Putin encurralado e a ameaça nuclear
Um ataque nuclear traria pouco ganho militar numa frente de combate cada vez mais dominada por drones, além do risco de contaminação radioativa
Um fim de semana marcado por incêndios em São Petersburgo, provocados por ataques de drones ucranianos a um terminal de petróleo, e longas filas em postos de combustível em Moscou ilustram a pior crise de abastecimento russa em décadas.
O episódio reforça a percepção, cada vez mais compartilhada entre líderes ocidentais, de que o rumo da guerra na Ucrânia mudou. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou recentemente que, na visão de aliados europeus, Vladimir Putin caminha para a derrota.
Ainda assim, poucos analistas acreditam que o presidente russo aceitará simplesmente admitir o fracasso. Autoridades ocidentais dividem-se sobre o que vem a seguir. Uma corrente teme que um Putin encurralado reaja de forma imprevisível, outra argumenta que suas opções reais de escalada são limitadas, e que o maior risco é o Ocidente recuar da Ucrânia por excesso de cautela.
Entre os cenários discutidos estão ofensivas convencionais mais intensas. Moscou estaria perdendo hoje cerca de 35 mil soldados mortos ou feridos por mês, segundo estimativas ocidentais. Apesar disso, ganham força discussões sobre uma nova grande mobilização por terra, ataques de precisão contra centros urbanos, eventuais provocações militares contra países bálticos ou a Polônia, e operações de sabotagem, como os planos já frustrados de atentados contra fabricantes de armas ocidentais.
A hipótese nuclear também voltou ao debate público. Vozes próximas ao Kremlin, incluindo empresários e generais aposentados, pressionam pelo uso de armas táticas de baixo alcance para reverter as perdas no campo de batalha. Mas oficiais ocidentais avaliam que essas ameaças perderam força após anos de repetição, e que a China teria alertado Putin contra esse caminho, temendo uma resposta direta da Otan.
Mas a premissa constitucional russa que permitiria o uso desse recurso extremo — a existência de uma ameaça existencial ao Estado — não se aplicaria, já que nem a Otan nem a Ucrânia pretendem avançar sobre o território russo. Ao contrário, querem apenas que Moscou retire suas tropas de um país estrangeiro que invadiu.
Além disso, um ataque nuclear traria pouco ganho militar real numa frente de combate cada vez mais dominada por drones, além do risco de contaminação radioativa recair sobre território que o próprio Kremlin reivindica como seu.
A opinião de muitos especialistas é de que, nas últimas décadas, a Rússia nunca esteve tão exposta militarmente quanto agora, com ataques ucranianos atingindo recordes em junho.
Ainda assim, nada indica que o Kremlin esteja pronto para abandonar seus objetivos territoriais. Para muitos diplomatas e analistas ocidentais, o verão de 2026 será decisivo: se Ucrânia e aliados resistirem à pressão russa e aumentarem o desgaste econômico e militar de Moscou, um desfecho negociado pode se tornar viável antes do final do ano.
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