Goran Tomasevic/ReutersCombatentes curdos em ação contra o Estado Islâmico: os terroristas perderam o território, mas ainda representam risco

O terror não se rende

Apesar de perder seu último território, o Estado Islâmico aumenta e diversifica sua presença na internet e conta com milhares de membros vagando em busca de um novo califado
08.03.19

O vilarejo sírio de Baghouz, às margens do Rio Eufrates e perto da fronteira com o Iraque, foi o último reduto do califado do Estado Islâmico (EI). Na semana passada, as Forças Democráticas Sírias, um contingente de soldados curdos e árabes apoiados pelos Estados Unidos, subjugaram os terroristas remanescentes. Eles eram cerca de 500 e controlavam uma área com menos de um quilômetro quadrado. Seis meses depois de iniciada a batalha pela vila, foram capturados ou se renderam. Militarmente, a batalha de Baghouz significa o fim do território do grupo terrorista, que não terá mais direito a uma mínima mancha nos mapas do Oriente Médio. Sua ideologia extremista, contudo, persistirá, principalmente por meio da sua presença na internet, que aumentou nos últimos tempos.

Desde que se anunciou para o mundo, em 2014, o Estado Islâmico se destacou de outros grupos terroristas por ter conseguido um vasto território em mais de um país (Iraque e Síria) e ter reinado soberano sobre ele. A queda de Baghouz deixa o EI sem uma área para chamar de califado. Restou-lhe as redes sociais. É certo que ficou mais difícil assistir a um vídeo de uma decapitação na internet, graças ao esforço de Facebook, Twitter e Google de neutralizar postagens extremistas. Com o cerco digital se fechando, a saída para o Estado Islâmico foi criar canais e salas de bate-papo em plataformas criptografadas, como o aplicativo Telegram. “Em algum momento do ano passado, quando ficou óbvio que eles seriam expulsos da Síria e do Iraque, os terroristas passaram a se comunicar em outras línguas e a se espalhar para outros países, principalmente para o Sudeste da Ásia e para a região entre o Paquistão e o Afeganistão”, diz Mia Bloom, professora da Universidade Estadual da Geórgia que monitora as atividades dos terroristas na internet. Segundo ela, eles também passaram a falar mais do Egito, do Iêmen e, mais recentemente, da China, onde uma minoria muçulmana vive no sudoeste do país.

Para as novas audiências, os terroristas não mandam mais mensagens convidando os interessados a viajar para o Oriente Médio, uma vez que perderam a sua base territorial. O que eles fazem agora é disseminar manuais sobre como montar bombas, jogar veículos contra multidões e esfaquear pessoas de modo a matá-las. A era dos lobos solitários, que se radicalizam a distância, não terminou e vem sendo expandida. O Brasil foi incorporado a esse universo extremista em 2016, quando a Polícia Federal prendeu um grupo de brasileiros que planejava atentados na Olimpíada do Rio de Janeiro. Onze foram denunciados por formação de organização criminosa e promoção do Estado Islâmico.

Além dos lobos solitários, o Estado Islâmico sobrevive na pele dos que viveram dentro de seu califado. Muitos dos que deixaram Baghouz nos últimos meses não eram parte de uma população que foi feita refém, mas terroristas e seus familiares. Em prisões ou campos de refugiados, eles agora aguardam que os seus destinos sejam decididos entre as forças que lutaram na Síria e os governos de seus países de origem. Ninguém os quer. No mês passado, o presidente americano Donald Trump fez uma cobrança no Twitter aos países da União Europeia. “Os Estados Unidos estão pedindo para Inglaterra, França, Alemanha e outros aliados europeus que levem de volta mais de 800 combatentes do EI que capturamos na Síria e os levem a julgamento”, escreveu ele. “A alternativa não é boa, pois seremos forçados a liberá-los”. Receber esses terroristas convictos é um problema para qualquer país. Mesmo que sejam presos por algum período, eles poderiam voltar à ativa depois de soltos. Há ainda o risco de radicalizarem outros presos dentro das prisões.

As forças curdas que lutaram no Iraque e na Síria relatam um número ainda maior de terroristas em suas prisões. Eles seriam mais de 2.000, de 48 nacionalidades diferentes. Rússia, Cazaquistão, Sudão e Indonésia têm aceitado o retorno de alguns, mas vários países os têm recusado. Um dos casos mais famosos é o de Shamima Begum, uma inglesa filha de bengalis que se juntou ao EI em 2015, quando tinha apenas 15 anos. Semanas depois de chegar à Síria, ela se casou com um holandês e teve três filhos, dos quais os primeiros dois morreram. Shamima chegou a viver em Baghouz e acabou sendo identificada por um jornalista inglês em um campo de refugiados perto do vilarejo. Seu desejo é o de retornar para a Inglaterra, mas as autoridades lhe tiraram seu passaporte e a despojaram de sua nacionalidade. Somente seu filho, o terceiro, poderá entrar no país. Ao falar, a “noiva do EI”, como é chamada pela imprensa, deixa claro o poder da ideologia do Estado Islâmico. Ela não se arrepende de ter se unido ao grupo e defende suas atrocidades. “Quando eu vi minha primeira cabeça decepada em uma lixeira, isso não me incomodou. Era de um homem que foi capturado no campo de batalha, um inimigo do Islã”, disse ela a jornalistas. Seu marido, Yago Riedijk, de 27 anos, está preso na Síria e afirmou que pensa em levá-la para a Holanda um dia. Se voltar a seu país, ele terá de cumprir seis anos de prisão por ter pertencido a uma organização terrorista. Riedijk admite que lutou pelo EI e não vê problemas em ter casado com uma menina de 15 anos.

A preocupação maior do momento é com as forças – principalmente curdas – que lutaram contra o EI e mantêm milhares de prisioneiros. Em breve, eles terão outros desafios pela frente. Como a repatriação dos terroristas acontece a conta-gotas e Trump já anunciou a retirada das tropas americanas da Síria, o medo é o de que o presidente turco, Recep Erdogan, envie ainda mais soldados e aviões para combater os curdos. Espalhados por Síria, Iraque, Irã e Turquia, os curdos são uma etnia orgulhosa que nunca deixou de sonhar com um estado próprio. Erdogan os tem como adversários políticos, teme os atentados do grupo terrorista curdo PKK e quer evitar as correntes separatistas dentro de suas fronteiras. “Milhares de terroristas do Estado Islâmico podem ser libertados simplesmente porque os curdos estão preocupados com uma nova ofensiva da Turquia”, diz Mia Bloom. “O que podemos ter então são milhares de terroristas sem estado, vagando pelo mundo em busca de uma nova oportunidade para lutar.” Seja pela presença na internet ou pelos milhares de terroristas que ainda restam, o Estado Islâmico está longe de ter o seu fim decretado.

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500
  1. Terroristas virão p/ Brasil. A NOVA LEI IMIGRAÇÃO '08 permite entrada livre no BRASIL e de apátridas, caso dos combatentes Estado Islâmico

  2. Criem um CCMT (Campo de Concentração Mundial para Terroristas) sob um comando de vários países. Montem um sistema de trabalho forçado se necessário de mínimo 12 horas dia e só quem trabalha come. Uma vez provado ser terrorista já está julgado 25 anos sem qualquer apelo, benefício ou abreviação do prazo. Sem visita íntima, advogado nem Gilmar Mendes. Após 25 anos julga se ele já pode ser solto ou "revova"o período de prisão. São monstros, não tem direitos humanos.

    1. O Pessoal dos Direitos Humanos considera ESTÁ categoria como "protegida" e querida! vide como xiaram com Guantanamo! !

  3. Boa matéria! Já tinha comentando aqui, além dos crimes de colarinho branco, façam reportagem também sobre organizações criminosas, como PCC e PV. Elas estão crescendo e não vejo preocupação dos nossos governantes em combater. O crime tem que ser combatido em todas as frentes!

  4. Só tem um jeito. Ou esses ratos são eliminados ou o mundo se arrependerá depois. Fizeram atrocidades iguais ou piores aos nazistas.

    1. Gente incompetente e fracassada esconde suas deficiências em nefastas patologias travestidas de ideologias como o comunísmo e Islamìsmo. O que um adepto dessas ideias patologicas produziu para a humanidade. No campo das ciências algum deles produziu alguma coisa de bom ? Qual o nome dele ?

  5. Manda tudo pro Francisco. O lugar dessa gente é junto com o Papa.Ele não disse que o honem nunca perde sua dignidade. O lugar dos estupradores das meninas Yazidis é no Vaticano.

  6. Tudo que é terrorismo de direita ou de esquerda deve ser combatido...Em particular este grupo de terroristas desta região desde o inicio se mostro muito desumano...A sua sobrevivência seria dificil como de fato aconteceu...

  7. Parece que o mundo está cheio de pessoas ressentidas. A ideologia de esquerda tem trabalhado muito para ajudar. Uma facção religiosa que oferece a possibilidade de vingança para os ressentidos acaba tendo sucesso, mesmo que com uma pequena porção destas pessoas. O resultado é o que estamos vendo nesta reportagem.

  8. Excelente. Alguém aí dúvida q esses assassinos por natureza q acharam uma ideologia q lhes fala ao coração e (falta de) razão, vão parar de matar?

  9. Excelente matéria, Duda. Por esta e por outras é que gosto da Crusoé e do Antagonista. Além das constantes "pílulas" e notícias breves, somos brindados com artigos como estes. Aliás, na abordagem de temas nacionais e internacionais, Crusoé esta semana se superou. Parabéns!

  10. Parabéns pela matéria, visto que a mídia quase toda de esquerda não divulga, principalmente aqui na Europa. Este problema Curdo é decorrente da obra e graça do Sr. Churchill no fim da 1ª Grande Guerra que passou uma linha ente os países citados e "esqueceu" dos Curdos, que devem sim ter seu próprio País.

  11. O bom mesmo seria um paredão. Acabava com esta palhaçada. Fico pensando o que seria do mundo se Trump não tivesse se elegido. Trump salvou o mundo desses débeis mentais.

  12. O terrorismo do Estado Islâmico é o da vez. Sempre teremos seres humanos que se deixam iludir, eles são a matéria prima das religiões, dos regimes totalitários de todos os matizes. A humanidade é isso. O Islamismo como o Catolicismo, com a Inquisição, o Nazismo, o Comunismo, etc.. prestam à exploração dos crentes fanáticos.

  13. Eu fico muito desconfiada quando se passa muito tempo sem eles realizarem um grande ataque coordenado. Os lobos solitários são terríveis mas não contentam seus chefes.

  14. Recuperar terroristas é virtualmente impossível. Matá-los é uma opção mas se você usa armamento pesado, mata o mocinho junto. Políticas de médio e longo prazo podem ajudar a diminuir do número de candidatos, mas não acaba com o negócio. Conclusão: a gente vai ter que aprender a conviver com esses loucos.

    1. O caralho. Tem que fuzilar todos ou manter em prisão perpétua com trabalho forçado. Certo comuna ?

  15. Nessas horas vale lembrar a grande estadista Margareth Tatcher, pela aplicação da pena d morte e no tratamento duro a terroristas. Pelo bem maior da civilização

    1. Se tem um caso em que a pena de morte é a única possível, parece ser este aqui exposto! Não por ódio, mas por falta de alternativa.

  16. Gente ruim sempre vai existir isso é da imperfeição da nossa espécie! Gente ruim e estupida vai continuar servindo para teste de novas armas, sistemas de detecções e drones cada vez mais eficientes!! Com essa gentet lida-se assim!!! Pronto!!!

  17. Vocês não percebem que o logo da Crusoé tem as mesmas cores da bandeira do E.I !?!? O Sabino nunca ne enganou com aquela careca dele! 😂😂😂

  18. Coloquem esses malditos assassinos, inclusive a "noivinha do ei", dentro de um velho navio, e torpedei-o assim que estiver em pleno oceano. Essa escória é o lixo do mundo!!!!!

    1. Pois achei muito boa a reportagem, e agora? Adoro a Crusoé, vou renovar minha assinatura com certeza mas não preciso ficar repetindo isto. Eu que te pergunto, qual o seu objetivo?

    2. Quem se perdeu foram os fascistinhas que querem que matem todos que não concordam com eles.

    3. Gostei da reportagem, achei esclarecedora. Não é por descordar que opto por ignorar, muito pelo contrário.

    4. Vocês devem fazer uma lista do que deve ser publicado e mandar para a Crusoé.

    5. É verdade. A Crusoé se perdeu geral. Se o Isis precisava de uma fonte de divulgação dos seus propósitos e caminhos após a sua expulsão do Iraque e Síria, está aqui a Crusoé para fazer a propaganda do Isis na América Latina. Só era o que faltava. Crusoé já entrou em decadência??

    1. Meu objetivo de assinar a Crusoé é não ter que comprar mais jornal impresso. Então mandem ver nas notícias internacionais tbm. Saber sobre o terrorismo não é promove-lo. Se fosse assim não saberíamos de mais nada.

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