Gastos sobem, mas confiança na Otan cai
O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, já ameaçou reter contribuições dos Estados Unidos à estrutura da Otan
A cúpula da Otan em Ancara, nesta terça e quarta-feira, reúne líderes da aliança sob o paradoxo de a organização estar, ao mesmo tempo, mais forte e mais frágil do que há um ano e meio, quando Donald Trump voltou à Casa Branca.
A pressão americana teve um efeito prático: os países europeus da aliança gastaram cerca de 139 bilhões de dólares a mais em defesa em 2025 na comparação com 2024, além de aprenderem lições de inovação militar com a resistência ucraniana à invasão russa.
Do ponto de vista econômico, o impulso nos orçamentos de defesa europeus tem gerado efeitos diferentes nas economias do continente. O aumento dos investimentos deve elevar os gastos com defesa dos 27 países da União Europeia para cerca de 2,1% do PIB em 2025, segundo a European Defence Agency.
No entanto, pressiona finanças públicas em países com dívida elevada, contribui para inflação moderada via demanda agregada e encarece importações de equipamentos, o que afeta balanças comerciais.
O maior problema, no entanto, é a confiança. Cresce entre os europeus a dúvida sobre se os Estados Unidos realmente defenderiam um aliado atacado, já que o governo Trump parece não considerar a Rússia uma ameaça real e questiona os próprios valores que uniam o bloco.
Do outro lado do Atlântico, a situação também não é muito diferente, com apenas 51% dos americanos acreditando que a Otan viria ao socorro americano em caso de ataque, indica uma pesquisa que o site Politico teve acesso essa semana.
O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, já ameaçou reter contribuições dos EUA à estrutura da Otan e sugeriu reorganizar a presença militar americana na Europa conforme o quanto cada país gasta, não conforme a necessidade estratégica.
Nem todos os aliados avançam no mesmo ritmo. A Alemanha, países nórdicos e bálticos vêm investindo pesado, enquanto França e Reino Unido ainda não encontraram caminho viável para a meta de 3,5% do PIB em defesa, o que tende a reduzir seu peso político dentro da aliança.
Outro ponto discutido por analistas é a necessidade de reconstruir a relação entre a União Europeia e a Otan, historicamente dois pilares que dialogavam pouco entre si. A UE ganha papel relevante ao coordenar financiamento para o rearmamento europeu, mas dificilmente substituirá a Otan como núcleo militar do continente.
O anfitrião, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, deve usar o protagonismo para fortalecer a indústria de defesa turca e pressionar por mais acesso ao programa do caça F-35. A Otan também deve confirmar apoio de cerca de 70 bilhões de euros à Ucrânia neste ano, a maior parte financiada pela Europa.
A percepção é que a pressa americana em transferir responsabilidades, sem um plano estruturado de transição, deixa lacunas de capacidade que a Rússia possa explorar antes que a Europa esteja pronta para se defender sozinha.
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