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    Crônica

    Autópsia do Supremo

    O problema é autoimune: o organismo reage com violência a qualquer tentativa de arrancar o que já virou parte da sua própria defesa

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    Roberto Reis
    5 minutos de leitura 02.01.2026 03:30 comentários 1
    Estátua da Justiça. Foto: STF
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    Mudar o Supremo Tribunal Federal (STF) não é berrar. Não é ir para a guerra. Muito menos bravata.

    É construção estrutural de longo prazo. É anatomia do poder contínua, com método e sangue frio.

    O Supremo virou centro porque os outros Poderes viraram periferia. Ponto.

    Não vamos fingir o contrário.

    O Congresso perdeu autoridade quando trocou projeto por emenda suspeita, e decoro por imunidade.

    O Executivo perdeu gravidade quando virou um plebiscito ambulante, sobrevivendo de canetadas do Judiciário e morrendo de rejeição.

    Nesse vácuo, a toga cresceu.

    Cresceu no mensalão, nos protestos de 2013, na Lava Jato, na rachadinha, nos escândalos do INSS, no Banco Master e em cada episódio em que o sistema político demonstrou fraqueza, omissão ou oportunismo.

    E cresceu do jeito mais perigoso: não rompendo regras, mas explorando as fissuras dos outros poderes fracos, usufruindo das brechas nas regras.

    Vamos jogar a real: paremos de sonhar com atalhos.

    Quem quer reequilibrar o STF precisa aceitar a única verdade adulta: ele só muda por dentro, com paciência de cirurgião em procedimentos delicados de restauração institucional.

    Com rompimento e pressa, você mata o paciente. E o problema é autoimune: o organismo reage com violência a qualquer tentativa de arrancar o que já virou parte da sua própria defesa.

    Você não derrota um sistema como herói. Você entra nele como organismo. Como um vírus silencioso, metódico, que altera rotinas, reprograma reflexos e desloca o centro de gravidade sem disparar sirenes.

    Você aprende o jogo do Senado, respeita o rito, tolera o tempo e domina o detalhe fio a fio.

    Parasita não mata o hospedeiro. Parasita reorganiza o metabolismo.

    A mudança real é engenharia institucional, não discurso inflamado de parlamentar querendo brilhar em 2026.

    Primeiro: maioria política. Sem Senado, não existe reequilíbrio.

    O Senado é o gargalo da República: aprova, susta, pauta, freia. Quem trata 2026 como apenas eleição presidencial está brincando. Será a eleição mais decisiva das últimas décadas porque reordenará o contrapeso.

    Ninguém mais duvida de que o Senado tende a ser ocupado por gente interessada em enquadrar excessos, impor limites e reconstruir a simetria institucional.

    É lá que se controla sabatina, voto, agenda e, quando necessário, o instrumento extremo, o impeachment. O contrapeso pode ser monumental.

    Segundo: nomeação inteligente. Mudar o STF não é colocar aliado. É selecionar perfil.

    Perfil institucional. Perfil avesso ao estrelismo. Perfil que respeita colegiado, detesta pirotecnia e entende que tribunal não é palco nem casa da mãe Joana.

    Aqui cabe um elogio técnico a André Mendonça: imagine uma maioria com temperamento semelhante. Parece sonho? Não. É método. E esse método nasce da pressão social sobre o Executivo de turno, qualquer que seja ele.

    Cada vaga que abrir por aposentadoria, morte ou renúncia é uma janela de reequilíbrio. Não é ruptura, eu também detesto esse termo. É substituição gradual, com critério e disciplina.

    Terceiro: regras do jogo.

    O Congresso pode, dentro da Constituição, corrigir o que virou abuso: limites para decisões monocráticas, prazos objetivos para referendo, transparência de agenda, filtros processuais, disciplina para liminares que paralisam política pública, regras claras para conflitos de interesse e influência indireta.

    Isso não é vingança. É a tal assepsia institucional que estou afirmando.

    Quarto: cultura de governabilidade.

    Presidente que quer reequilibrar o STF precisa parar de atuar como influencer e voltar a ser chefe de Estado.

    Menos guerra e mais arquitetura. Menos performance para torcida, mais coalizão que sustenta voto e entrega.

    Lula errou por submissão. Bolsonaro errou por barulho, ameaça e pouca obra institucional. E o Flávio, com seus próprios impasses, não nos deixa mentir.

    E por que a luta começa de verdade só em 2027?

    Porque 2026 é campanha. Campanha fabrica vaidade, guerra de narrativas, vilão contra herói, sociedade fraturada, promessa e inimigo imaginário.

    Mudança institucional não nasce em ano de palanque. Nasce na mesa fechada, no texto bem escrito, no voto contado, no acordo sustentável, no silêncio que constrange o oportunista.

    Depois da eleição, o Estado volta a funcionar sem histeria.

    Novo Congresso, nova correlação de forças, nova cadeia de comando. Aí o parasita eficiente faz o trabalho sujo, mas legal: ocupa com critério, reforma com cuidado, reduz fricção, troca improviso eleitoral por norma e devolve a cada poder sua função original.

    Não se engane.

    Não existe golpe contra o STF. Existe reposicionamento.

    Passo a passo. Vaga a vaga. Lei a lei. Voto a voto.

    Quem quer ver o STF menor precisa exigir um Congresso maior e um Executivo competente e independente. O resto é teatro eleitoral.

    Em 2027, a guerra real não será contra um ministro ou outro. Será contra a desordem que permitiu esse crescimento. E essa desordem tem nome: fraqueza política, rabo preso e dependência.

    Conserte isso, e a toga volta ao seu tamanho.

    Não por derrota.

    Por falta de necessidade.

    Roberto Reis é estrategista eleitoral

    X: @RobertoReis

    Instagram: robertor.eis

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    Roberto Reis

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    Comentários (1)

    Albino Clarel Bonomi

    2026-01-02 06:44:11

    Excelente!


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    Albino Clarel Bonomi

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