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O ‘agente’ Queiroz

Documentos obtidos por Crusoé mostram que relação de Fabrício Queiroz com o gabinete de Flávio Bolsonaro é bem mais antiga do que a investigação sobre o rachid considera como o ponto de partida da lucrativa parceria
16.10.20

A prisão, em junho, do subtenente da reserva Fabrício Queiroz, acusado de operar um esquema de lavagem dinheiro no gabinete do então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro, pôs fim a uma pergunta que corria o país, mas não esclareceu todas as dúvidas do caso. Ainda pairam interrogações, por exemplo, sobre a profundidade da relação entre ele e a atual família número um da República. Aos poucos, as peças que ainda faltam nesse quebra-cabeça vão surgindo. Uma delas, que revelamos agora, diz respeito ao início dos serviços prestados por Queiroz ao antigo gabinete do filho 01 do presidente Jair Bolsonaro. Até agora as investigações apontavam que Queiroz começou a trabalhar para Flávio no começo de 2007. Documentos inéditos obtidos por Crusoé, porém, mostram que a história dele no gabinete vem bem de antes. Queiroz começou a ciceronear Flávio ainda no primeiro mandato de deputado do 01, em agosto de 2003. Foi cedido pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde trabalhava, de forma “oficiosa”, para ser um agente de segurança a serviço do filho do presidente.

Trata-se de uma novidade que ajuda a entender algumas passagens do relacionamento entre os dois. O PM da reserva chegou ao gabinete de Flávio três meses após se envolver no homicídio de um morador da favela da Cidade de Deus, durante uma operação. Outro policial metido no caso era o então capitão Adriano da Nóbrega, que mais tarde viraria um dos milicianos mais perigosos do Rio. Os dois alegaram que mataram o morador em legítima defesa, numa troca de tiros. A vítima deixou dois filhos pequenos. A viúva diz que o marido foi executado. Recentemente, a polícia e o Ministério Público retomaram a investigação. A Corregedoria da PM pediu um levantamento sobre os outros casos do tipo – chamados de autos de resistência – em que Adriano e Queiroz aparecem. Foi justamente aí que vieram à tona os documentos que mostram que, pouco depois do homicídio, Fabrício Queiroz encontrou um porto seguro no gabinete de Flávio.

O fato de Queiroz ter começado a prestar serviços a Flávio como “assessor secreto” em 2003 também ajuda a compreender a ligação do 01 com o próprio Capitão Adriano, morto em fevereiro por policiais do Rio e da Bahia durante uma operação para prendê-lo – acusado de chefiar o Escritório do Crime, um bando de matadores profissionais, ele estava sendo procurado havia meses. O então deputado Flávio Bolsonaro homenageou Adriano com uma moção de louvor e com a medalha Tiradentes, a maior honraria concedida pela Assembleia fluminense, em 2003 e 2005. Quando aconteceram as homenagens, portanto, Queiroz já estava ao lado de Flávio e, tudo indica, teve um papel importante na decisão do então deputado de prestigiar seu colega de farda também envolvido no homicídio na Cidade de Deus.

O documento em que Flávio Bolsonaro pede que Queiroz seja cedido
Queiroz e Adriano se tornaram peças chaves na investigação do rachid, o suposto esquema de lavagem de dinheiro montado no gabinete de Flávio em que funcionários devolviam parte dos salários que recebiam. Segundo o MP, Queiroz movimentava o dinheiro em suas contas bancárias e pagava despesas pessoais do filho 01 do presidente da República. A fraude também beneficiava Adriano, que empregou a ex-mulher e a mãe no gabinete de Flávio. A data em que Queiroz começou a atuar no gabinete da Alerj pode ter reflexos, inclusive, nessa frente de investigação. Como, oficialmente, Queiroz se tornou assessor contratado pela Assembleia só a partir de 2007, os promotores pediram e a Justiça determinou as quebras de sigilos bancário e fiscal dos envolvidos no rachid a partir daquele ano. As transações, porém, podem ter começado bem antes.

No dia 25 de agosto de 2003, o deputado Flávio Bolsonaro pediu a nomeação de Fabrício Queiroz para seu gabinete. Imediatamente, em despacho escrito à mão, o Comando da Polícia Militar mandou Queiroz se apresentar no dia seguinte, 26 de agosto, “ao ilustre parlamentar”. Na mesma data, o boletim interno da PM transferiu Queiroz do BPVE, o Batalhão de Policiamento em Vias Especiais, para a DGP, a Diretoria Geral de Pessoal, a seção onde ficam formalmente lotados os policiais cedidos a outros órgãos. Dois dias depois, a PM deu início à formalização do processo extraoficial, mas somente em 30 de outubro de 2003 Queiroz assinou uma declaração informando estar ciente de que, se ficasse mais de dois anos cedido, seria transferido para reserva remunerada. À época, ele ainda era 2º sargento.

Em 6 de novembro de 2003, o major responsável pela movimentação de pessoal informou que Queiroz servia “na DGP à disposição, oficiosamente, do dep. Flávio Bolsonaro desde 26 de agosto de 2003”. O major destacou o termo “oficiosamente” em negrito. Ponderou que a “cessão ou disposição de policiais militares” deveria ocorrer com “autorização governamental”, e tornada pública em Diário Oficial. Àquela altura, o deputado Flávio Bolsonaro omitia que Fabrício servia ao seu gabinete. Em 24 de outubro de 2003, Flávio requereu à Assembleia Legislativa uma moção de “louvor e congratulações” ao então sargento. Informou, incorretamente, que Queiroz ainda estava lotado no Batalhão de Policiamento em Vias Especiais. No mesmo dia, apresentou idêntica homenagem ao então 1º tenente Adriano da Nóbrega, “lotado no 16º Batalhão da PM”, para onde, de fato, ele fora transferido após o homicídio na Cidade de Deus.

ReproduçãoReproduçãoBolsonaro pai e Queiroz se conheceram em 1984 e viraram amigos do peito
Três meses depois, em janeiro de 2004, Adriano foi preso acusado de matar um guardador de carros, sofreu sua primeira condenação e acabou absolvido em novo julgamento. Era mais um sinal de que ele, como acusa o MP, tinha ultrapassado a linha vermelha e migrado para o lado do crime. As suspeitas, porém, pareciam não incomodar a família Bolsonaro. Em 12 de agosto de 2003, pouco antes de Fabrício Queiroz se tornar “agente informal” de Flávio, o então deputado federal Jair Bolsonaro disse a partir da tribuna da Câmara que o “crime de extermínio” seria “muito bem-vindo” ao Rio de Janeiro.

Após o major da PM responsável pela movimentação de pessoal relatar que Queiroz servia “oficiosamente” à Assembleia, o processo administrativo voltou ao Comando Geral. Em 27 de janeiro de 2004, o gabinete do comandante pediu a Flávio para enviar um comunicado de que Queiroz ficaria a sua disposição sem custos para o governo – ou seja, com salário bancado pela Assembleia Legislativa e não mais pela PM. Era uma exigência da então governadora, Rosinha Garotinho, para todos os policiais cedidos, conforme um decreto publicado em setembro de 2003. Alguns dias após a medida, Flavio requisitou à Casa Civil do governo autorização para Queiroz trabalhar na Alerj. O processo administrativo da PM foi arquivado em fevereiro de 2004, sem deixar claro se Queiroz voltou à corporação ou seguiu na Assembleia informalmente. No sistema de consulta de processos, não há sinais de outro pedido de Flávio ao comando da corporação.

A ficha de Queiroz e os boletins internos mostram que ele continuou lotado na DGP – ou seja, não retornou ao trabalho de policiamento. No começo de 2007, o então governador Sérgio Cabral, ao tomar posse, baixou um decreto ordenando que 5.000 policiais cedidos a órgãos públicos – muitos deles sem controle algum – voltassem à PM para um processo de regularização. A partir dessa medida, em 28 de março de 2007, Queiroz passou, segundo sua ficha na polícia, a servir oficialmente ao gabinete de Flávio Bolsonaro. Pouco antes de surgirem as suspeitas de lavagem de dinheiro, no final de 2018, ele se aposentou.

Seja extraoficialmente, em 2003, seja oficialmente, em 2007, muito antes de se apresentar ao gabinete de Flávio na Alerj, Queiroz tinha um relacionamento estreito com o próprio Jair Bolsonaro. Os dois se conhecem desde 1984, quando o hoje presidente da Repúbica era capitão na Brigada de Infantaria Paraquedista no Rio. Naquela época, Queiroz servia ao Exército como soldado. Em 1987, ele passou para a PM, mas a amizade continuou. Ele seguiu como parceiro de Bolsonaro em churrascos, pescarias e em jogos de futebol.

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  1. PGR , está tudo dominado STF, está tudo dominado E assim vai, tudo para salvar o filhotismo. Esse país é isso, o governo que enterrou e sepultou a Lavajato e o combate geral à corrupção.

  2. Que ladainha,. Quem não faz rachadinha? Quem? Voces querem quem na presidência do Brasil? Hem? Voces podem fazer uma reportagem sobre todos os políticos para sabermos quem não faz rachadinha?

  3. É impressionante a quantidade de esquemas obscuros que envolvem Queiroz e a família Bolsonaro. Tenho a impressão que ainda seremos surpreendidos com muito mais sujeira.Pobre Brasil...

  4. Que gente enrolada!!! Pobre país em mãos perigosas... dinheiro vivo... cessão oficiosa de PM... que mais virá à tona??? muito cinismo...

  5. Apesar de todas as evidências sobre o Lula e asseclas, bem como da família Bolsonaro e asseclas, nada adianta. Ainda acreditam neles e saci pererê, mula sem cabeça e cavalinho de santa Luzia. Oh povo complicado esse, tão sofrido e enganado, povo brasileiro.

  6. Alberto (Belém-Pa). Hoje, no Brasil, não é o Congresso Nacional, tampouco o STF que possuem condições de derrubar o governo do populista Jair Bolsonaro. Quem reúne condições de derrubar o governo do hipócrita presidente, pelo conjunto de informações que detém, responde pelo nome de Fabrício Queiroz, que não por acaso é um miliciano.

    1. Você tem razão Alberto...mas sem a prisão preventiva ... e sem o retorno da prisão em 2ª Instância vai ficar difícil o Queiroz abrir o bico em prisão domiciliar...

  7. O Queiroz não é "unha e carne" com o "capitão", mas sim "unha encravada" do "amigão" de mais de três dezenas de anos desde os tempos que serviram juntos no Exército, Não como negar, lamentavelmente!

  8. Dá para perceber pq o pessoal da esquerda (alguns até ligados ao tráfico) os acusam de familícia. Que sorte deste de tudo pobre país!

  9. Parabéns pela reportagem, muito direcionada e maldosa. Até amizades realizadas do passado são questionadas. Tudo culpa do Bolsonaro. Respeito a revista, mais acho que está com tendências suicidas. Em.2022 votem.em outro até lá ajudem a melhorar o Brasil e não a acabar. Falem das conquistas e dos avanços, será que nada mudou ou melhorou?

    1. Jackson, mostrar os podres da familia perfeita é uma forma de ajudar o país..

    2. Temos sempre que ter bom senso e equilíbrio em tudo. Está claro que NÃO houve avanço significativo algum, senão a saída da esquerda corrupta que estava no poder desde 2002. Mas, o preço foi caro demais e estamos observando o desmonte do combate à corrupção e uma família de verdadeiros bandidos da pesada no poder. Eles estão se unindo à parcela podre do Poder Judiciário e à banda mais podre ainda do Poder Legislativo para se blindarem. Só um grande movimento da sociedade íntegra livrará o país.

    3. É isso Ademar! Sem contar a vergonha que sentimos por um governo que não se comporta de acordo com o protocolo que os cargos exigem na postura, na linguagem e na conduta ética! Isso tudo só pode ser carma! Somos vulneráveis e enganados. Nem o mais execrável brasileiro mereceria passar pelo que estamos passando!

    4. MJackson (M de menino), um legítimo habitante da Neverland.

    5. Quais as inverdades da matéria? Rachadinhas, laranjas, milicianos, depósitos e pagamento de contas com dinheiro sem origem determinada e homenagens a criminosos são fatos ou ficção? Após decorrida quase a metade do mandato, quais as obras e avanços do governo federal nas áreas da Educação, Saúde Pública, Saneamento Básico e Proteção aos povos da floresta e ao Meio Ambiente?

    6. Gostaria que você estivesse correto Jakson, mas, sinto informá-lo que não, nada melhorou. E pior, o inimaginável aconteceu: os problemas anteriores que poderiam ser sanados, se intensificaram assustadoramente; a LavaJato, nossa maior conquista foi destruída e o seu capitão, é a maior decepção que este país já conheceu!

  10. O passado condena e destruirá essa corja familiar que tomou o poder à custa de falsidades, promessas não cumpridas e degradação moral, política, social e financeira do país!

  11. Ja vimos esse filme antes, um assessor/ gangster vira um verdadeiro arquivo vivo de podridão!! O Queiroz do Flávio é nada mais nada menos do que o PC Farias do Collor e quem viveu durante o governo Collor sabe muito bem como esse filme acaba...

  12. Esse Flávio é o verdadeiro Pelésinho do JB, bota garoto bom de finanças esse, economizou tanto que começou a comprar imóveis, ajudar a madrasta com alguns trocados e ter uma vida folgada com muitas mordomías. Não ficou nisso começou a salvar os juízes perseguidos do STF pelos malfeitores do senado que queriam a lavatoga, e por aí vai. Etc,etc,etc.

  13. Esse TRAÍRA é o cara.....Atolado até o pescoço.....01 como bom filho de RATO,ratinho é.....Família METRALHA,um tremendo 171 eleitoral

  14. O Brasil muito deve a Janaína Paschoal. Ela tem razão ao dizer que o País deve trilhar uma Quarta Via. Nem brontossauros da extrema esquerda nem tiranossauros da extrema direita. Nem, tampouco, o Quadrilhão Central. Votem, por favor! Ainda há uns otários que falam em anular voto, o que favoreceria a manutenção do status quo, tão prejudicial ao contribuinte, do qual se extraem tributos de porte europeu em troca de bens e serviços públicos de qualidade moçambicana. O contribuinte quer mudança.

    1. Helio, há alternativas. Vá a uma reunião de apresentação do Partido Novo e leia o que os deputados eleitos têm feito no Congresso. Houve uma preparação e uma motivação para que o partido fosse criado, exatamente para que esses que se aproveitam do poder sejam substituídos por pessoas que querem desenvolver, planejar, alçar o Brasil para um outro patamar.

  15. BOLSONARO promoveu retrocessos na luta contra a CORRUPÇÃO que nem mesmo Dilma e Temer ousaram! Em 2022 teremos “UM PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE” = SÉRGIO MORO! Triunfaremos!

    1. infelizmente fomos inocente de mais! caímos como patinhos , mentiroso, charlatão, fora bolsonaro ! Lena

  16. O sol da verdade que banha os que estão no poder , também alimenta os que lá estiveram , e sumiram das lentes da imprensa ,a prejuízo dos brasileiros . Onde está a Crusoe, para mostrar como andam Lula solto, Themer, Dirceu, Aécio, Serra, Palocci, entre outros que TAMBÉM tiraram nosso dinheiro para seus mal feitos. Quem está custeando a Dilma e seus discursos de vento por aí? Onde estão os outros deputados rachadeira do RJ? Crusoe, ilumine TODOS!

    1. Sim, comenta de todos os partidos, vocês que não leem. Fetichistas por família espúria.

    2. É como diria o jornalista Constantino um “fetiche” por Flávio. Como rachadinha não é tipificado noCódigo Penal eles enlouquecem! Bolsonaro conhece o Queiroz desde o quartel. Ridículos! Diogo vai te tratar! Marreco não vai ganhar nada!

    3. Tenho no meu entender que todos devem pagar por se se beneficiarem por meios esvusis.AGORA o jornalismo que Se DIZ UMA ILHA, NADA COMENTA DOS DEMAIS (PT, PSDB DEM, PP, E DEMAIS PENDURICALHOS DESSA MALFADADA POLITUCA DE LADRÕES.

  17. Cruzoé é sem dúvida na atualidade o melhor veículo de informação!👏👏👏 Excelente matéria, jogando muita luz no penumbra que permeia o clã Bolsonaro.

  18. A família Bolsonaro está intimamente ligada a milicianos “de raiz” para usar um termo em voga. Se for verificada a partir de 2003 a movimentação bancária do Flávio Bolsonaro, outras revelações virão. Ô se virão!

    1. Não posso deixar de elogiar a reportagem! Quem não deve não teme que tudo seja exposto pela imprensa! Estas cedências são imorais! De qq forma

  19. Muito interessante é, principalmente, intrigante. Qual o motivo Flávio manteve Queiroz camuflado por cerca de 4 anos? Uma coisa é certa, a ligação entre Flávio e o falecido matador de aluguel era mais próxima do que parecia. Para que essa investigação alcance objetivos desejáveis é de suma importância que o Ministério Público do Rio seja forte o suficiente para se blindar de ingerências vindas dessa família de criminosos.

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