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Edição Semana 347

O Brasil precisa libertar-se de Oscar Niemeyer

O problema é que a qualidade de sua produção decaiu com o tempo, e ele viveu muito: morreu em 2012 aos 104 anos

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Josias Teófilo
4 minutos de leitura 27.12.2024 03:30 comentários 10
O Brasil precisa libertar-se de Oscar Niemeyer
Memorial da América Latina em São Paulo. Foto: Wikimedia Commons
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Oscar Niemeyer tem seu lugar na história da arquitetura.

Nascido em 1907, foi provavelmente um dos arquitetos que mais construiu no mundo: fez os principais prédios da capital do Brasil, cidade nascida já moderna, projetou a sede da ONU em Nova York, a sede do Partido Comunista francês, e tantos outros edifícios internacionalmente reconhecidos.

Niemeyer é o arquiteto do grande gesto formal: consegue como ninguém demarcar um espaço e conceber a forma arquitetônica como símbolo.

Fez isso em Brasília – na Praça dos Três Poderes, na Catedral da cidade, ou na Igrejinha (que não é menos relevante) – no Museu do Olho em Curitiba, na Pampulha em Belo Horizonte, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Palácio Mondadori em Milão, e por aí vai.

O problema é que a qualidade da produção de Oscar Niemeyer decaiu com o tempo, e ele viveu muito: morreu em 2012 aos 104 anos.

E com o prestígio crescente, Niemeyer produziu até o final da vida, com o escritório que o dava suporte – aparentemente ele desenhava os traços gerais e os outros arquitetos do escritório detalhavam as obras.

O arquiteto tinha o hábito de criar um palco para as próprias obras: fez isso na Praça dos Três Poderes, no Memorial de América Latina em São Paulo, e no Parque Dona Lindu, no Recife. Ele criava a obra e o palco para obra.

No caso do Parque Dona Lindu isso causou um problema grave.

O parque era um terreno pertencente à Marinha na beira-mar do bairro de Boa Viagem, no Recife.

Uma associação de moradores do bairro pediu durante anos que um parque fosse construído no local.

Um parque, não uma estrutura de concreto sem árvores.

O prefeito do Recife na ocasião, João Paulo, do PT, encomendou uma obra a Oscar Niemeyer.

Não abriu concurso para o projeto, apenas fez uma encomenda ao famoso arquiteto.

O resultado foram duas estruturas redondas, um teatro e uma galeria de arte, cercada de concreto, sem árvores.

Evidentemente foi um escândalo: o projeto era o contrário do que os moradores pediam.

Uma paródia de uma música de Alceu Valença viralizou nas redes sociais criticando o projeto, em é dito: “Fizeram um parque esquisito na praia de Boa Viagem, botaram dois prédios redondos em formato de c*”.

O projeto foi alterado pelo arquiteto, que acrescentou mais árvores, diminuiu a superfície com concreto, e o projeto foi construído.

Hoje é um dos espaços públicos mais feios do Recife.

Eu pessoalmente gostaria de vê-lo dinamitado, talvez das ruínas cobertas pela vegetação surgisse algo mais interessante.

Penso o mesmo em relação ao Memorial da América Latina, em São Paulo.

A obra de Niemeyer foi feita às pressas e tem inúmeros problemas: a biblioteca não foi construída tendo um cuidado acústico, tudo repercute imensamente por causa do teto arredondado, a galeria de arte precisou ser inteiramente coberta de cortinas, e o principal: o lugar é uma praça fechada, coberta de concreto, sem o mínimo de integração com a natureza.

Um lugar que, em suma, não integrou-se à cidade, nem à sua vida cultural.

Precisamos fazer uma revisão crítica do modernismo brasileiro, incluindo a obra de Oscar Niemeyer, e refletir seriamente sobre o que precisa ser mantido e o que deve ser requalificado, alterado ou até destruído, como é o caso dessas duas obras.

A dificuldade em trazer esse debate à tona é o que modernismo, no Brasil, já nasceu consagrado, e tornou-se hegemônico no meio acadêmico – e a hegemonia persiste até hoje.

Josias Teófilo é cineastas, escritor e jornalista

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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Josias Teófilo

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (10)

Ricardo coelho

2025-01-11 00:47:11

Parabenizo o corajoso e oportuno artigo. Niemayer fez poucas belas obras a conservar e muitas a serem descartadas. Entre as belas obras a serem conservadas, incluiria a catedral de Brasília e o palácio dos arcos, sede do Itamaraty, em Brasília. Ao concreto de Niemayer, Burle Marx adicionou belos painéis, jardins e espelhos d'água. Esses, sim, deveriam ser lembrados! Quanto à maior parte das obras de Niemayer, que os vários governantes brasileiros encomendaram ao longo de mais de 50 anos, parecem-me de pouca relevância estética, de precária funcionalidade e hostis à natureza: seja a do cerrado ou a da mata atlântica, onde se encontram a maior parte das obras do arquiteto. Essas, sim, deveriam ser objeto de revisão pelos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico para separar o joio do trigo: preservar o que tem relevância arquitetônica; reformar o que pode ser reformado; e permitir a destruição daquilo que não tem relevância alguma. Sim, o Brasil precisa libertar-se de Niemayer!


Marcia Elizabeth Brunetti

2025-01-06 11:17:06

Particularmente gosto do Museu do Olho, mas porque conseguiram integrar a obra à natureza. Provavelmente porque Niemeyer já estava muito velho, e os arquitetos da equipe respeitaram o conceito de sustentabilidade que se impôs nas construções em Curitiba. Fora isso, Niemeyer foi apenas um representante da Bauhaus no Brasil. Arquitetura fria. Contestadora, claro, por isso admirada pelos intelectuais de esquerda. Os formatos são interessantes, mas sem preocupação com a funcionalidade. Não considero isso arquitetura, mas expressão de arte.


EDINA MARCHIONE

2025-01-04 10:46:16

Várias coisas de Niemeyer precisam ser revistas, não apenas esse dois exemplos. Se você já trabalhou num dos prédios projetados por ele, entende que a forma dos seus projetos se sobrepõe ao uso do espaço, o que contradiz o preceito de a forma segue a função, esse sim um dogma do modernismo.


Paulo Saboia

2024-12-30 12:49:51

Quando vejo imagens aéreas do Palácio do Planalto com aquele teto horroroso, de concreto aparente, caixas e canos, fico pensando como chamar Brunelleschi, arquiteto do magnífico Duomo De Florença, se o Niemayer é quem é chamado de gênio; devemos ainda considerar que a cúpula de Florença foi construída seis séculos antes de Brasília!


Maria Aparecida Visconti

2024-12-30 11:31:08

Ótima crítica. Uma vez fui a um evento no Memorial da América Latina e o calor lembrava uma fornalha.


Carlos Renato Cardoso Da Costa

2024-12-29 19:19:37

O Brasil carece de heróis, seja por ter parido poucos indivíduos excepcionais, seja por ignorar atores verdadeiramente excepcionais. Assim acabamos por nos apegar aos que nossa elite (ou a internacional) nos dita como sumidade e paramos a aplaudi-lo mesmo quando não entendemos nem apreciamos nada.


Clayton De Souza pontes

2024-12-29 17:53:48

Poderia incluir o Museu Nacional de Brasília como uma obra pra revisão. É uma meia laranja de difícil conservação e


ADALBERTO DENSER DE SÁ JUNIOR

2024-12-29 07:28:54

Acho as obras do Niemayer feias.


Luiz Filho

2024-12-28 19:18:53

Temos que concordar que algumas das obras são muito boas e importantes. Mas é muito provável que a exaltação para tudo que Niemeyer fez é porque nasceu, viveu e morreu comunista. Uma prova de que não era tão gênio assim


Luiz Claudio Rezende

2024-12-28 03:04:28

Nunca admirei nenhuma obra dele. Não tem nada de humano, de vivo, é só concreto frio para os olhos e absurdamente quente n


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Comentários (10)

Ricardo coelho

2025-01-11 00:47:11

Parabenizo o corajoso e oportuno artigo. Niemayer fez poucas belas obras a conservar e muitas a serem descartadas. Entre as belas obras a serem conservadas, incluiria a catedral de Brasília e o palácio dos arcos, sede do Itamaraty, em Brasília. Ao concreto de Niemayer, Burle Marx adicionou belos painéis, jardins e espelhos d'água. Esses, sim, deveriam ser lembrados! Quanto à maior parte das obras de Niemayer, que os vários governantes brasileiros encomendaram ao longo de mais de 50 anos, parecem-me de pouca relevância estética, de precária funcionalidade e hostis à natureza: seja a do cerrado ou a da mata atlântica, onde se encontram a maior parte das obras do arquiteto. Essas, sim, deveriam ser objeto de revisão pelos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico para separar o joio do trigo: preservar o que tem relevância arquitetônica; reformar o que pode ser reformado; e permitir a destruição daquilo que não tem relevância alguma. Sim, o Brasil precisa libertar-se de Niemayer!


Marcia Elizabeth Brunetti

2025-01-06 11:17:06

Particularmente gosto do Museu do Olho, mas porque conseguiram integrar a obra à natureza. Provavelmente porque Niemeyer já estava muito velho, e os arquitetos da equipe respeitaram o conceito de sustentabilidade que se impôs nas construções em Curitiba. Fora isso, Niemeyer foi apenas um representante da Bauhaus no Brasil. Arquitetura fria. Contestadora, claro, por isso admirada pelos intelectuais de esquerda. Os formatos são interessantes, mas sem preocupação com a funcionalidade. Não considero isso arquitetura, mas expressão de arte.


EDINA MARCHIONE

2025-01-04 10:46:16

Várias coisas de Niemeyer precisam ser revistas, não apenas esse dois exemplos. Se você já trabalhou num dos prédios projetados por ele, entende que a forma dos seus projetos se sobrepõe ao uso do espaço, o que contradiz o preceito de a forma segue a função, esse sim um dogma do modernismo.


Paulo Saboia

2024-12-30 12:49:51

Quando vejo imagens aéreas do Palácio do Planalto com aquele teto horroroso, de concreto aparente, caixas e canos, fico pensando como chamar Brunelleschi, arquiteto do magnífico Duomo De Florença, se o Niemayer é quem é chamado de gênio; devemos ainda considerar que a cúpula de Florença foi construída seis séculos antes de Brasília!


Maria Aparecida Visconti

2024-12-30 11:31:08

Ótima crítica. Uma vez fui a um evento no Memorial da América Latina e o calor lembrava uma fornalha.


Carlos Renato Cardoso Da Costa

2024-12-29 19:19:37

O Brasil carece de heróis, seja por ter parido poucos indivíduos excepcionais, seja por ignorar atores verdadeiramente excepcionais. Assim acabamos por nos apegar aos que nossa elite (ou a internacional) nos dita como sumidade e paramos a aplaudi-lo mesmo quando não entendemos nem apreciamos nada.


Clayton De Souza pontes

2024-12-29 17:53:48

Poderia incluir o Museu Nacional de Brasília como uma obra pra revisão. É uma meia laranja de difícil conservação e


ADALBERTO DENSER DE SÁ JUNIOR

2024-12-29 07:28:54

Acho as obras do Niemayer feias.


Luiz Filho

2024-12-28 19:18:53

Temos que concordar que algumas das obras são muito boas e importantes. Mas é muito provável que a exaltação para tudo que Niemeyer fez é porque nasceu, viveu e morreu comunista. Uma prova de que não era tão gênio assim


Luiz Claudio Rezende

2024-12-28 03:04:28

Nunca admirei nenhuma obra dele. Não tem nada de humano, de vivo, é só concreto frio para os olhos e absurdamente quente n



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