O risco de um “desastre térmico” no Brasil em 2026 entrou no radar de especialistas depois dos alertas sobre a possível formação de um novo El Niño no segundo semestre, em um planeta que já vive sob os efeitos da crise climática. A preocupação não está apenas em recordes pontuais de temperatura, mas na chance de o país enfrentar ondas de calor mais longas, mais frequentes e com efeitos mais pesados sobre a rotina da população mundial.
Dados do INMET indicam 62% de probabilidade de formação do El Niño no trimestre entre junho e agosto e mais de 80% de chance de persistência do fenômeno a partir de agosto até o fim de 2026. A NOAA também apontou, em março, uma probabilidade de 62% de surgimento do fenômeno nesse mesmo período, o que reforça o cenário de atenção para os próximos meses.
O El Niño encontraria um país que já vem registrando eventos extremos, com sucessivas ondas de calor e secas mais intensas, o que aumenta o potencial de agravamento. Na prática, isso significa que o calor pode deixar de ser apenas um desconforto sazonal e passar a pressionar a saúde pública, o consumo de energia, o abastecimento e a produção de alimentos.
Calor prolongado pesa mais do que recorde isolado
Segundo o Lancet Countdown, um dos principais relatórios internacionais sobre saúde e clima, o impacto do calor extremo não se resume à temperatura máxima registrada durante o dia. O relatório aponta que a exposição ao calor também afeta o sono e a produtividade, sobretudo quando as temperaturas permanecem elevadas durante a noite, o que reduz o tempo de recuperação do corpo entre um dia e outro. Em 2024, a perda de horas de sono associada ao calor chegou a um recorde global, com aumento de 9% em relação à média de 1986 a 2005.
No Brasil, a Fiocruz aponta que as ondas de calor representam maior risco para idosos e para pessoas com doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, Alzheimer, insuficiência renal e problemas cardiovasculares. A instituição também tem destacado que esse impacto não atinge todos os grupos da mesma forma: dados do Observatório de Clima e Saúde mostram que os efeitos das ondas de calor são mais intensos entre pessoas pretas e pardas, pessoas com baixa escolaridade, idosos e mulheres.
A expressão “desastre térmico” ganhou força exatamente por isso, ela tenta dar nome a um fenômeno que nem sempre produz imagens espetaculares, como enchentes ou deslizamentos, mas que se espalha pela vida cotidiana de forma silenciosa, desgastando a saúde, a produtividade e a infraestrutura das cidades.
El Niño pode mexer com chuva, seca e energia
No Brasil, o El Niño costuma alterar o regime de chuvas e a distribuição de calor entre as regiões. Segundo o INMET, o fenômeno pode reduzir chuvas em partes do Norte e do Nordeste e também afetar áreas do Centro-Oeste e do Sudeste, favorecendo estiagens e agravando períodos secos.
Esse quadro tem efeito em cadeia: menos chuva e mais calor afetam reservatórios, elevam a demanda por energia elétrica e prejudicam a produção agrícola, o que pode pressionar preços e ampliar o custo de vida. O calor extremo, portanto, não fica restrito à previsão do tempo, ele entra na conta de luz, no abastecimento e no orçamento das famílias.
Ainda assim, especialistas evitam tratar o pior cenário como certeza. A NOAA ressalta que a intensidade do possível El Niño de 2026 ainda é incerta, o que exige cuidado para não transformar probabilidade em fato consumado. O alerta, porém, é suficiente para mostrar que o país precisa acompanhar o segundo semestre com mais atenção.
Brasil discute agora um calor que virou problema estrutural
O centro da discussão já não está apenas em saber se 2026 será “muito quente”. A questão mais importante é o quanto o país está preparado para conviver com extremos térmicos cada vez mais comuns em um cenário de aquecimento global. Esse debate envolve saúde pública, planejamento urbano, adaptação climática e capacidade de resposta do poder público.
As cidades brasileiras ainda mostram muitas fragilidades nesse campo: com a falta de arborização, faltam estratégias de resfriamento urbano e sobram áreas em que concreto e asfalto ampliam as chamadas ilhas de calor. A Organização Meteorológica Mundial mostrou que a América Latina e o Caribe tiveram, em 2024, temperatura média 0,90°C acima da média de 1991-2020, e classificou o ano como o mais quente ou o segundo mais quente já registrado em partes importantes da região.
Nessas regiões, o aumento da temperatura pesa mais e o cotidiano se torna mais hostil, a própria ONU-Habitat trata esse tipo de solução como parte central do repertório de Soluções Baseadas na Natureza, que incluem corredores verdes, florestas urbanas, áreas alagáveis restauradas e outras formas de infraestrutura ecológica que reduzem temperatura e aumentam resiliência.




