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Edição Semana 401

Os 250 anos dos EUA

O mais influente país ao longo de mais de dois séculos ensinou o mundo sobre democracia, direitos humanos e busca pela paz

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Lucas de Souza Martins
6 minutos de leitura 02.01.2026 03:30 comentários 2
Os 250 anos dos EUA
Bolo de 250 anos dos Estados Unidos. Inteligência artificial Gemini
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Os contornos de uma celebração de aniversário de um país correm sempre o risco de resvalar na situação política de momento.

Nos 250 anos de fundação dos Estados Unidos, a serem celebrados em 4 de julho de 2026, a Casa Branca já estabeleceu planos alinhados às prioridades, ou preferências pessoais, do atual chefe de Estado.

Os jardins da residência presidencial receberão lutas de UFC, sigla para Ultimate Fighting Championship, organização de artes marciais mistas (MMA) que organiza eventos ao redor de todo o mundo. Donald Trump é um conhecido entusiasta do UFC e aparece em público com frequência assistindo às lutas.

O presidente também já anunciou a realização da primeira edição dos Jogos Patrióticos com atletas de ensino médio vindos de todos os estados e territórios americanos. Na ocasião, não haverá homens jogando em esportes femininos, já destacou Trump.

Por mais que a política atual sirva de distração na efeméride americana, o fato é que os 250 anos dos Estados Unidos marcam a consolidação da nação mais influente ao longo de dois séculos e nas primeiras décadas do século 21.

Nenhum país moldou tanto os rumos do planeta, mesmo diante de eventuais (ou, em alguns casos, temporárias) rivalidades com outras nações.

Nenhum outro projeto político foi tão determinante para definir conceitos que se tornaram base do pensamento ocidental, como o próprio presidencialismo, a separação de poderes, o multilateralismo, além da defesa global dos direitos humanos e da democracia.

Ao declarar independência em 1776, os revolucionários liderados por George Washington desafiaram a maior potência econômica e militar da época.

O novo país criou a figura do presidente da República, resultado do esforço dos pais fundadores para evitar qualquer traço de absolutismo.

Até o título do cargo foi debatido: alguns defendiam termos grandiosos como “Sua Alteza”, mas prevaleceu “Senhor Presidente”, símbolo de simplicidade e equilíbrio.

A Constituição americana institucionalizou a separação dos três poderes, inspirada em Montesquieu, mas aplicada de forma inédita.

Legislativo, Executivo e Judiciário foram desenhados para atuar de modo independente e, ao mesmo tempo, capazes de se conter mutuamente.

Esse sistema de freios e contrapesos buscava impedir tanto a tirania individual quanto o domínio de maiorias momentâneas.

O modelo institucional dos Estados Unidos influenciou diversas regiões ao longo do tempo: a proclamação das repúblicas do Brasil (1889) e da Venezuela (1811), a fundação da Libéria (1847) por ex‑escravizados afro‑americanos, a independência da Tchecoslováquia (1918) anunciada em solo americano e até a declaração de independência do Vietnã (1945), que citou diretamente a Constituição dos EUA.

Mais do que um documento nacional, a Constituição americana tornou‑se referência global de soberania e direitos.

A influência dos Estados Unidos também se projetou sobre valores da modernidade política.

O presidente americano Woodrow Wilson, ao fim da Primeira Guerra Mundial, defendeu uma nova ordem internacional baseada na cooperação e propôs a Liga das Nações.

Na Segunda Guerra, a entrada americana foi decisiva para libertar campos de concentração nazistas e derrotar o regime hitlerista.

Depois do conflito, Washington teve papel central na criação da ONU e ajudou a consolidar Nova York como sua sede permanente, com apoio financeiro de filantropos americanos.

No campo dos direitos, os Estados Unidos avançaram com a liderança de Martin Luther King Jr., decisiva para o fim da segregação racial no sul e para a aprovação da Lei de Direitos Civis de 1964.

Nos anos 1970, o governo Jimmy Carter colocou os direitos humanos no centro da política externa, pressionando ditaduras latino‑americanas a abandonar práticas de tortura e repressão.

No fim da Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram a transição das antigas repúblicas soviéticas para sistemas políticos independentes, oferecendo assistência após o colapso da URSS.

Ao analisar a trajetória americana, porém, é inevitável a crítica a políticas imperialistas e expansionistas.

Há episódios que alimentam esse debate, como a incorporação de Porto Rico após a guerra contra a Espanha, o apoio a governos pouco democráticos desde que alinhados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, além de uma série de intervenções militares malsucedidas.

A longa Guerra do Vietnã, assim como as campanhas no Iraque e no Afeganistão, ilustram empreitadas que, apesar do discurso de promoção da democracia, não alcançaram os resultados pretendidos.

Nada disso, porém, altera o fato de que os Estados Unidos se constituíram como um país extraordinariamente dinâmico, capaz de erguer instituições que garantem liberdade de expressão, competição política e oportunidades reais de ascensão social.

Ao longo de dois séculos e meio, sua democracia, imperfeita, contestada e em permanente reinvenção, mostrou força suficiente para incorporar minorias, ampliar direitos e permitir que grupos antes excluídos alcançassem posições de destaque na vida pública, econômica e cultural.

Por mais que a movimentação política do hoje influencie como se lê a trajetória de um país em seu 250º ano como nação independente, é necessário olhar essa para este percurso com uma cuidadosa perspectiva histórica.

Nenhuma democracia atravessa dois séculos e meio sem contradições e disputas internas.

No final do século 19, inclusive, a Guerra Civil Americana quase dividiu o país em Norte e Sul por conta do tema da escravidão.

Ainda assim, os americanos conseguiram construir instituições robustas que absorveram crises, corrigiram rumos e que seguem ampliando direitos ao longo do tempo.

Ao celebrar 250 anos de sua existência, os Estados Unidos celebram, para além de qualquer polarização política, a construção de uma sociedade obcecada pela liberdade de expressão, princípio consagrado na Primeira Emenda, pela mobilidade social e por estruturas permanentes de defesa de direitos. Em outras palavras, é a celebração da essência do sonho americano.

Lucas de Souza Martins é professor, pesquisador e doutorando em História Diplomática pela Temple University. Possui mestrado em História dos EUA pela Georgia State University.

X: @OLucasSMartins

Instagram: @olucasdesouzamartins

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Lucas de Souza Martins

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Comentários (2)

Aldo

2026-01-04 20:18:06

Esqueceram de mencionar a tomada de mais de 40% do território do México aproveitando-se de uma limitada disputa de fronteiras. E o racismo ainda existe, apenas não é mais oficial como era em estados sulistas.


Albino Clarel Bonomi

2026-01-02 06:55:34

Excelente resumo da História!!!


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Aldo

2026-01-04 20:18:06

Esqueceram de mencionar a tomada de mais de 40% do território do México aproveitando-se de uma limitada disputa de fronteiras. E o racismo ainda existe, apenas não é mais oficial como era em estados sulistas.


Albino Clarel Bonomi

2026-01-02 06:55:34

Excelente resumo da História!!!



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