Sabrina Souza/TheNews2/FolhapressCartazes em inglês nos atos pró-governo: tentativa de chamar atenção no exterior e, ao mesmo tempo, um tiro no pé

A confusão vista de fora

Como governos estrangeiros e players que costumam orientar investimentos no país enxergam o caótico cenário brasileiro
10.09.21

O presidente Jair Bolsonaro está prestes a ingressar em seu último ano de mandato quase que totalmente isolado do resto do mundo. Com poucas chances de se reeleger em 2022, ele tem sido cada vez mais ignorado por outros chefes de governo, que raramente mencionam o seu nome e passam longe dos aeroportos brasileiros. Nos atos antidemocráticos do Sete de Setembro não foi diferente. A imprensa estrangeira deu pouco destaque aos protestos e nenhum político de peso levou a sério, ao menos publicamente, as declarações golpistas do presidente. Para eles, mais vale acompanhar o desenrolar dos acontecimentos à distância e aguardar até que Bolsonaro deixe o poder. Investidores estrangeiros, por sua vez, já não se animam tanto com uma recuperação da economia e já começaram a fazer as contas de olho no que virá depois.

Os danos à imagem externa do Brasil durante o governo de Bolsonaro têm ocorrido de maneira progressiva e já tiveram três momentos capitais até agora. O primeiro foi em 2019, ainda no primeiro ano de mandato, quando as queimadas na Amazônia e no Pantanal alcançaram números recordes. A destruição da floresta virou assunto em reunião do G7 e a chanceler alemã Angela Merkel foi flagrada dizendo que ligaria depois para o presidente. Dos Estados Unidos, Donald Trump telefonou para Bolsonaro e disse que seu país estava “pronto para ajudar”. O francês Emmanuel Macron quis conversar pessoalmente com o brasileiro em uma reunião do G20, em Osaka, para discutir a Amazônia. Ainda havia no ar alguma esperança de envolver Brasília em questões globais. O Brasil era chamado para ajudar em crises regionais, como a da Venezuela, e integrantes do governo eram convidados para reuniões na Casa Branca.

O segundo momento em que a imagem do país foi arranhada se deu em maio do ano passado. Com o número de mortes diárias por Covid ultrapassando o dos Estados Unidos, o Brasil apareceu em manchetes do mundo todo. O país ganhou, assim, o título de “epicentro da pandemia”. Como todos os governantes estavam preocupados com seus próprios problemas, as críticas à forma como Bolsonaro lidou com a Covid partiram principalmente dos brasileiros. O terceiro grande momento aflorou agora, com o presidente incitando a uma ruptura democrática. Mas, à diferença dos dois anteriores, ele foi ignorado. Diplomatas de países que antes eram considerados aliados do governo brasileiro foram convidados a participar dos atos do Sete de Setembro, mas preferiram ficar em casa. Sem poder contar com Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel, o Brasil ficou sozinho.

ReproduçãoReproduçãoBiden: não há nem previsão de quando o presidente americano falará pela primeira vez com Bolsonaro
Ao calcular como devem lidar com um presidente em confronto direto com o Judiciário e a imprensa, os mandatários estrangeiros têm optado pelo menor vínculo possível. A falta de iniciativas na política externa, com um governo atolado na crise doméstica, contribui para que os contatos sejam ainda menos frequentes. O Brasil foi escanteado, por exemplo, das negociações entre a ditadura venezuelana e a oposição, e tem recebido atenção ínfima do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Desde que Biden tomou posse, em janeiro, as notas e os comunicados do Departamento de Estado americano sobre o Brasil evitam menções ao presidente ou ao seu governo. Ao mesmo tempo, as mensagens enfatizam que os americanos valorizam a democracia, o que é uma forma de dizer que não apoiariam uma ruptura da ordem. Em resposta enviada a Crusoé sobre se o Brasil seria convidado para a Cúpula pela Democracia, em dezembro, o Departamento de Estado deixou a questão no ar, e afirmou que os EUA pedem que os países “mostrem compromissos significativos que promovam a democracia, combatam a corrupção e incentivem o respeito pelos direitos humanos”. No Sete de Setembro, outra nota defendia a liberdade para se reunir e protestar pacificamente, mas afirmava que, “como fazemos com todas as democracias, esperamos que o governo brasileiro e as instituições respeitem totalmente suas leis”.

Com quase três anos de mandato de Bolsonaro, os líderes mundiais já não acreditam que seja possível convencer o presidente brasileiro de alguma coisa – e não consideram que valha a pena citá-lo. “O presidente brasileiro segue o mesmo roteiro dos populistas de direita com inclinações e ambições autoritárias. Ele sabe que o meio que tem de obter seguidores e retê-los é polarizando o país, espalhando o medo e mobilizando a própria base”, diz o sociólogo americano Larry Diamond, professor da Universidade Stanford e especialista em democracia. Mas a atenção limitada que o resto do mundo está dando ao Brasil também tem outro motivo. Ainda que as declarações do presidente assustem, acadêmicos e analistas entendem que as instituições nacionais estão em condições de resistir.No geral, há uma expectativa de que as instituições irão prevalecer no Brasil, que tem muita força em sua sociedade civil, no Judiciário e na imprensa independente”, diz Diamond.

Arno Mikkor/EU2017EE/Estonian PresidencyArno Mikkor/EU2017EE/Estonian PresidencyMerkel, que está de saída: no passado, preocupação com a Amazônia e, depois, silêncio
Essa visão é compartilhada pelo instituto sueco V-Dem, que monitora o estado da democracia em vários países. Nos últimos seis anos, o V-Dem incluiu o Brasil no grupo com democracias em declínio, ao lado de Hungria, Tailândia, Bolívia, Venezuela, Belarus e Polônia. Mas, na comparação, o Brasil se sai melhor em alguns pontos importantes. “Notamos que a capacidade de o Legislativo brasileiro conter o Executivo diminuiu um pouco. Mas o Brasil segue com um Judiciário forte e, principalmente, com uma nota muito boa no seu sistema eleitoral. Com essas qualidades ainda presentes, o risco para a democracia brasileira é baixo”, diz a pesquisadora Yuko Sato. “Se as eleições ocorrerem normalmente em 2022 e o poder passar para o vencedor do pleito, como é esperado, todos ficarão bem menos preocupados com o Brasil.”

Em relatório para clientes de dentro e fora do Brasil, a consultoria Eurasia disse existirem poucos perigos para a eleição do ano que vem. Para os analistas, o resultado da próxima eleição presidencial será respeitado pelo Congresso, pelos tribunais, pela imprensa e pelos militares, independentemente de quem for o vencedor. “Quando os clientes nos perguntam sobre a possibilidade de uma ruptura democrática, nós respondemos que são baixos. Os atritos recentes ocorrem justamente porque as instituições brasileiras estão resistindo. Os freios e contrapesos estão funcionando. Além disso, Jair Bolsonaro não tem apoio popular suficiente para fazer uma grande mudança”, diz Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria.

O problema é que a crise política contaminou o setor econômico. Investidores que estavam pensando em uma possível retomada, com o fim da pandemia no ano que vem, ficaram reticentes.Até a eleição de 2022, tudo indica que teremos Bolsonaro encurralado, brigando com as instituições e aumentando a polarização. Esse conflito tem alimentado muitas incertezas, como a situação fiscal do país, o pagamento de precatórios, a inflação elevada e a crise hídrica. Há um pessimismo grande com a economia brasileira atualmente, e isso não vai se dissipar tão cedo”, diz Garman.

A partir de 2023, o consultor afirma que o próximo presidente terá de governar em um ambiente difícil. A situação fiscal não dará muita folga para gastos, em um momento em que a população, principalmente a classe média, poderá externar as inquietações represadas durante a pandemia. Além disso, o descontentamento com as instituições, sentimento que ajudou a eleger Bolsonaro e que depois foi estimulado por ele, seguirá em alta em grande parte da população. “A principal missão do presidente, a partir de 2023, será como devolver a legitimidade às instituições democráticas brasileiras”, afirma o diretor-executivo da Eurasia. Será difícil para o país vencer, tão cedo, a condição de pária internacional.

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  1. Quando se tem um lugar onde fritador de hambúrguer é a qualificação maior do representante mor da comissão de relações exteriores de uma das casas congressistas, não se pode esperar grande coisa de inserção do país no cenário mundial, apenas tratam como aquela criança birrenta que esperneia pra ganhar um doce do pote...

  2. Ação dos membros do STF e simplesmente descabida querem controlar tudo, o Legislativo, o Executivo e a população brasileira, esse Congresso Nacional é merda e mesmíssima coisa, quem vêm alertando com tudo isso é o presidente Jair Messias Bolsonaro, o sistema globalista comunista cleptocrata do Brasil, formados pelos os partidos políticos: PT, PSOL, PDT, PSDB, PC do B, REDE, CIDADANIA, VERDE, A IMPRENSA VELHA(REDE GLOBO, CNN, BANDEIRANTE, E A IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, todas essas escór

    1. Ohhh fala assim não do capitão cloroquina. A Dona Micheque vai reclamar

  3. Bolsonaro está sendo o que sempre foi. Baixo clero, corporativista (adora uma rachadinha em família), polêmico, de pouca inteligência, intempestivo, enfim um falastrão. A decepção foi mesmo com Paulo Guedes que se apegou ao cargo e virou do avesso. Guedes é o fio de cuspe que segura o PR B1dão.

  4. Enquanto não resolvermos nosso problema maior - a falta de Educação de qualidade para toda a população brasileira - os olhos do mundo nos verão como uma republiqueta de bananas. Só com Educação de qualidade, incentivo à pesquisa científica e valorização da cultura nacional poderemos mudar o rumo e voltar a crescer! Com hordas de semianalfabetos subnutridos não se constrói uma nação!

    1. para mudar a prioridade para educação é absolutamente urgente tirar este presidente ignorante e medíocre. Ele sabe que para ser o rei por aqui precisa de uma nação ignorante, massa de manobra, de gado que segue o berrante sem saber para onde vai.

  5. Pois é ! O infeliz disse que só sai da presidência morto. Seria ótimo, então vê-lo sair diretamente para o Cemitério do Caju, mas falastrão e mentiroso, como é, antes de ser preso, pedirá asilo em algum país. Creio que só sobrou o Afeganistão para recebê-lo.

  6. A revista do PSDB esperava o impeachment, mas vai ganhar a reeleição do presidente. Parece que terão que continuar economizando os oito milhões do mamata connection. kkkk

    1. Bata no peito e grite cheio de orgulho " Eu sou um trouxa internacional" rss

    2. Vocês bolsonaristas tem que passar por uma reciclagem. Desde quando gasto parte do meu tempo aqui comentando, é sempre a mesma coisa. Evoluam ou morram. Acho que vcs já morreram faz tempo. Moro Presidente 🇧🇷

  7. Eu entendo o afã em remover o presidente da república de seu cargo... o Cara realmente é um imbecíl! Mas a Crusoé e oAntagonsita adotarem o jogo sujo das outras mídias me traz um desânimo! Não apontar e ponderar os crimes (contra a democracia) grosseiros de nossa suprema corte e não salientar pontos obvieis em favor do governo torna ESSA MÍDIA como as outras.. Simplesmente não é possível considerar as notícias e colunas daqui como algo sério! Lamento.. Já não renovei o Antoga e agora a Crusoé!

    1. VCS viúvas do PSDB e lacradores vão se preparando pra comer capim, não existe terceira via e aquele pilantra vai voltar. STF e CorruPTos vão garantir.

    2. 2- E quando o próprio PR incita uma greve de caminhoneiros, não tendo noção das consequências para os mais pobres, é o fim da picada. Moro Presidente 🇧🇷

    3. 1- Temos vacinas graças a pressão exercida por outros atores, o mais notório o Doria. Se dependesse do Bolsonaro, estaríamos até hoje tratando a covid com medicamentos ineficazes e nossas mortes certamente teriam ultrapassado 1 milhão. BOLSONARO ERROU EM TUDO NO ENFRENTAMENTO DA PANDEMIA. Quem morreu pelos seus erros, não vai voltar a vida. ECONOMIA, VC SÓ PODE ESTAR DE PALHAÇADA. A retórica golpista do sociopata, tem feito o brasileiro pagar um preço maior que o devido.

    4. E mais, os jumentos cupinchas do diogoMaisBostaeSabinoBocaParisiense, estão doentes nessa guerra insana e não enxergam que apesar de td, estamos vacinando bem e a pandemia acabando e a economia dos que trabalham longe fofocas calhordas dos reporteres cruzes$ desta porcaria que se tornou a revista que ainda assino-faz tempo...só bão cancelo pois quero ver seu fim numa outra tresloucada atitude do supreminho dos eudeusados petistas de carteirinha.

    5. Amigo CARLOS. De todo vc NÃO tem razão em acusar a Crusoé e OAntogonista, pois eles sempre bateram forte em alguns ministros Corruptos, tanto do STF quanto do STJ e estão constantemente batendo nos parlamentares bandidos/criminosos e corruptos. Lembra de quando o STF (2a. Turma) julgou a suspeição do grande Juiz Sérgio Moro, as revistas caíram de pau em cima do STF. Na minha visão, em todos os lugares existe podridão, no STF e no STJ não é diferente. Eu inocente as Revistas porque as leio sempr

  8. A síntese deste dramalhão sbteano: o tal “mito” broxou com a covid. Esta é a Verdade. Uma indiscutível contrafação. Igualzinho a Lula e o ptismo (embora estes um pouquinho mais sabidos). Ou não é?

  9. Garman foi assertivo nas suas colocações. Ontem o ministro Barroso, q cada vez admiro mais, fez uma declaração brilhante. O executivo da Eurasia aponta q nossa recuperação econômica, como toda pessoa sensata sabe, só vai vir com a legitimidade das instituições e o fortalecimento da nossa democracia. Barroso apontou a perda de valor da marca Brasil, e o escanteiamento do nosso país. Bolsonaro já era. Será que resolveremos essas questões, elegendo o ex-presidiário Lula? Não. Moro Presidente 🇧🇷

  10. as CORTINAS de FUMAÇA para ABAFAR as RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e as MANSÕES do 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  11. Comentarei apenas o segundo momento citado no artigo. Como vocês explicam e dão tanta ênfase às mortes por Covid-19 brasileira e a americana? Sejam honestos!!

  12. A verdade é que o Brasil retorna ao merecido ostracismo de república de bananas que sempre foi, enquanto ao redor do Mundo seres humanos se recusam a comer alimentos transgênicos cheios de pesticidas e com alto passivo ambiental. Em breve o agro ogro brasileiro vai aliemntar somente as galinhas e porcos chineses

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