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O fim do dólar 

Alarmismos sobre o fim da moeda americana têm tomado conta da imprensa, mas ignoram conceitos relevantes, como a função de uma moeda
06.04.23

A lenda de El Dorado, ou “o homem dourado“, conta a história de um cacique muísca (um povoado indigena na Colômbia), que possuía o hábito de se banhar em ouro em pó, tamanha a abundância do metal precioso na região.

Este relato foi responsável pela cobiça com a qual conquistadores espanhóis como Francisco Pizarro fincaram suas bandeiras na região dos Andes. Apesar da lenda, logo se descobriria que o ouro não era exatamente o metal mais valioso da região. De fato, havia muito pouco dele.

Temos por aqui o hábito de engrandecer o valor do ouro na história, em parte graças à nossa bronca com portugueses que exploravam a região de Minas Gerais, mas o fato é que, ao longo da maior parte da história, foi a prata quem teve papel de destaque.

Pizarro e os espanhóis não acharam ouro, mas encontraram prata em abundância.

Situada a 4 mil metros de altura, a cidade boliviana de Potosí tornou-se conhecida como a primeira cidade global no mundo. Das suas “montanhas de prata“, e graças à tecnologia espanhola para produção do metal (que acrescentou a técnica de separação pelo mercúrio ao trabalho indigena), a região proveu o mundo de dinheiro por séculos.

A prata tornou-se indissociável da riqueza espanhola. Foi responsável por nomear nossa vizinha Argentina (terra da Prata em espanhol), por onde escoava o metal, além do Real de 8, a primeira moeda mundialmente utilizada.

O Real de 8, por sua vez, possuía outro apelido. Seguindo a moeda, também de prata, mais usada no sacro império romano germânico, originária das minas de Joachimsthal na República Checa e que ganharia o nome de Thaler, Daler, ou Dólar, a moeda espanhola ficaria conhecida como “dollar espanhol“.

Foi nessa moeda que os caipiras responsáveis por derrotar o império britânico e criar os Estados Unidos da América se inspiraram para criar o seu “dólar“.

Foi também nos EUA, em 1873, que a prata morreu como reserva de valor.

O “ato de cunhagem de 1873” proibia expressamente os detentores de prata de cunhar os chamados “dólar prata“. Por default, o ato criava assim um “padrão ouro“.

A ideia de um padrão ouro, que significa que os dólares podem ser convertidos em ouro, estando portanto sujeitos à limitação do estoque do metal em um país, era um pouco mais antiga.

Sir Isaac Newton, quando de sua atuação como responsável pela “Casa da Moeda” no Reino Unido, já havia implementado algo similar, mas em um período onde a libra ainda não era uma moeda global.

A imposição americana foi seguida pelos europeus, com o ouro enfim se tornando sinônimo de dinheiro.

Um efeito tradicionalmente ignorado dessa decisão, reside sobre o destino de países que ainda mantinham-se no “padrão prata“, sendo o principal deles a China.

Entre 1873 e 1935, o ano em que a China finalmente abandonou o “padrão prata”, a correlação entre ouro e prata saiu de 15 ½ para 90 gramas de prata necessárias para se comprar 1 grama de ouro. Em suma, os chineses viram seu poder de compra cair algo como 80% graças ao isolamento pelo qual o país passou no sistema monetário global.

Dois anos antes, em 1933, Franklin D. Roosevelt havia mudado novamente o sistema. Através da ordem executiva 6102, o governo americano declarava o confisco do ouro na América. Portar ouro físico poderia render até mesmo prisão.

Foi no período entre 1933 e 1971 que o mundo viveu o “padrão dólar-ouro”, no qual US$ 35 eram equivalentes a 31,1 gramas de ouro (uma onça).

Esse padrão, por sua vez, seria derrubado pelo governo americano, uma vez que os países aliados viam com desconfiança os sucessivos déficits dos EUA para arcar com a guerra no Vietnã. Em um primeiro momento, o fim do padrão dólar-ouro deveria ser temporário, mas logo ele se tornou permanente.

E, enfim, chegamos ao estágio em que vivemos hoje. O dólar tornou-se a moeda global há meros 52 anos.

E se você chegou até aqui, deixe-me resumir a questão e partir para o que nos interessa.

O mundo viveu boa parte da sua história atrelando o dinheiro, ou os meios de troca, a algo físico limitado. Primeiro grãos, depois sal, gado, prata e ouro. Desde 1971, por meio do dólar, passamos a contar com o chamado dinheiro “fiduciário”, uma palavra que deriva do latim “fiducia”, ou “confiança”.

O dólar não possui qualquer respaldo físico, o que por sua vez significa dizer que os EUA podem simplesmente criar dinheiro e trocá-lo por bens materiais de outros países. Trata-se de um privilégio que nenhuma outra nação na história jamais teve.

E o abuso constante deste privilégio é o que leva a pergunta: o dólar irá continuar como moeda global?

A resposta simples é: sim, por um bom tempo. Mas como nada que envolva seres humanos é simples, convém entender os motivos.

Uma moeda possui 3 funções básicas: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor.

Nos últimos meses, incluindo o Brasil, diversos países têm sido abordados pela China para ampliar o uso do yuan. Na prática, os acordos têm garantido que a moeda chinesa possa ser usada como meio de troca.

Essa é uma tática interessante para atrair países com moeda fraca, como Brasil e Argentina, pois o que a China oferece é que possamos exportar recebendo em reais, enquanto a China por sua vez pagaria usando yuan. Isso exclui o dólar da transação, ao menos na primeira camada.

O problema que a China e todos os países ainda precisam enfrentar é: o dólar segue como a “unidade de conta” e a “reserva de valor”, por maior desconfiança que se tenha dos títulos americanos.

Isso ocorre pois a ausência de transparência por parte do PBOC, o Banco Central chinês, é completa. Há pouca ou nenhuma confiança de que a China deixe o valor do yuan fluir de acordo com as preferências de cada país. É uma moeda centralizada em essência. Ela se valoriza ou desvaloriza de acordo com o que for mais conveniente à China.

E este é um fator crucial em toda a questão de reserva de valor.

É improvável que o yuan venha a substituir o dólar, uma vez que o governo comunista controla o sistema financeiro e manipula o setor imobiliário (responsável por 70% da riqueza dos chineses). Essas duas questões dificilmente serão superadas, não importa o quão relevante como parceiro comercial a China seja.

É provável, porém, que o dólar diminua sua circulação, o que implicaria problemas aos EUA, com menor capacidade de despejar seu dinheiro no mundo.

Serão mudanças graduais, fruto de uma ordem mundial cada vez mais bipolar, mas cujos aspirantes a liderança ainda pecam em conceitos básicos.

 

Felippe Hermes é jornalista

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