REUTERS/Evelyn Hockstein/File Photo

A erosão da campanha presidencial de Donald Trump

Quatro processos criminais podem não impedir o ex-presidente de se candidatar em 2024, mas o desgaste à sua campanha se acentua
18.08.23

Donald Trump virou réu em mais um processo criminal no início desta semana. Um júri aceitou uma denúncia da promotoria do condado de Fulton, no estado da Geórgia, apontando uma série de esforços de Trump e aliados para tentar fraudar as eleições de 2020. O episódio mais importante é um telefonema entre o ex-presidente e a maior autoridade eleitoral da Geórgia, o secretário de Estado, Brad Raffensperger. Em 2 de janeiro de 2021, a dias da posse de Joe Biden, Trump pressionou, sem sucesso, Raffensperger para “encontrar 11.780 votos” a seu favor, um a mais do que o necessário para vencer o democrata no estado. O ex-presidente responde a 13 acusações criminais, incluindo uma por corrupção com pena irrevogável de prisão. Esse é o mais grave dos quatro processos criminais abertos contra Trump desde que ele deixou a presidência. Acumulados, todos esses casos resultam em desgaste político e legal para o republicano na campanha presidencial de 2024.

A denúncia na Geórgia é especial pela envergadura das acusações e por tramitar na esfera estadual. Esse é o maior processo em número de réus, 19. O caso federal sobre a invasão ao Capitólio, aberto no início de agosto, tem sete. Os outros não passam de três. A inclusão de tantos denunciados na Geórgia se deve à lei estadual anticorrupção, uma das mais abrangentes do país. O processo, além disso, relata episódios de assédio com os quais todo eleitor pode se identificar. “A história fica mais pessoal, local e intensa”, diz Joshua Dressler, da Universidade do Estado de Ohio.

Ainda que Trump seja eleito mais uma vez em 2024, um processo na Justiça estadual lhe traria dificuldades peculiares. Por exemplo, ele teria meios limitados para obstruí-lo. A possibilidade de um presidente ser condenado à prisão e cumprir pena é uma controvérsia ainda não discutida pela Suprema Corte, hoje dominada por republicanos. O que é certo é que Trump não poderia conceder perdão a si mesmo – alternativa aventada por republicanos no caso de condenações na justiça federal.

O acúmulo de processos põe outros obstáculos inéditos no caminho de Trump. A 14ª Emenda à Constituição americana impede que candidatos que já exerceram cargo público sob juramento e tenham “se envolvido em insurreição ou rebelião” voltem a se candidatar, salvo excepcional anistia pelo Congresso. As denúncias por fraude e pelo envolvimento na invasão ao Capitólio já seriam suficientes para acionar essa cláusula de inelegibilidade, segundo alguns constitucionalistas.

Talvez o aspecto mais surpreendente das atribulações jurídicas de Trump seja o fato de elas não terem causado um desgaste definitivo em sua imagem. Os casos da Geórgia e da invasão ao Capitólio mostram tentativas de fraudar as eleições de 2020. O processo federal sobre os documentos secretos, aberto em junho, revelou como Trump comprometeu a segurança nacional ao manter ilegalmente arquivos confidenciais da Casa Branca em sua residência pessoal na Flórida. O menos relevante dos quatro processos, aberto em abril, expõe o  suposto uso de fundos da campanha de 2016 para subornar uma atriz pornô e esconder um caso extraconjugal. Todos esses casos servem à narrativa da perseguição política. Trump lidera mais do que nunca as primárias do Partido Republicano, com quase 40 pontos à frente do segundo colocado, segundo o site de análise de pesquisas eleitorais FiveThirtyEight. Mas, há um preço. Os índices de aprovação de Trump sofreram quedas de dois a três pontos a cada abertura dos processo, entre todos os eleitores e mesmo entre republicanos. A concorrência nas primárias apenas não consegue capitalizar.

A mais de um ano para a eleição, a tendência é que Trump continue a se impor nas primárias republicanas enquanto se torna menos competitivo no pleito geral. “Os custos legais estão se acumulando. Cada vez mais, Trump precisa desviar recursos do que seriam os seus fundos de campanha”, diz Alexander Bateman, da Universidade Cornell. “Mais importante, o peso cumulativo das acusações pode prender Trump irremediavelmente na armadilha da narrativa da perseguição política. Esse discurso não é forte o bastante para um candidato nas eleições nacionais”, acrescenta. Nas eleições parlamentares de 2022, candidatos à Câmara representando a ala ideológica do trumpismo se saíram pior do que republicanos tradicionais. Quem vence as primárias nos Estados Unidos vira candidato, e nada mais.

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