LeandroNarloch

Ninguém controla a desigualdade

01.11.19

Os chilenos saíram às ruas em protesto contra o governo e, diz a imprensa, contra a desigualdade social. Talvez tenham sucesso no primeiro objetivo, mas o segundo é um pouco mais complicado.

É ilusão achar que controlamos a desigualdade de renda ou de patrimônio. Ela não está nas mãos de políticos bem-intencionados ou de manifestantes furiosos. É algo que surge de baixo para cima, fruto das escolhas e da interação de milhões de pessoas, e não da vontade de algum planejador social.

Um chileno de fato preocupado com a desigualdade deveria, por exemplo, evitar se casar com alguém da mesma classe. Pois o casamento é um motor cada vez mais potente de concentração de renda. Ricos costumam se casar com ricos, pobres com pobres. De um lado, a renda se acumula; do outro, a pobreza se agrava.

No passado, casamentos entre classes diferentes eram frequentes (o executivo e a sua secretária) e dispersavam o dinheiro. Hoje os casamentos seletivos estão mais comuns (o executivo e a executiva; o casal que se conhece na universidade). O economista Alparslan Tuncay, da Universidade de Chicago, concluiu que isso explica um terço do aumento da desigualdade americana entre 1960 e 1980. Um estudo da FGV de 2017 mostrou um efeito semelhante no Brasil.

A entrada das mulheres no mercado de trabalho, aliás, é o caso de boa notícia que aumentou a desigualdade. Nos anos 1950, em geral só as pobres trabalhavam — como telefonistas, secretárias, enfermeiras — enquanto as ricas ficavam em casa. A emancipação feminina aumentou mais a renda das famílias ricas que das pobres (onde as mulheres já trabalhavam).

O chileno pró-igualdade também deveria deixar de usar os serviços da Uber, da Netflix e do Facebook. Essas empresas são máquinas de concentração de renda. Antes delas, o dinheiro se dividia em milhões de cooperativas de táxi, canais de TV, jornais e revistas locais. A tecnologia criou mercados em que o vencedor leva tudo — uma única empresa domina todo o mercado mundial. O dinheiro se concentra, mas os consumidores têm acesso a bens melhores e mais baratos.

No Brasil, um fenômeno que encolheu a desigualdade passou longe da decisão de políticos: a demografia. Por muito tempo, as mulheres mais pobres tiveram muito mais filhos que as ricas. A renda per capita diminuía, assim como o investimento na educação de cada filho. Já as famílias ricas tinham poucos filhos, investiam muito na educação deles e não inundavam o mercado com trabalhadores qualificados, o que garantia salários altos.

Essa diferença de fecundidade despencou de 4,5 filhos por mulher em 1970 para 1,8 em 2005. Se não tivesse caído, em 2010 os brasileiros mais ricos seriam donos de 62% da renda nacional, e não de 45%, segundo um estudo do IPEA. (Propaganda: explico isso em mais detalhes no Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira).

Walter Scheidel, historiador de Stanford, analisou a desigualdade na história do mundo e descobriu o mais eficiente (talvez o único) nivelador de renda: as tragédias. Guerras, cataclismas e crises econômicas costumam devastar a riqueza em geral — a concentração diminui simplesmente porque a riqueza desaparece.

Pensando bem, se continuarem a destruir o país como fizeram nas últimas semanas, os manifestantes chilenos talvez consigam diminuir a desigualdade.

Leandro Narloch é jornalista e autor do 'Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil'.
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  1. Assim como eu fui beneficiada pelo excelente ensino de escola pública, tantos outros alunos, como os moradores de favela, também o foram!! Acho que as oportunidades e a educação de qualidade, reduziriam a desigualdade!!

  2. Bela materia. Mas fico sempre pensando, quem esta fomentabdo essa confusao. Combustao expontanea, nao acredito. Seria algo rapido. Essa esta durando demais e com estragos q mais parece auto flagelacao. Tem q ter um "grupo das trevas"agindo pra fazer td acontecer.

  3. Procusto , da mitologia grega, acabava com a desigualdade com seu LEITO DE PROCUSTO. Era a antevisão, há milênios, do que seria o comunismo

  4. Acho que a abordagem da educação de qualidade para reduzir a desigualdade seria mais apropriada. Não a que os políticos utilizam, de forma hipócrita, mas a que vivi na minha infância. As escolas públicas eram referência na educação. Eu, classe média, estudava na mesma escola que crianças que moravam em favela e conjuntos habitacionais no Leblon. A educação garante a igualdade de oportunidades.

  5. Leandro Narloch sempre ótimo, preciso, lógico e matemático. Só que algumas pessoas - que são 100% emocionais e 0% racionais - não gostam de ler essas verdades, que incomodam muito... Principalmente os que ainda seguem o credo da esquerda.

  6. (1) Clico em "entre na conversa" e não entro, pq nada aparece. (2) Seu artigo é muito bom. Fiz um comentário anterior, criticando as 'odes' contra as desigualdades e esqueci de parabenizá-lo pelo artigo.

  7. Olha aí, Nardoch - olho vivo na Natureza, na vida: NÃO HÁ IGUALDADE LITERAL!! Que imbecilidade esta, inventada pela sustentabilidade mística, de "diminuir desigualdades"??? Tudo na Natureza é desigual, e tem de lutar pela sobrevivência, sem ajuda de papais do céu! 'Igualdade' = entropia = morte!! Acordem desse delírio nada científico, afogado em paraísos inexistentes e improdutivos!! Caramba!

    1. caramba digo eu, seu comentário é estrondoso e inteligente, quase não o compreendi mais achei fantástico.

  8. Grande Narloch, aqui em Brasília esse fenômeno é BRUTAL: eu entrei no Banco Central em 1978, e namorei uma colega Analista. Mas me casei com uma linda dona de casa. Um colega ao meu lado casou-se com uma Analista do Banco do Brasil. O casal poupava o salário dele integral todos os meses. Resultado: estou pobre e ele muito RICO!!!!!!!

  9. A crítica genérica à desigualdade tem dna esquerdista e não não se sustenta à mínima crítica racional. É só olharmos para a Venezuela, para a Coréia do Norte, para Cuba e outros países esquerdistas para ver no que dá tentar implantar a igualdade à força. Só produz uma igualdade, a igualdade dos miseráveis. Bem estar mesmo, nestas sociedades, somente para os escolhidos pelo estado ou pelo partido, que são uma minoria.

  10. Normalmente misturam igualdade com taxação de fortuna;o Piketty foi um que fez isso, mas ele próprio fala que o lucro é motor dos negócios. Essa questão da fortuna é uma esperança tola, ou má fé mesmo, da turma esquerdalha: desafio a provarem o que vale na nossa questão fiscal (receita e despesas do governo) uma confiscação total das fortunas acima de R$ 4 milhões, por exemplo; pra mim não dá a metade da Dívida Bruta Governo Central. O fato é que todos os anos precisamos produzir tudo de novo.

  11. É impossível ter a igualdade gritada pela esquerda; somos por natureza desiguais biologicamente, mental e emocionalmente, e esses representarão nossa disciplina no trabalho, nossa dedicação e esforço, e consequentemente nossa renda ou salário. O imposto de renda é o máximo que podemos fazer pelo conjunto social sem destruir o grande motor da humanidade conhecido como lucro; normalmente os serviços públicos de educação e saúde tem que ser bons, senão a carga tributária será pouco útil.

  12. Seu texto é tão realista que é desconcertante! Mas tá na hora de parar de dourar as pílulas mesmo. Os fatos não se preocupam com nossas emoções.

  13. Nos ultimos 30 anos a pobreza no Chile caiu de 40% para 7%da população; enquanto na Argentina subiu de 7 para 40%. E contra números, não tem argumentos!!!

    1. Maria Regina, verdade, o chileno ao ascender à classe média quis mais do que conseguiu... enfim, pelo que se vê conseguiram e destruiram!!! Quanto à igualdade social , nunca haverá diante das diferenças individuais de caráter, inteligência, força de trabalho, etc. Não depende de nenhum governo ou regime. Impressionante a destruição da infra estrutura urbana chilena... a quem interessa? Ao povo? O Maduro já declarou que está sendo cumprido todo o decidido no Foro de São Paulo.

    1. Vocês não entenderam nada do que leram. O colunista não está defendendo que ricos casem com pobres, apenas afirmou que isso diminui a desigualdade. O que ele quis dizer - e que vocês não conseguiram entender - é que a desigualdade não é o problema (até porque, aliás, é incontrolável), e sim a POBREZA. Deu para entender agora? Caramba, ter que explicar coisas tão óbvias...

    2. Belo comentário, parabéns! Queria saber se o colunista fez ou está fazendo a parte dele. Será que ele se casou com uma ou um pobrezinho(a)?

    3. Belo comentário, parabéns! Queria saber se o colunista fez ou está fazendo a parte dele. Será que ele se casou com uma ou um pobrezinho(a)?

  14. Mais uma vez: pessimo. Se há uma razão para desigualdade é a condição humana (avarenta, individualmente). Diminuição da fecundidade, na minha humilde opinião, só foi possível com a Previdência Social. No mundo precário (e em que as prssoas se dispersm pelo globo... Ou até a Lua ou Marte!) que se avizinha, vai voltar a pena ter filhos!!!

    1. Até o Pelé, sic... já sabia o que estava por acontecer!!!

    2. E quando os militares lá atrás, falaram em controle de natalidade, o mundo veio abaixo!!!

    3. Cara, acho que vc não entendeu nada...ou pode estar sob efeito de algo proibido....

    4. Pensando bem, é bem provavel que eu não entendi o texto.

    5. Guerras e tragédias liquidaram o domínio e concentraçao de poder de Israel...

    6. Eram muito comuns mesmo os casamentos entre nobres e plebeus... E desde o modernismo, para imitar os nobres, tem sociedades aí que resolvem tudo "entre os irmaos".

    7. Guerras ou armamentos, recentemente, são as indústrias mais concentradoras de renda...

  15. A desigualdade de renda faz cada um ser livre para gerar riqueza e produzir seu auto desenvolvimento. Cada um contribuirá pelo bem do país da forma certa ou errada com pouco ou muito. A questão está nas oportunidades e no estímulo facilitador do Estado em gerar recursos e ferramenras de desenvolvimento iguais a todos. Depois cada um recebe conforme sua inércia ou suas conquistas.

    1. Exatamente. Melhor explicação não há. Perfeito. É justamente na geração de oportunidades e no estímulo facilitador do Estado que as políticas públicas deveriam se concentrar. Torço pelo Paulo Guedes e sua equipe. Avante senhores. Mudem o Brasil. Quando a economia estiver pulsante outras mudanças virão.

  16. Outra tragédia que tb reduz a desigualdade, pq fulmina com a riqueza, é o comunismo. Só que, nesse caso, com a pouca riqueza concentrada nas mãos do Estado, só se dão bem os amigos do poder, a alta cúpula do partidão.

    1. Essa forma é muito conhecida. Mas não tem benefícios para o povão. Há a desconcentração da renda pela miséria comum.

  17. A Eleição para Presidente no Chile foi Recente , porque não Elegeram um que os REPRESENTASSEM se são a Maioria? , ai neste Angu tem muitos Carossos

  18. Com certeza. E se forem abençoados com a queda de um fragmento cósmico de 35 toneladas com poder de 200 Hiroxima, os chilenos terão o privilégio de pegar um caderno novinho pra desenhar um país novo. Até que isso aconteça, vão ter que levar balas de borracha de efeito moral (só cegam o cara, não matam, são boazinhas) e ver se o exército continua prussiano como bem conheceram os allendistas.

  19. O artigo insinua que ainda vivemos em regime de castas. Mobilidade social não existe. Quem nasce pobre morrerá pobre. É isso?

    1. Mais um que não entendeu nada do que leu. Ele não diz que a mobilidade social não existe, apenas disse que é impossível o governo controlar ou combater a desigualdade. Quanto a mobilidade social, ela é consequência apenas das ações de cada um (e não de políticas estatais). Entendeu agora?

    2. YES, É ISSO. AINDA MAIS NA SOCIEDADE CHILENA QUE É COMO UMA ÍNDIA EM TERMOS DE CASTAS. É SÓ IR LÁ , ESTUDAR E VER.

  20. Genial Leandro! Quem dera o jornalismo brasileiro tivesse mais jornalistas com a coragem, discernimento e precisão de vocês... simplesmente espetacular!

  21. Muito interessante e absolutamente didático. Nunca tinha atentado para os fatores apontados na reportagem, como geradores/fomentadores da desigualdade social. Agradeço ao articulista pelo esclarecimento

  22. Perfeito Leandro. Análise lúcida e sintética. minha opinião é que vc deveria acrescentar que ricos, além de se casarem com ricos, tem POUCOS FILHOS. Pobre, além de se casar com pobre, tem MUITOS FILHOS. É um aumento geométrico da pobreza, porque pobre, muitas vezes, ainda é irresponsável.

  23. 1 - A renda per capita dos chilenos aumentou muito em duas décadas; hoje o país está acima de muitos, inclusive do Brasil; deveriam estar mais contentes. 2 - A economia global tende a criar mega empresas, com mão-de-obra especializada e rarefeita; assim, a população acaba formando grande massa de desqualificados, obviamente, com renda inferior. Tal fato é concentrador de renda e está ocorrendo no mundo todo. O progresso não é equanimamente repartido. A situação tende a se agravar.

  24. O mundo nunca será de iguais, pois cada ser humano tem sua identidade individual, nem os gêmeos univitelinos, são iguais em suas características, nem vontades. O universo de cada é feito conforme suas escolhas. Comento esse pensamento no meu livro: O NEU MUNDO NUMA CASCA DE NOZ . Esse livro trata da FILOSOFIA TRIDIMENSIONAL DO SABER, fundamentada nos princípios: 1) evidência dos fatos, 2) realidade dos fatos e, 3) ideologia dos fatos. Somos racionais, mas, não comugamos mesmas vontades.

  25. Excelente texto, abordagem perfeita, o problema não é a desigualdade, o problema é a pobreza, essa que deve ser atacada e só o capitalismo conseguem fazer os pobres subirem de nível.

  26. Abre com uma ideia interessante, mas qual é a conclusão? Temos de aceitar a desigualdade crescente? Esperar pela tragédia? Para mim ficou a impressão de uma análise pela metade.

    1. Quem sabe essa outra 'metade' (ou 'solução', questionada por outro leitor) não esteja lá na Escandinávia? Será que ela toparia fazer uma visitinha às terras sulamericanas? ; )

  27. Os chilenos vão acabar nivelando por baixo, a melhor coisa que o Pinera poderia fazer, seria fazer uma troca, mandar uns chilenos para Venezuela, onde agora estão todos iguais e em contrapartida receber o mesmo tanto de venezuelanos, assim seriam todos felizes.

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