Reprodução/redes sociaisNa praia e com crucifixo no pescoço: Salvini fala o que muitos italianos querem ouvir

Um bufão cheio de energia

Matteo Salvini derruba o governo da Itália de olho no cargo de primeiro-ministro. Sua força está no populismo e na irritação dos italianos com os outros países europeus
23.08.19

Enquanto o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, anunciava sua renúncia na terça-feira, 20, o vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, sentado a seu lado direito, fazia caretas, revirava os olhos e movia a cabeça em sinal de reprovação. “Qualquer um que tenha responsabilidades no governo deve evitar, durante atos políticos, juntar slogans políticos com símbolos religiosos”, disse Conte, de pé. Com boa parte dos parlamentares aplaudindo com entusiasmo a fala, Salvini tirou um rosário do bolso, abaixou a cabeça e beijou o crucifixo, olhando de lado. “Matteo, esse comportamento não tem nada a ver com liberdade de religião. Isso pode atrapalhar o sentimento de pertencimento e manchar o princípio do secularismo, que é fundamental em um estado moderno”, emendou um Conte desconsolado.

Professor universitário e jurista, Conte foi pinçado para comandar uma coalizão de governo entre os dois partidos mais bem votados na eleição de março do ano passado: a Liga, do direitista Salvini, e o Movimento 5 Estrelas, criado pelo comediante antissistema Beppe Grillo e que hoje tem em Luigi di Maio, também vice-primeiro-ministro, seu maior protagonista. O remendo de governo teve seu prazo de validade encurtado quando Salvini anunciou que apresentaria uma moção de desconfiança a Conte, no início de agosto. Dito e feito. Com o fim do frágil equilíbrio, o presidente Sergio Mattarella iniciou conversas para tentar formar uma nova coalizão. A expectativa maior é a de um acordo entre o Partido Democrático, de centro-esquerda, e o 5 Estrelas. Como as negociações não evoluíram, Mattarella anunciou nesta quinta-feira, 22, que os encontros irão prosseguir até a próxima terça-feira. Se nada for alcançado, novas eleições serão convocadas.

Com 46 anos, debochado e usuário intensivo das redes sociais, Salvini é sem dúvida o político mais forte da Itália atualmente. Ele é bem avaliado por 40% da população e o seu partido, a Liga, poderia ter 36% dos votos em um próximo pleito. Se essa projeção se confirmar nas urnas, Salvini poderia governar com a ajuda de partidos muito menores, como o Irmãos da Itália. Outra possibilidade é a de que a Liga conquiste mais da metade dos votos e Salvini governe sozinho, algo que não acontece no país desde a queda do fascismo de Benito Mussolini, na Segunda Guerra Mundial.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisSalvini ao lado de Giuseppe Conte no Parlamento: governo durou 14 meses
A força de Salvini está em dizer o que o povão quer ouvir. No verão, ele foi sem camisa e com um crucifixo no pescoço – de novo o crucifixo – a uma praia italiana e tocou o hino nacional em uma picape de DJ, para delírio dos jovens ao redor. Divorciado, teve duas parceiras desde que entrou no governo. Quem o conhece desde pequeno afirma que ele nunca foi um católico praticante. Mas Salvini é um mestre em aproveitar as circunstâncias, quaisquer que sejam elas, a seu favor. Seu partido é o que tem mais eleitores católicos (cerca de 25%). Logo, Salvini tornou-se um católico fervoroso. Em maio, ele subiu ao palco para um comício em Milão levando consigo um rosário. “Desde aquele comício em Milão, todos os dias, aonde quer que eu vá, levo de volta para casa pelo menos uma dúzia de rosários (dados pelos eleitores)”, diz. Em uma cômoda de seu escritório, há uma coleção deles. “Sou crente. Por que teria de esconder isso?”, disse ao jornal Corriere della Sera.

Salvini é amado porque defende uma “Itália para os italianos” e, também como ministro do Interior, deteve na marra o afluxo de migrantes a seu país. Acusado de nacionalista e xenófobo, o político dá vazão a um sentimento compartilhado por muitos italianos de que eles foram prejudicados pelos demais países da União Europeia durante a crise migratória, que teve seu ápice em 2015. “Não acredito que a maioria dos italianos tenha problemas com imigrantes no seu dia a dia, mas é claro que os erros cometidos na administração do problema e a falta de solidariedade entre os países da União Europeia geraram uma criminalidade que não existia nas pequenas e nas grandes cidades”, diz Alfredo di Feo, professor no European College de Parma.

A origem da crise está em março de 2011, quando o primeiro-ministro inglês, David Cameron, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, decidiram bombardear a Líbia. Naquele ano, o ditador Muamar Kadafi estava em guerra contra tribos de rebeldes armados, encorajados pela Primavera Árabe. Kadafi acabou morto pelos próprios líbios em uma operação encampada pela Otan e pelos Estados Unidos. Hoje, suspeita-se de que Sarkozy tenha atuado para tentar apagar as evidências contra si próprio. Ele recebeu pelo menos 5 milhões de euros de Kadafi em sua campanha eleitoral de 2007 e agora está respondendo a um processo pesado por isso.

Com Kadafi morto e empalado, a relação entre a Itália e a Líbia mudou por completo. Os dois países têm uma relação próxima não apenas por causa da localização geográfica, mas também pelo passado colonial, entre 1910 e 1947. Empresários italianos investiam na Líbia e vice-versa. Com a morte do ditador, em outubro de 2011, e o caos que se instalou no país, migrantes e refugiados do Oriente Médio, Ásia e África passaram a usar a Líbia como uma plataforma para a Europa.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisSalvini já começou a campanha para ser o próximo primeiro-ministro
Em 2015, o total de migrantes que entrou na Europa por terra e pelo mar bateu 1 milhão. Itália e Grécia foram os países que mais receberam gente. Assustados com a avalanche humana, governantes europeus começaram a fechar suas fronteiras terrestres. Uma disputa diplomática teve início. As nações mais ao sul e ao leste da Europa, que abrigaram mais migrantes, passaram a pressionar as demais a acolher uma quantidade maior de pessoas.

Para os italianos, a sensação de que os outros países da Europa estavam dando as costas foi inevitável. Em novembro de 2015, após os atentados terroristas em Paris, os franceses instalaram controles na fronteira com a Itália, ignorando o Acordo Schengen, que estabelece a livre circulação na União Europeia. A travessia para a França tornou-se praticamente inviável. No ano seguinte, a Áustria ergueu uma cerca na fronteira com a Itália.

Outro ponto polêmico sobre o qual Salvini traça sua estratégia política tem relação com os barcos de ONGs humanitárias de países como Espanha, Alemanha e Holanda, que resgatam migrantes em pleno mar. Em 2016, um relatório confidencial da agência de fronteiras da União Europeia, a Frontex, afirmou que os navios dos ativistas eram usados como um farol pelos barcos menores que deixavam a Líbia e seguiam na direção deles. Rapidamente, surgiram acusações de que os navios das ONGs eram usados como “táxis” por traficantes de pessoas. E Salvini embarcou nas acusações a essas organizações.

Reprodução/YouTube/EuronewsReprodução/YouTube/EuronewsO Open Arms: apenas um navio de ONG continua no Mediterrâneo
Em 2017, havia cerca de dez embarcações humanitárias resgatando migrantes e refugiados no Mediterrâneo. A partir daquele ano, promotores da ilha italiana da Sicília começaram a processar as ONGs. O fluxo migratório lentamente começou a diminuir por fatores externos, como o abrandamento na Guerra na Síria e um enfraquecimento do grupo terrorista Estado Islâmico. “Não é possível fazer uma relação entre o número de barcos de ONGs e o fluxo de migrantes. A prova disso é que a quantidade de migrantes começou a despencar quando havia mais barcos humanitários atuando”, diz Eugenio Cusumano, professor de relações internacionais na Universidade Leiden, na Holanda. “Apesar disso, a ideia de que as ONGs colaboram com os traficantes de pessoas continua muito difundida entre os italianos. Para eles, os ativistas se saem como os salvadores, mas a Itália é que carrega o fardo.”

Segundo pesquisa do instituto More in Common, 49% dos italianos acham que as ONGs não ligam para o impacto de suas ações na Itália. No período de um ano, a confiança nas ONGs entre os italianos caiu de 59% para 46%. “Foi o maior declínio de confiança entre todas as instituições da Itália, o que se deve não apenas aos navios humanitários no Mediterrâneo como também às denúncias de uso indevido de fundos públicos na administração de abrigos”, diz a pesquisadora espanhola Míriam Juan-Torres, do More in Common, em Londres.

No início de agosto, Salvini proibiu os navios de ONGs de entrar em águas italianas, com sanções mais duras. A ordem permite o confisco de embarcações e prevê uma multa de 1 milhão de euros aos comandantes que desobedecerem a regra. A decisão já produziu resultados. Na semana passada, o barco espanhol Open Arms conseguiu atracar com cerca de oitenta migrantes na ilha de Lampedusa, a duzentos quilômetros da Tunísia, depois de vinte dias no mar. O barco deverá ser retirado de circulação. Com isso, apenas um navio, o Ocean Viking, da organização Médicos Sem fronteiras, continuará na região. “Como não será mais possível desembarcar migrantes na Itália, ficará impossível para as ONGs manter uma presença constante no mar”, diz Cusumano. “É assim que têm sido as coisas desde que Salvini assumiu como ministro do Interior, em 2018.”

No cargo, Salvini cumpriu o que prometeu. Seu plano agora é o de ganhar as eleições para tornar-se o próximo primeiro-ministro da Itália. No entanto, o tiro pode sair pela culatra se Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas, alcançar um acordo com Matteo Renzi, do Partido Democrático, para formar um novo, e certamente cambaleante, governo.

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500
  1. Brasil e Itália possuem características em comum. Lá na UE a Itália é tida como a nação mais corrupta do bloco europeu. Lá os corruptos venceram a operação Mãos Limpas e aqui estamos no mesmo caminho a ser conduzido pelo STF, Alcolumbre, Maia e os Bolsonaro.

  2. Salvini é necessário para o momento italiano. A administração do PD (Renzi) foi caótica. O M5S (aloprado) é o caos permanente, uma zorra. Salvini colocou ordem na Itália, na medida do possível. Conte fazia o papel de conciliador entre os dois partidos no poder, mas não tinha força de fato. Salvini com Meloni deverão assumir a Itália e continuar a colocar ordem na casa. A hipocrisia da França, com Macron e Hollande, é algo revoltante. Alemanha fez ouvidos de mercador. Auguri, Salvini !!!

    1. Apesar de discordar de 99% do que o Cretino posta, desta vez tenho que reconhecer que ele foi correto e preciso. Ninguém deixa a porta aberta da própria casa, então por que 1 país tem que deixar a fronteira aberta para estrangeiros? A entrada de imigrantes na força da canetada de políticos populistas e progressistas escandalosos só prejudica a base da sociedade do país que é obrigado a recebe-los, pois os mesmos que clamam por mais imigrantes, assistem tudo de dentro de seus condomínios fechados

    2. Também concordo! Fiquei apavorada com a degradação da Itália por causa dos imigrantes! Tb acho que é o momento da Itália para os italianos! Finalmente a Itália tem um líder da direita no poder! Forza Salvini!

    3. O Duda focou mais na ofensa aos cristão criticando o rosário.

    4. o sr cretino sintetizou exactamente a verdadeira situacao na italia. o sr duda foi muito prolixo e demostrou nao entender o que esta´acontecendo por la. nao entende a consecutio temporum, o sovranismo e o que e´o Homo Faber. uma pena duda.

  3. A bela idéia da União Européia que prenunciava um ágil salto evolutivo nas relações entre as nações e, em razão disso, um salto em nosso processo civilizatório, ainda que, indiscutivelmente, valha a pena prosseguir insistindo, transformou-se numa quase geléia geral, justamente porque os países estão nas mãos de gestores inaptos e medíocres para a importância dessa etapa de progresso da nossa civilização.

    1. Tal desafiador e abrangente intento, é evidente, deve ser multidisciplinarmente científico, racional, objetivo e isento de ingerências e interesses ideológicos e políticos, podendo perfeitamente ser encarado como um investimento altamente lucrativo para o bem estar comum já que, civilizar resulta obviamente em estabilização e equacionamento de uma diversidade incalculável de problemas exponencialmente mais onerosos em todos os sentidos.

    2. Enquanto a elevada, formal e específica qualificação de gestores e suas equipes ñ for condição 'sine qua non' p/ que governem os seus países, seremos uma sociedade planetária claudicante, instável e sujeita a graves episódios de retrocesso. Há que haver tb a consciência de que, conjunta e obrigatoriamente temos que promover humanamente os países que por si só ñ o conseguem sem ajuda. É um projeto complexo, trabalhoso, dispendioso mas, por razões diversas, necessário à sobrevivência de todos nós.

  4. A Itália na berlinda. O euro nao deu muito certo por la. O italiano bem mais pobre, salarios baixos, custo de vida alto, pais envelheceu com custos elevados com aposentadorias e grave desemprego. Lamentavel. Estão precisando de nova operação "mãos limpa". Esperamos que deem a volta por cima.

    1. Se a Italia tivesse um Bolsonaro, nós poderíamos ter esperança de recuperar a confiança no país, paesano..

  5. ESQUERDALHA HIPOCRITA . A esquerda chama os nacionalistas de xenófobos porque não querem imigrantes ilegais nos seus países . Mas proíbe imigrantes legais de saírem de Cuba e da Coreia do Norte para outros países . Além disso , ONGs de imigração ilegal trabalham em parceria com traficantes de pessoas . 🇧🇷

  6. ESQUERDALHA HIPOCRITA . A esquerda prega a separação da religião e do Estado para os cristãos , mas não para os muçulmanos . A esquerda proíbe crucifixos e bíblias em repartições públicas , o Conte proíbe beijar o crucifixo . Mas com os muçulmanos é diferente , as muçulmanas podem usar hijab(véu islâmico) nas repartições públicas , além de reivindicar salas separadas para muçulmanas em escolas , hospitais e piscinas públicas . E a esquerda apoia a imposição da Sharia(lei islamica) na Europa.🇧🇷

  7. A lógica do professor Alfredo é uma pérola. Numa mesma oração ele consegue dizer que não há problemas dos italianos com imigrantes no seu dia-a-dia e que os erros da administração e a falta de solidariedade de outros países europeus geraram uma criminalidade que não existia nas pequenas e grandes cidades. Que primor de raciocínio!

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