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Missão não deve ter desempenho eleitoral surpreendente, diz Carlos Pereira

Partido ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) foi oficializado pelo Tribunal Superior Eleitoral no último dia 4 de novembro

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Guilherme Resck
6 minutos de leitura 25.11.2025 10:23 comentários 2
Missão não deve ter desempenho eleitoral surpreendente, diz Carlos Pereira
Onça, mascote da Missão. Reprodução/redes sociais
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O novo partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), não deve ter um desempenho surpreendente nas eleições de 2026, considerando que a agrupação ainda não tem acesso aos recursos do fundo eleitoral.

A análise é do doutor em ciência política Carlos Pereira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Pereira é o criador do conceito de presidencialismo de coalizão, em que o partido do presidente, minoritário no Congresso, precisa fazer alianças com os demais para conseguir governar.

A Missão foi oficializada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no último dia 4 de novembro. A sigla presidida por Renan Santos, que é pré-candidato a presidente da República no pleito do próximo ano, vem com a promessa de ser uma "verdadeira alternativa" na política nacional e "transformar" o Brasil.

Crusoé entrevistou Pereira para entender o que esperar da nova sigla.

Confira a íntegra da entrevista.

 

Que papel a Missão poderia ter no presidencialismo de coalizão brasileiro?

Isso vai depender da sua performance. Quer dizer, é importante saber até que ponto esse partido será um partido efetivo. A ciência política não trabalha apenas com o número absoluto de partidos, mas com o conceito de partidos efetivos, ou seja, partidos que importam dentro do Legislativo, cuja representação é grande o suficiente para exercer um poder de veto.

Se esse partido vier a ter uma performance muito grande e ocupar proporcionalmente um número de cadeiras que seja relevante dentro do Parlamento, aí sim esse partido terá um impacto no presidencialismo de coalizão, porque são esses partidos efetivos que, em última instância, têm uma capacidade de veto, têm a capacidade de se organizar e vetar iniciativas do Executivo.

Então, se o próximo presidente da República que for eleito tiver que convidar esse partido para compor a coalizão, dependendo do peso político desse partido no Legislativo, ele pode ter um impacto decisivo.

Mas partidos recentes, normalmente, não fazem essa transição tão rápida. A não ser como é o caso específico do PL ou mesmo do PSL, em que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito.

Em 2018, o presidente Bolsonaro disputou a eleição para presidente e foi vencedor por um partido muito pequeno, que só tinha um representante na Câmara dos Deputados, o deputado Luciano Bivar, de Pernambuco.

Bolsonaro conseguiu levar vários parlamentares de sua influência pessoal, e seu partido cresceu muito. Em 2022, esse fenômeno se repetiu, com o PL. 

Mas normalmente são necessários alguns ciclos eleitorais para que um partido alcance a condição de partido efetivo. 

A Missão vem com a proposta de revolucionar a política. O senhor acha isso possível?

Acho muito difícil. O sistema político brasileiro é baseado no multipartidarismo, que deriva, fundamentalmente, da sua regra eleitoral.

Nossa regra eleitoral é proporcional de lista aberta, o que torna muito difícil que um partido sozinho consiga maioria de cadeiras dentro do Congresso.

A última vez em que isso aconteceu foi em 1986, logo depois do Plano Cruzado, no governo de José Sarney. O Brasil ainda lutava contra a hiperinflação, e o governo teve muito sucesso no curto prazo para segurar os preços. 

Desde então, o máximo que um partido político do presidente conseguiu alcançar foi 20% de cadeiras dentro do Congresso.

Então, para imaginar que esse novo partido tenha capacidade de revolucionar ou de ter algum efeito muito relevante no curto prazo, a probabilidade é muito baixa.

Existe o risco de esse partido se transformar num MDB ou num PSD, que são partidos com várias vertentes? 

É difícil dizer, mas normalmente os partidos políticos no Brasil não são ideologicamente orientados. 

Normalmente, os partidos são criados com uma orientação mais ideológica, mas nem sempre essa agenda resiste ao longo do tempo.

É graças a isso que o presidencialismo de coalizão sobrevive. 

Seria muito mais difícil para o presidente galvanizar apoios dentro do Legislativo se as siglas fossem muito ideológicas, seja de esquerda ou de direita.

Então, a probabilidade maior é que esse partido menor continue ideológico enquanto não for efetivo. À medida que vá aumentando de tamanho, esse partido pode perder a densidade ideológica e virar mais pragmático, menos conectado com ideologias.

Se Renan Santos vencer as próximas eleições para presidente, como seria a governabilidade? 

Acho que a chance de ele montar uma coalizão majoritária seria pequena, dado que ele é ideologicamente orientado. E os riscos que a literatura de ciência política aponta para governos que governam na condição de minoria são enormes.

Veja o caso do ex-presidente Fernando Collor, que governou na condição de minoria e recebeu um impeachment. Veja o caso da presidente Dilma Rousseff, cuja coalizão quebrou e, quando isso ocorreu, ela enfrentou a condição de minoria e teve o seu mandato abreviado.

Ou mesmo o caso do presidente Jair Bolsonaro, que se negou a construir uma coalizão e se deparou com uma pandemia, com um choque exógeno de magnitude astronômica e desesperadamente procurou o Centrão, numa tentativa de montar uma coalizão de sobrevivência, conseguiu terminar o seu mandato, mas não conseguiu se reeleger.

Enfim, presidentes que não conseguem montar maiorias substantivas podem ter o mandato abreviado. É difícil para políticos ideológicos irem contra a corrente do sistema político.

No Brasil, o sistema político premia muito preferências medianas, e não preferências extremas. 

Qual deverá ser a estratégia da Missão na próxima eleição?

Eu acho que agora é apostar no nicho, é apostar nos eleitores com perfil liberal-conservador. Se eles conseguirem ser bem-sucedidos nesse nicho em vários estados da federação, poderão ter um bom desempenho. Mas o jogo é muito competitivo no Brasil.

Normalmente os incumbentes, com direito a um fundo eleitoral bastante robusto de 6 bilhões de reais, saem na frente. Então imagino que a Missão sairá em grande desvantagem em relação aos partidos mais tradicionais.

Então, a probabilidade de um desempenho eleitoral surpreendente da Missão é muito baixa.

Eles vão ter que remar muito para conseguir acesso a recursos públicos, e lembro que o financiamento de campanha hoje é fundamentalmente público. O dinheiro é alocado proporcionalmente dependendo do tamanho da bancada eleita nas eleições anteriores.

Então, os partidos maiores tendem a receber mais recursos.

Como a Missão é um partido novo, eles vão receber recursos marginais. Consequentemente, o impacto eleitoral tende a ser pequeno nas primeiras eleições a ser disputadas.

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Comentários (2)

Mauro Lima

2025-11-25 22:53:28

Vou guardar essa análise e relê-la no fim de 2026.


Rafael Tomasco

2025-11-25 11:03:14

Um partido que promete ser a solução pra direita do Brasil como todos os outros, que no fim se enraízam com o Centrão e se sustentam através de muitos conchavos e muita grana pública pra sustentar seus gabinetes e assessores. Esse filme já passa desde a época da minha avó em 64, da minha mãe em 86 e da minha em 2006. Como esperam conquistar votos e confiança de pessoas que escolheram não se iludir mais com isso?


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Mauro Lima

2025-11-25 22:53:28

Vou guardar essa análise e relê-la no fim de 2026.


Rafael Tomasco

2025-11-25 11:03:14

Um partido que promete ser a solução pra direita do Brasil como todos os outros, que no fim se enraízam com o Centrão e se sustentam através de muitos conchavos e muita grana pública pra sustentar seus gabinetes e assessores. Esse filme já passa desde a época da minha avó em 64, da minha mãe em 86 e da minha em 2006. Como esperam conquistar votos e confiança de pessoas que escolheram não se iludir mais com isso?



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