O cenário político de diversos países tem enfrentado crises de polarização e descredibilidade da classe política nos últimos anos, mas um país chegou a um ponto extremo em que, faltando menos de um mês para as eleições presidenciais, nenhum candidato passa de 10% das intenções de voto nas pesquisas eleitorais. Esse país é o Peru, cuja líder da disputa eleitoral é a própria indecisão.
Segundo informações divulgadas por um estudo realizado por cientistas políticos, o país sul-americano tem 35 candidatos à presidência nas eleições deste ano, um número recorde, sendo mais que o dobro de candidatos do último pleito realizado em 2021. Mas apesar do alto número de candidatos, nenhum é visado pela população, com mais de vinte tendo menos de 1% de intenção de voto.
O estudo aponta que essa queda tem relação à confiança do povo com o sistema político do país, destacando que o Peru teve oito presidentes na última década, além de um desgaste deixado como “herança” da Operação Lava Jato no país. Nesse contexto, especialistas apontam que vem sendo cultivado um crescente cinismo político nos cidadãos do Peru.
Desde 2016 para cá, cinco ex-presidentes peruanos foram presos por corrupção: Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski, Ollanta Humala e Martín Vizcarra. Além desses, o ex-presidente Alan Garcia tirou a própria vida em 2019 durante uma operação policial na Lava Jato, Pedro Castillo foi detido por tentativa de autogolpe em 2022, e Dina Boluarte e Francisco Sagasti respondem a processos na Justiça.
Com essa falta de confiabilidade, os presidentes peruanos acabam sendo eleitos com muito pouco apoio popular, raramente passando dos votos de 10% dos eleitores no primeiro turno e chegando à presidência sem apoio popular sólido, tornando o líder vulnerável às pressões do legislativo.
Falta de inspiração
A cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), Milagros Campo Ramos, resumiu a situação a uma falta de esperança projetada pelo cenário político e sentida pelos peruanos. “A grande diferença da política no Peru é que ela não inspira nenhuma esperança de mudança”, destacou a cientista.
Já o cientista político Francisco Belaúnde, professor da Universidade de Lima, adentra nessa falta de esperança como sendo uma multiplicação de candidatos sem lastro popular, citando o fato de que o Congresso peruano eliminou o sistema de primárias obrigadorias, que servia como um filtro de candidatos e partidos. Antes, era previsto que apenas siglas capazes de mobilizar ao menos 5% do eleitorado poderiam lançar candidatos, mas agora não existe mais esse filtro e boa parte dos eleitores sequer reconhece alguns nomes nas urnas.





