AlexandreSoares Silva

Uma dose por parágrafo

30.04.21

UMA DOSE DE WHISKY – Abro uma garrafa de single malt e me preparo para começar a ver Nomadland, o recente vencedor do Oscar de melhor filme. A inspiração veio porque acabei de ver (e gostar) do Oscar de melhor filme estrangeiro, Mais uma Rodada, no qual professores de meia-idade descobrem que trabalham melhor se estiverem um pouco bêbados. Quem sabe é verdade? Ainda outra motivação possível é porque intuo que só vou conseguir ver Nomadland bebendo. Mas enfim, começo a ver. É a história de pessoas pobres morando em vans, como o Chris Farley naquele velho sketch do Saturday Night Live. Ah! Um amigo tinha falado que Frances McDormand, bom, como dizer isso, defeca no filme, e eu estava me preparando para ficar nauseado – mas se é isso logo no início, tudo bem, foi bem de longe. Continuo vendo. É um desses filmes humanos sobre pessoas pequenas mas cheias de humanidade e tal. Ok, dá pra ver isso, imagino.

UM NEGRONI – A ideia aqui é beber uma bebida a cada parágrafo. Muita gente já escreveu bêbado, mas não sei de ninguém que tenha bebido uma dose por parágrafo. Em alguns momentos dá pra ver Frances McDormand pensando: “Eu sou uma pessoa simples. Essa gente gosta dessas coleções de pratos bregas.” Mas no geral é bem atuado. Aquela combinação balanceada de pobre coitada e dignidade humana. Está ok, até agora, ela dirigindo sozinha, mas com dignidade, pianinho triste, estou com pena dela. O que me faz sentir uma boa pessoa (primeira vez no mês). Olha a velha do acampamento de novo. Se a velha morrer, vou ficar triste.

UM RUSTY NAIL – Tem um pregador barbudo fazendo um sermão pras pessoas trabalharem menos. Falando mal do capitalismo, reconectar com a natureza e tal. Sei que é pra mostrar como sofrem esses funcionários pobres da Amazon, mas – nós, brasileiros, vivemos pior, não? Certamente há menos senso de comunidade no meu bairro, e nenhum churrasco no meio do deserto. De qualquer forma consigo me imaginar vivendo assim, trabalhando pouco, dormindo na van. Mas adotaria um cachorro pelo menos.

UMA DOSE DE PISCO SOUR – Ah, um cara mais ou menos bonito vai ter um romance aí pra Frances McDormand. Ainda bem. Mas ele deve ser alcoólatra ou vai morrer de uma doença. Ok, o filme ficou levemente entediante agora. Estou feliz de estar vendo com um copo de bebida na mão e dois (três?) no estômago. Uma hora lá ao ver passarem jipes em caravana na estrada me deu vontade de que fossem carros armados com mutantes dentro, e o filme virasse Mad Max Fury Road. Não sei se vou aguentar mais uma hora de sombrio humanismo realista. AH NÃO! Essa é a cena em que ela, well, defeca. Não é de longe, é de perto, estamos trancados na van com ela. E é diarreia. Nem precisava ter essa cena, qualquer espectador com alguma experiência de vida já tinha adivinhado que ela é o tipo de pobre que defeca. Por que teve isso? Cineasta com consciência social tem sempre atração por fluídos corporais. Ah, eu sabia que a velha ia morrer. Ou talvez essa seja outra.

UMA IPA – Já não estou zombando mais do filme. Estou quase chorando. A velha vai morrer. Está falando que aceita morrer porque andou de caiaque e viu uma família de alces. É bem atuado. Minhas lágrimas são técnicas, de admiração pela arte dramatúrgica da velha. Ergo minha garrafa de cerveja em um brinde à velha, faço um discurso emocionado enquanto ela fala. Qual o simbolismo da pedra? São pessoas belas porém maltratadas e ignoradas, como as pedras, ou algo assim.

UM MARTINI – Eles falam bem, articuladamente, não como uma caricatura de pobres ignorantes. Essa é uma virtude do filme. Se fosse um filme brasileiro não ia ser assim. Uma paisagem bonita, um búfalo, um riacho. Não está tão ruim. O simbolismo da pedra de novo. Abandono o filme pra ir meio cambaleando pro escritório procurar o Dicionário dos Símbolos, mas não encontro o livro. Quando volto pro filme estão brindando com tequila, e ergo meu martini na direção deles. Vou tirar um cochilo rápido no sofá.

UMA TAÇA PEQUENA DE DRAMBUIE – Ainda deitado, vejo uma privada vomitada. Precisava isso? Bom, tem mais justificativa que a cena da diarreia, porque mostra que a vida dela é isso, limpar banheiro sujo, ao contrário da outra cena que não tem sentido nenhum. O cara da barba deu em cima dela, mas ela fechou a cara, porque ela está Fechada para o Amor.

UMA DOSE DE WHISKY – Ficou definitivamente chato depois que o cara semibonito foi embora ver os netos. Acho que já deu. Ela está dormindo no meio do filme, acho que vou dormir também. Mas não é ruim, é delicado, sensível (talvez um pouco demais) e vou deixar rodando enquanto fecho os olhos um segundo. Quando até os atores estão dormindo, você pode dormir também.

***

Horas depois: Termino de ver o filme bebendo uma coca. É um filme um pouco bonito, um pouco chato. Uma ode ao capitalismo, porque que outro sistema permitiria viver tão bem (viagens, churrascos, danças, diarreia) com tão pouco esforço?
Apesar de ter ganhado o Oscar, talvez dê pra ser visto sóbrio. Mas acho que agora nunca vou saber com certeza.

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500
  1. Prefiro tomar minha pinga mesmo, já que cachaça tá muito cara. Faz tempo que não assisto as porcarias de filmes americanos, pois faz tempo que não fazem nada que presta.

  2. Gostei muito de tomar as doses intercalando cenas. Pena que eu tenho Netflix que mostra o filme por inteiro, sem interrupções para servir outra bebida. Sugiro duas aspirinas no final.

  3. Alexandre escreveu: "Uma vez, quando estava fazendo um curso de roteiro, ouvi uma voz dizendo lá no fundo da sala: 'Professora, um momento, só queria dizer uma coisa. Não sei quem aquele rapaz é, mas tive uma visão e me pediram para dizer que ele ainda vai ser muito famoso'. Virei pra trás já sabendo que ele estava falando de mim. Aceitei essa previsão muito calmamente." Pronto, já ficou famoso: está escrevendo na Crusoé!

  4. Comecei a ler, mas cansei no segundo parágrafo. O autor tá mais p aqueles colunistas do uol que querem causar sem entender sobre oq escrevem. Nem bêbado eu leria seu texto.

  5. Não vou perder tempo assistindo. Achei que só cineastas tupiniquins pudessem gostar de closes escatológicos enquanto filmam pobreza e tentam passar alguma mensagem política do tipo de luta de classes.

  6. Tim Tim!! Saúde!! Também achei o filme chatinho, como também achei chatinho o filme premiado no ano passado, Parasita. O quê será que está acontecendo?! Mas gostei do seu artigo/crítica. Parabéns!

  7. Gostei do filme mais do que o crítico aí, e o vi sóbrio. Defino como um “ off-road movie” dos excluídos do “American dream”, q poderia ser mais real se tivesse um Q do Michael Moore.

    1. Putz! Michael Moore é o próprio mala sem alça! Chato, pretensioso e bobo.

  8. Cont. comentário. ‘The Sound of Metal’ é sobre um músico que está ficando surdo. ‘The Father’ fala sobre um octagenário se tornando insano. E ‘Minari’ é a história de imigrantes Coreanos extremamente pobres no estado do Arkansas, US, que colocam toda a sua comida em um celeiro, a avó tem um enfarte e põe fogo em tudo. Bill Maher termina esta brilhante análise com a frase “Now enjoy the show”. MS

  9. Senhor Alexandre, o comentarista político e apresentador americano Bill Maher resumiu os filmes do Oscar 2021 ,no seu programa no HBO, muito bem. Midland, diz Maher, é sobre uma mulher que mora em uma van depois de seu marido morrer de câncer. Em ‘ Judas and the Black Messiah,’ o FBI mata o líder dos Black Panthers, e no ‘Trial of the Chicago 7’ o FBI mata o líder dos Black Panthers again. Em ‘Promising Young Woman’, Carey Mulligan (atriz britânica), se vinga de um estuprador que a mata... MS

    1. A personagem se vinga de um estuprador que acaba por matá-la. MS

  10. Alecandre, quase não entendo nada do que você escreve. Não sei se é porque não gosto da sua temática ou porque você é dificil de entender mesmo. Não perderei mais meu tempo com a leitura de suas crônicas. Fui.....

  11. Como a vida na pandemia está muito chata, não pretendo ver essa ode à chatice... melhor rever pérolas inesquecíveis no Cult, que deu um banho neste abril! Tomara que prossiga nessa toada...

  12. Alexandre, você é mais um craque neste timaço que é a Crusoé. Não vou precisar encher a cara, porque esse tipo de filme não assisto.

  13. Gostei bastante dessa análise desencantada; nada como uns bons grogues para suportar certas coisas, principalmente em momentos como o que vivemos! Salute!!!

  14. Dizem que a arte existe "porque a vida só não basta". Então, quando vejo a sétima arte ir na direção da poesia "antipoética" me dá um desalento daqueles. Como não bebo, como!

  15. Tudo pela criatividade. Queria ver este texto escrito a mão. Fluiu. Só não sei o que é este rusty nail. Tudo continua funcionando. Inclusive a chatice.

  16. Muito chato, não consegui ler até o fim. E olha que eu leio qualquer coisa. Até bula de remédio. Sou cinéfila mas só pela propaganda já sei que o filme vai ser chato. Não devo assistir. De chato já basta tudo o que estamos passando, real ou não.

    1. Adorei a leitura que você fez de Nomadland usando a tese de Druk! Vou assistir com prazer pois amo esta atriz maravilhosa que é a Francis MacDormand

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