferentes equipes de pesquisa.
Mais de cem anos depois das escavações conduzidas por Arthur Evans em Cnossos, o Linear A continua ocupando uma posição invulgar entre as grandes escritas da Antiguidade.
Poucos sistemas são tão conhecidos em seu contexto arqueológico e, ao mesmo tempo, tão resistentes à compreensão de sua língua. Cada nova pequena descoberta amplia nosso conhecimento sobre a civilização minoica, mas a voz daqueles escribas permanece, por enquanto, apenas parcialmente acessível, via Linear B.
É justamente essa combinação de proximidade e distância que continua fazendo do Linear A um dos problemas mais fascinantes da arqueologia e da história da escrita.
Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia
Instagram: prof.dennysxavier
As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (3)
Alan Silva
2026-08-09 18:41:24The code book, de Simon Singh. Recomendo fortemente.
Annie
2026-08-09 08:22:04Muito bom texto
Avelar Menezes Gomes
2026-08-07 14:33:16Um mistério fascinante, tomara que a IA ajude a decifrar