RuyGoiaba

Machado, Vieira e o Brasil do ‘suje-se gordo!’

02.04.21

Tenho uma pequena estátua de Machado de Assis — presente do meu irmão — na estante de livros atrás da minha escrivaninha. Só há pouco tempo me dei conta de que sua função é parecida com a da imagenzinha de N.S. de Fátima que minha avó trasmontana mantinha sobre a penteadeira: toda semana, torço para que pelo menos uma faísca do espírito do Machado me ilumine enquanto escrevo (e toda semana fracasso, como vocês já notaram). O máximo que consigo é aniversariar no mesmo dia do maior escritor do Brasil (21/6), acaso feliz pelo qual não tenho absolutamente nenhum mérito — ou nenhuma culpa.

Se não vem iluminar meus pobres textos (e eu consigo imaginar o romancista, como Brás Cubas, dizendo “senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados” — ou seja, “te vira aí”), Machado nunca deixa de lançar luz sobre este país secularmente, tediosamente previsível que é o Bananão. Seus textos do século 19 e da virada para o 20 continuam vivos e conversarão conosco enquanto houver um único brasileiro na face da Terra, situação que a julgar pelo avanço da Covid não deve demorar a se concretizar.

A política brasileira, essa fossa borbulhante, sempre me leva de volta a Suje-se Gordo!, que nem é dos meus contos favoritos do Machado e ainda assim é exemplar. É favor notar, aliás, que o título NÃO tem a vírgula que aparece em alguns sites por aí: Machadinho não está mandando nenhuma pessoa gorda se sujar, e sim usando “gordo” como advérbio (suje-se muito, grandemente, gordamente). Resumindo, é a história de um jurado, o Lopes, que recrimina um réu condenado porque ele roubara pouco. “Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! (…) Quer sujar-se? Suje-se gordo!”. Tempos depois, o narrador do conto reencontra o Lopes, agora réu e acusado de ter desviado de um banco cento e dez contos, dinheiro grande na época. Não dou spoiler, meu leitor brasileiro, porque você já adivinhou o desfecho: o homem do “suje-se gordo!” é absolvido.

Tudo isso é tão tedioso e tão secular que já estava em Antônio Vieira, o pregador que Fernando Pessoa chamava de “imperador da língua portuguesa”, uns 250 anos antes de Machado. Está no Sermão do Bom Ladrão, de 1655: “Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito os Alexandres.”

E, se vocês derem um fast-forward para séculos depois de Vieira, ou décadas depois de Machado, também encontrarão em Stanislaw Ponte Preta — o alter ego de Sérgio Porto —, com o toque de chanchada que lhe era característico, a clássica frase “Alto lá! Ou todos nos locupletamos, ou restaura-se a moralidade”. Noss’alma, ao longo de todos esses séculos, é a mesma: os bons ladrões são aqueles que roubaram como Alexandre, que locupletaram a si e aos parças sem que a “moralidade” precisasse ser restaurada, que se sujaram gordo e se deram bem. E o país votou neles e continuará votando —com os eventuais indignados de praxe, menos pelo roubo e mais por não terem sido convidados a dividir o butim. Ou votará em moralistas que, na ocasião certa, serão tão ladrões quanto.

Seria melhor se os abençoados habitantes do Bananão seguissem o exemplo de Brás Cubas na frase final do romance de Machado: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Urge fazer uma campanha “seja brasileiro, mas não procrie”: quem sabe a gente finalmente dê um jeito no país sem recorrer a medidas drásticas, embora talvez divertidas, como o carpet-bombing do território com napalm. Eu sou brasileiro, mas já desisti faz tempo.

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A GOIABICE DA SEMANA

A história da “vacinação clandestina” promovida por empresários numa garagem de Belo Horizonte não tem como não levar o troféu desta vez: a PF já descobriu que a enfermeira que aplicou as doses não é enfermeira e suspeita que a tal vacina contra Covid, pela qual os empresários pagaram R$ 600 cada aplicação, seja soro fisiológico. O Bananão é um país de malandros otários (e acho que vamos precisar mesmo do napalm: esse lance de não procriar não vai rolar).

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CONTARDO CALLIGARIS (1948-2021)

Peço licença para escrever como Rogério Ortega, não como o alter ego: no final dos anos 90 ou início dos 2000, eu estava no Programa de Qualidade da Folha e fui instruído por Otavio Frias Filho, nosso diretor de redação, a ler os textos de Contardo Calligaris — que morreu nesta semana, aos 72 anos — antes que eles saíssem na Ilustrada. Contardo sempre escreveu muitíssimo bem, mas volta e meia escapavam alguns anglicismos ou italianismos em suas colunas: natural para um italiano de Milão alfabetizado em inglês, que ainda estudara na Suíça e na França. Sou muito grato por essa tarefa profissional ter me dado a chance de conviver por alguns anos com a cultura, a inteligência brilhante e a generosidade de Contardo, uma pessoa sempre interessada no que o outro tinha a dizer, para além da sua profissão de psicanalista. Fará imensa falta. Rest in peace, mestre.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisO psicanalista e escritor Contardo Calligaris, que morreu na última terça (30) em SP

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  1. E o troféu Goiabice será compartilhado pelos dois membros do legislativo que estão entre os vacinados com soro!!! Brasil não é para amadores!

  2. A saída seria zerar a natalidade de todos os brasileiros...pra sempre! Assim não haveria mais esse povo indolente, inculto e incauto.

  3. Não há (e talvez não haja) método neste país para zerar a natalidade de cidadãos bandidos. Nosso destino é continuar assistido ad infinito sua procriações que ocorre desde 1500 quando vieram aqui e compraram essas terras dos índios a preço de bugigangas (com as bençãos da abnegada Igreja...) Depois implantaram esse sistema político-jurídico fisiológico e gordamente corrupto que se repete hereditariamente como uma rosca-sem-fim.

  4. Crusoé tem uma ótima seção de humor, como são ótimas as demais que publica semanalmente. Diria que não é "uma ilha no jornalismo" mas um oásis.

    1. É mais que humor. São textos com a qualidade de um Millôr.

    1. Bom dia, xará. Seus comentários me agradam. Ainda bem.

  5. Os textos do Goiaba sempre remetem ao Stanislau Ponte Preto e aos melhores tempos d’O Pasquim. Vale a pena esperar pela edição das sextas-feiras.

  6. O Brasil não tem solução mesmo. Acho q em no máximo 200 anos o território será despovoado e transformado em uma grande floresta - o pulmão do mundo! Nossa vdd vocação será reconhecida e tornada realidade para o bem da humanidade: a de ser um vasto matagal.

  7. Sempre uma ótima experiência. Ler essa coluna nós faz rir e também refletir sobre a nossa condição bananesca. Também, uma bela homenagem.

  8. Há muito tempo, não lia um artigo tão... tão... Machado te inspirou pessoalmente e bateu palmas no final!! Espetáculo de expressividade!

  9. Ruy/Rogério, diplomou-se em bênçãos de Machado - se é que algum dia precisou delas. Quando fico muito abatida, lembro que o nosso Bananão ainda faz pessoas e escritores como você, como os Antas e, graças a Deus, mais uns três ou quatro. Sua verve atilada, precisa, engraçada e compassiva, deitada num texto maravilhoso, o capacita a molde de sua própria estatueta. Aposto que o indizível Contardo concordaria.

  10. Não tem como vc não estar melancólico e/ou triste. O seu,nosso,Bananão,não sei como,consegue piorar sempre. E para dar forças aos demônios que nos rodeiam,a peste não leva os que eu levaria.

  11. Parabéns, Rui pelo seu texto inigualável. Sua ironia majestosa e profunda penetra em nossa consciência e desnuda a verdade de nossa tragedia imunda nesse país de bananices.

  12. Sempre deixo você para rir por último e rir muito para não chorar, pois a vontade de chorar é enorme. Porém, a sua homenagem final a um mestre, me fez chorar. Seu texto é sempre perfeito! Machado se orgulharia.

  13. Escreveu gordo! Faz uma coluna gordamente maravilhosa! Quer dizer, seria maravilhosa se essa tragédia disse apenas um conto e não a nossa realidade. Parabéns Ruy!

  14. Rui me trouxe de imediato o pensamento sobre o congresso espúrio e o stf contaminado que com certeza guiam-se pelo " suje-se gordo ".

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