ReproduçãoJosé Antonio Kast: promessa de volta ao passado e discurso a favor da ordem

O Chile ruma para os extremos

Os chilenos terão as eleições presidenciais mais polarizadas desde o retorno da democracia, com um candidato de direita que defende Pinochet e outro de esquerda que flerta com os atuais ditadores da região
19.11.21

Desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990, o Chile não vivia dias tão polarizados. Nas três décadas que se seguiram após a retomada da democracia, o país foi governado por uma coalizão de partidos de esquerda e de centro, a Concertación, e depois por dois presidentes em mandatos alternados: Michelle Bachelet e Sebastián Piñera. Em todos esses anos, partidos tradicionais mantiveram o eixo da política entre a centro-direita e a centro-esquerda. Mas, para o primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para o próximo domingo, 21, o país tem pela primeira vez dois candidatos saídos dos extremos do espectro político à frente nas pesquisas.

As semelhanças com o Brasil são incontornáveis. O candidato na dianteira das pesquisas chilenas é o advogado José Antonio Kast, de 55 anos e membro do Partido Republicanos. Ele tem entre 22% e 36% das intenções de voto. Kast agrada a saudosistas do período militar e a muitas famílias de classe média que pedem um retorno ao passado. São chilenos que se sentiram ameaçados com a chegada massiva de imigrantes, com os atentados de indígenas mapuches ao sul, com a elaboração de uma Constituição por uma convenção majoritariamente de esquerda, com políticas de gênero e com os atos de vandalismo durante os protestos de 2019. “Kast é um contrarrevolucionário que, assim como Jair Bolsonaro, emergiu fora da direita tradicional”, diz o cientista político Carlos Meléndez, da Universidade Diego Portales.

O “contrarrevolucionário” tem um perfil liberal na economia, algo que Bolsonaro prometeu adotar, mas não cumpriu. No mais, iguala-se ao brasileiro como conservador em questões sociais. Coloca-se contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo e fala em transformar o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero, por exemplo, em Ministério da Família. Sua inclinação pelos militares é bem conhecida dos chilenos, embora ultimamente ele venha tentando amenizar sua relação com o legado de Pinochet. No último debate na televisão, na segunda, 15, Kast se esquivou das perguntas que tentavam relacioná-lo ao ex-ditador. Disse ao final que não é pinochetista, que admite que ocorreram violações de direitos humanos na ditadura chilena e que apoiou reparações às vítimas. Em 2017, Kast afirmou que, se Pinochet estivesse vivo, votaria nele.Minha impressão é que ele é claramente pinochetista e fala essas coisas para tentar ligar sua figura à do ditador. Kast também já falou que defende com orgulho a obra da ditadura, apesar de dizer que rejeita as violações de direitos humanos. Mas ‘orgulho’ é uma apelação moral que não condiz com o assassinato de pessoas”, diz Jorge Gómez Arismendi, pesquisador da Fundação Para o Progresso, FPP, um centro de estudos liberal de Santiago.

ReproduçãoReproduçãoBoric: Partido Comunista apoiou ditadura de Daniel Ortega, na Nicarágua
Gabriel Boric, o mais provável adversário de Kast no segundo turno, tem 35 anos e começou a se destacar nos protestos de jovens em 2011. Nas últimas pesquisas, registrou entre 18% e 30% da preferência dos eleitores. Boric é de uma agrupação de partidos mais radicais que o tradicional Partido Socialista, de Bachelet. Tem agenda progressista, que fala em direitos dos indígenas, das mulheres, das pessoas LGBT e defende o meio ambiente. Sua maior semelhança com os esquerdistas brasileiros está na solidariedade com as ditaduras de esquerda da América Latina. Assim como o PT fez por aqui, o Partido Comunista e vários outros que apoiam Boric festejaram a vitória do nicaraguense Daniel Ortega, que prendeu sete pré-candidatos e tem mais de 170 presos políticos. Questionado, Boric afirmou que defende a democracia, embora não tenha condenado as arbitrariedades de Ortega, do venezuelano Nicolás Maduro ou dos repressores cubanos.

Para um país cujo PIB per capita em dólares é mais que o dobro do Brasil e que estava contando os anos para ser considerado desenvolvido, depositar o futuro em candidatos que se identificam com Augusto Pinochet ou Daniel Ortega representa um retrocesso. Os candidatos mais de centro que poderiam se apresentar como terceira via perderam gradualmente a força. Entre eles estão Yasna Provoste, de uma coalizão de centro-esquerda que inclui o Partido Socialista e o Democrata Cristão, e Sebastián Sichel, que concorria como independente e tinha o apoio do presidente Piñera. Desde que algumas polêmicas sobre o financiamento de campanhas antigas emergiram, eleitores de Sichel migraram gradualmente para Kast. No último debate, Sichel foi o que se saiu melhor. “O problema para ele é que falta muito pouco tempo para as eleições, o que torna muito difícil ganhar um lugar no segundo turno. Ainda podemos ter uma surpresa, mas as chances são baixas”, diz Victória León, que coordena a pesquisa eleitoral Pulso Ciudadano.

Vários fatores contribuíram ao longo dos anos para acentuar a polarização chilena. Um deles resultou de uma decisão bem-intencionada. Em 2014, o Chile implantou o voto facultativo com dois objetivos. O primeiro era empurrar os partidos a realizar mais ações para se conectar com seus eleitores. O segundo foi resolver o problema dos chilenos que não tiravam o título eleitoral porque não queriam ficar obrigados a votar em todos os pleitos. Sem esse compromisso, os legisladores imaginaram que mais pessoas exerceriam voluntariamente sua cidadania, ainda que de vez em quando. “O resultado foi que, para atrair os eleitores, os partidos passaram a investir em posições mais antagônicas, porque sabem que é mais fácil mobilizar as pessoas quando há um inimigo a ser combatido”, diz o sociólogo e economista Jorge Fábrega, da Universidade do Desenvolvimento, no Chile.

ReproduçãoReproduçãoSichel: a esperança de uma terceira via moderada foi bem no debate
Além do voto facultativo, a polarização foi estimulada por um descontentamento com a política e os seus representantes. Crescimento econômico menor e escândalos de corrupção levaram muitos chilenos a se cansar dos partidos tradicionais e a ficar mais suscetíveis a discursos radicais. Essa polarização se apresentou mais fortemente quando, ao tentar dar vazão aos protestos de 2019, o presidente Sebastián Piñera convocou um plebiscito para saber se a população apoiava ou não uma mudança na Constituição. “Aqueles que se colocaram a favor de uma nova Carta passaram a considerar todos os que eram contrários como pinochetistas. Aqueles que eram contra viram os favoráveis como comunistas marxistas”, diz Arismendi, da FPP. Com a aprovação de uma nova Constituição, a população toda se deu conta de que a maior parte dos redatores do novo texto eram de esquerda e pretendiam dar uma guinada no país. A maioria da população hoje reprova o trabalho da convenção constituinte, e muitos deles engrossam a fila de eleitores de Kast.

Em um provável segundo turno entre Kast e Boric, em dezembro, tudo vai depender da capacidade de cada um deles motivar seus eleitores a irem votar. Com qualquer um dos dois na presidência, a partir de março, o país terá problemas de governança. Sem maioria parlamentar, Kast teria muito trabalho para fazer com que o Chile volte atrás em temas sociais. Boric, por sua vez, poderia ficar dividido entre cortar o vínculo com os partidos que o apoiaram e tentar um governo mais moderado ou encabeçar a revolução com a qual seus eleitores mais afoitos sonham.

Alterações na Constituição que estão sendo propostas pelos grupos que apoiam Boric ainda podem deixar o país à beira de uma crise institucional profunda. Uma delas é a instituição de um estado plurinacional, algo que poderia fracionar o território do país e minar a ideia de nação. A outra é a defesa do parlamentarismo, um sistema no qual o Chile não tem tradição. “Um parlamento unicameral, em que os projetos sejam aprovados por maioria simples, poderia acelerar mudanças muito drásticas. Essas coisas certamente gerariam uma tensão enorme entre os chilenos”, diz Fábrega, da Universidade do Desenvolvimento. “Com Kast ou Boric como presidente, o Chile certamente terá muitos problemas de governabilidade.”

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  1. COITADO DO POVO CHILENO, VAI VIVER O QUE O BRASIL ESTÁ VIVENDO. DUAS MERDHAS PARA SE ESCOLHER NO CHILE. AINDA BEM QUE TEMOS O SERGIO MORO PARA PRESIDENTE EM 2022.

    1. O Gal. Pinochet realmente transformou o Chile, basta ver o Chile de ANTES, atrasado, paupérrimo, para o Chile DEPOIS, um país pujante e o mais bem resolvido da América Latina. Portanto o Chile tem o seu próprio marco temporal: AP e DP.

  2. não tenho a menor vontade de abir esta revista de tão esquerdista!!! já pedi meu cancelamento. foi uma decepção. agora tenho que aguentar até maio quando vence minha assinatura. honestamente não deveria ser renovação automática. não vi isso é fui um dos primeiros a assinar.

    1. O seu nome chama-se Falácia Digital, porque tenta descridibilizar a mídia, mas não analisa o artigo, a informação que a mesma produziu.

    2. Também vão me aturar até terminar, quem mandou renovar automática.🤣😃😅😄🐁🐁

    3. Raimundo tô na mesma situação, mas e bomq gente combate esses militantes e panacas . Escreve aí cruzuecapital tá com seus dias contados!

  3. Pois é…democracia.Reclamar da diversidade ideológica e política não é admissível, se queremos viver como homens livres.Por outro lado, quanto maior for a polarização,mais extremismos surgem.Escolhas equilibradas exigem caráter, valores e cultura ampla.Só assim podemos garantir a vida, a liberdade e a propriedade (no sentido descrito por Frederic Bastiat), fazermos escolhas e votar. Boa sorte, Chile.

    1. Valdemar ... um poder TUTELAR dois com um ministro ex presidente da corte admitindo publicamente o GRAVE CRIME contra o Estado brasileirio não é diversidade ideológica na verdade é GUERRA REVOLUCIONÁRIA em claro curso que as vítimas se recusam a ver .. e digo o motivo pelo terror medo de mais de 150 professos contra membros do legislativo o que os faz submissos e até algozes de si mesmos .. esta a verdade e dizê-la causa receio de violência mas uma nação não pode ser livre sob o terror.

    1. Depois de quase 40 anos morando mo Chile, um país maravilhoso, estar nessa situação, é no mínimo inquietante.

    2. É verdade! Um enorme desserviço!!! Depois de quase 40 anos morando no Chile, que é um país maravilhoso, estar nessa situação... é lamentável

  4. Porque a polarização? Ninguém aguenta mais esses partidos que não sai de cima do muro, um atraso. Vai para direita progresso ou retrocesso com a esquerda MALDITA.

  5. Na real, ninguém mais aguenta esse tal de politicamente correto, ideologia de gênero e de tudo, racismo de tudo, principalmente contra brancos e por isso mesmo, todo mundo quer um Bolsonaro só pra si, tipo a Inglaterra, Itália, Hungria, Argentina e agora o Chile. E nós, bolsonaristas-raíz, queremos o MITO reeleito em 2022 já no 1º turno.

    1. O Bozão não tem qualidades para Gestão de um país, a questão do bolsonarismo é ( um flagelo) emocional, e não racional.

    2. Nem Lula e nem Bolsonaro, mas por razões diferentes, claro.O Brasil precisa de um choque ético. No Legislativo e no Executivo.O judiciário só mudando a constituição ou a hora dos que lá estão, que cabe ao tempo e a Deus.Usar a sabedoria na escolha é a única garantia para que a vida, a liberdade e aquilo que pertence a cada se torne melhor, para o bem estar de todos. É difícil, mas possível. É negar à sedução à mágica dos caminhos fáceis e imediatos. Pense, escolha e vote.

  6. Chile e Brasil sob clara guerra revolucionária em curso e aplauso de imbecís sem memória .. o Chile teve 4 mil mortos no combate à ditadura contra 400 aqui noves foram uns 200 militares que o Exército nunca divulgará .. é possível que a nação mais sofrida e ajustada resolva na eleição suas mazelas mas seu desfecho pode indicar o que teremos aqui onde a guerra suja está em fase final com um poder tutelando os demais e controlando as urnas que o povo desconfia fraudáveis . vale asilo em Cuba?

  7. A polarização, esta danada. O texto faltou chamar os dois candidatos de feio e bobo. Sócrates via virtude no meio. Por que não numa destas pontas?

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