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Edição Semana 382

As causas práticas da nossa miséria cultural

Milhões de brasileiros não acessam cultura porque não têm condições mínimas — comida, descanso, silêncio

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Josias Teófilo
4 minutos de leitura 29.08.2025 03:30 comentários 1
As causas práticas da nossa miséria cultural
Pancadão. Inteligência artificial Grok
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Durante toda a escola, eu tive grande dificuldade de aprendizado. Anos depois, vendo em retrospecto, noto que ia mal porque não me alimentava direito.

A produção intelectual – inclusive na escola – exige muito do cérebro. Se você não se alimenta bem não consegue se concentrar, não consegue aprender e não consegue produzir.

No meu caso, foi resultado de pura displicência e maus hábitos.

Mas, na de boa parte dos brasileiros, é uma impossibilidade real: eles não conseguem se alimentar bem porque não dispõem de recursos para isso.

Segundo dados de 2022, do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, 58,7% dos brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Cerca de 33 milhões de brasileiros passam fome (insegurança alimentar grave).

Com a inflação, a situação tem piorado. Outros dispõem de recursos mas alimentam-se mal por hábitos poucos saudáveis, o que produz o mesmo efeito: dificuldade de concentração e de aprendizado.

Li recentemente num livro chamado Saber descansar, de Fernando Sarráis, em que ele diz que não dormir bem ou não descansar verdadeiramente à noite produz igualmente dificuldade de concentração.

Outro motivo dos meus problemas de aprendizado – na verdade é um problema até hoje, às vezes durmo mal e não consigo produzir.

O pior é que, ainda segundo o autor, não dormir direito leva à ansiedade e busca por estímulos intensos, para compensar a falta de energia, como olhar telas de celular ou computador, ouvir música com batida intensa, ou assistir pornografia.

No Brasil, segundo dados da Associação Brasileira do Sono, 35% das pessoas têm dificuldade de dormir, ou seja, não consegue descansar, e está sujeito aos efeitos descritos por Sarráis.

Para completar o quadro terrível, boa parte da população brasileira não tem acesso a saneamento básico, é vítima ou teme a violência urbana. Isso tudo produz estresse e dificuldade para dormir.

O vereador Rubinho Nunes, que obteve mais de 100 mil votos, foi bem votado em áreas de periferia porque tem atuado contra os pancadões, que expõem essas pessoas a som altíssimo madrugada adentro, até a manhã.

Essas pessoas que moram em áreas carentes não podem nem dormir em paz.

Juntando isso tudo, podemos entender por que grande parcela da população não lê, não frequenta eventos culturais, não ouve boa música.

Não é que eles não querem, é que eles não conseguem — não têm o mínimo necessário para concentrar-se e assimilar o conhecimento.

Isso me lembra o que Gilberto Freyre dizia sobre os brasileiros miscigenados.

Na época dele, o racismo era considerado científico: atribuíam-se à miscigenação doenças, deformações físicas, fraquezas.

Freyre se opôs a isso dizendo que o problema dessas pessoas não era a miscigenação mas a desnutrição. Simples assim.

Infelizmente boa parte da população não consegue assimilar bens culturais complexos, como teatro, literatura, música clássica.

Isso afeta o consumo de cultura: os números no cinema, a venda de livros — não é à toa que o mercado editorial brasileiro seja subdesenvolvido, precário mesmo, comparado até a países significativamente menores, como Portugal.

Há quem diga que essas manifestações culturais são elitistas. Não são, apenas as pessoas não dispõem do mínimo necessário — no sentido bioquímico — para acessá-los.

Josias Teófilo é cineasta, escritor e jornalista

X: josiasteofilo

Instagram: josiasteofilo

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Josias Teófilo

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Comentários (1)

Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-09-02 15:14:11

Correto. Mas há também o incentivo maquiavélico da elite de manter o povo desdentado, analfabeto e ignorante. Mais fácil de controlar e mais dócil para achincalhar.


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Comentários (1)

Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-09-02 15:14:11

Correto. Mas há também o incentivo maquiavélico da elite de manter o povo desdentado, analfabeto e ignorante. Mais fácil de controlar e mais dócil para achincalhar.



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