Entre 1º de janeiro e 20 de maio de 2026, a Receita Federal apreendeu mais de 69 mil medicamentos para emagrecimento em Foz do Iguaçu, no Paraná. Já em 2025, o número de medicamentos apreendidos em todo o estado foi de 26 mil. Ou seja, o volume de apreensões em 2026 aumentou em mais de 165% em relação ao ano passado.
De acordo com especialistas, o volume de apreensões em 2026 indica uma escalada acentuada no contrabando desses produtos, com Foz do Iguaçu se consolidando como o principal ponto de entrada de medicamentos ilegais no Brasil.
Por que a Foz do Iguaçu se tornou “capital” do contrabando de canetas emagrecedoras?
Segundo especialistas, a posição geográfica de Foz do Iguaçu é o principal fator que a tornou o epicentro do contrabando. A cidade compartilha cerca de 30 quilômetros de fronteira com o Paraguai e possui três pontes de acesso internacional, o que facilita o fluxo constante de pessoas e mercadorias.
Essa configuração geográfica estratégica permite que medicamentos sejam trazidos do Paraguai com relativa facilidade, especialmente por meio do chamado “contrabando formiguinha”, no qual pequenas quantidades são transportadas por indivíduos comuns.
Laboratórios paraguaios produzem medicamentos para emagrecimento tanto de forma regular quanto clandestina, e esses produtos são vendidos livremente em farmácias do país vizinho, sem necessidade de receita médica, o que contrasta com as restrições impostas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.
Mercado negro é impulsionado pela alta demanda
A Anvisa autoriza apenas cinco medicamentos para emagrecimento no Brasil: Mounjaro, Turzemax, Veltrane, ZPHC e Thera Biolabs. Para especialistas, a escassez legal desses produtos, aliada à alta demanda por soluções rápidas para perda de peso, impulsionada pelas redes sociais, alimenta um mercado ilegal lucrativo.
As canetas contrabandeadas, muitas vezes contendo substâncias experimentais ou falsificadas, são revendidas por meio de aplicativos de mensagens e plataformas digitais, sem supervisão médica.
O contrabando movimenta mais de R$ 2 bilhões em 2026, segundo estimativas do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf). No entanto, as apreensões representam apenas entre 5% e 10% do total contrabandeado, o que sugere que centenas de milhares de unidades entram no país sem fiscalização.
Táticas dos contrabandistas
Segundo as autoridades responsáveis pela fiscalização da região, os contrabandistas têm usado métodos “ousados” para burlar a fiscalização. Medicamentos foram encontrados escondidos em potes de doce de leite, em compartimentos de carros e até nos escapamentos de motocicletas.
Um caso recente envolveu um tenente-coronel da Polícia Militar de Rondônia, que foi preso com mais de 300 ampolas de tirzepatida. Outro envolveu um estudante de medicina, com 462 unidades avaliadas, no valor de R$ 69 mil.
Esses produtos exigem refrigeração e condições de armazenamento controladas, mas são transportados em temperaturas extremas, o que compromete sua eficácia e segurança. A Receita Federal alerta que a integridade dos medicamentos é frequentemente negligenciada, o que coloca em risco a saúde de quem os consome.
O que a Receita Federal faz com os itens apreendidos?
Os medicamentos apreendidos são armazenados em depósitos da Receita Federal em Foz do Iguaçu até a conclusão do processo administrativo. A cada três meses, as cargas são levadas para incineração em Senador Canedo, em Goiás. O processo inclui a prensagem das embalagens para reciclagem e a incineração dos produtos em fornos.
De acordo com os agentes responsáveis pela fiscalização, os fornos utilizados para incinerar os itens atingem temperaturas superiores a 1.000 °C. As cinzas resultantes são reaproveitadas na fabricação de tijolos e de cimento.





