Um periquito que a Caatinga havia perdido há mais de cem anos voltou a nascer em liberdade. No dia 17 de março de 2026, filhotes do periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) nasceram na Reserva Natural Serra das Almas, entre o Ceará e o Piauí, marcando o primeiro evento reprodutivo da espécie em vida livre na região em mais de um século.
O nascimento veio menos de um ano após o início do projeto de reintrodução, lançado em dezembro de 2024 com a soltura de 18 indivíduos na reserva. Hoje, cerca de 23 periquitos vivem soltos na área. Para Fábio Nunes, coordenador do Projeto Cara-Suja, a velocidade com que isso aconteceu é um sinal claro de que as aves estão se estabelecendo.
“Um dos principais sinais de que a reintrodução está dando certo é quando a espécie começa a se reproduzir. O fato de isso ter acontecido em menos de um ano mostra que elas estão se estabelecendo bem”, explicou.
De onde vieram as aves
Parte dos periquitos que hoje voa livre na Serra das Almas passou por um longo caminho antes disso. Muitos foram resgatados em situações de tráfico e acolhidos pelo Parque Arvorar, em parceria com o Ibama, onde receberam cuidados veterinários e passaram por reabilitação antes da soltura.
A gerente do parque, Leanne Soares, destacou o impacto de acompanhar esse ciclo: “A gente cuida dessas aves desde o resgate, acompanha toda a recuperação e, depois, vê elas livres, formando casais e se reproduzindo. É muito emocionante e mostra que o trabalho está dando resultado.”
Vindas de um ambiente mais úmido, as aves precisaram aprender desde o início a viver na Caatinga: reconhecer novos alimentos, identificar predadores e ocupar território. Segundo Nunes, os filhotes que nascem agora já crescem totalmente inseridos nessa realidade, o que representa uma vantagem enorme para as próximas gerações.
33 ovos e expectativa de crescimento
Os pesquisadores encontraram 33 ovos nas caixas-ninho instaladas na reserva, estruturas de madeira que simulam ocos de árvores, recurso escasso em algumas áreas do bioma. Foi justamente nessas caixas que aconteceu o primeiro registro reprodutivo da espécie na região em vida livre.
Ariane Ferreira, analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga, afirmou que o resultado surpreendeu a equipe: “A quantidade de ovos foi maior do que a gente esperava. Isso indica que podemos ter um ano muito positivo para a espécie na reserva.”
A projeção para os próximos anos é otimista. Segundo ela, existe a possibilidade de a população dobrar em pouco tempo, o que representaria um avanço expressivo para a conservação da ave. No entanto, a fase inicial de vida dos filhotes ainda exige atenção constante, já que estão sujeitos a predação, dificuldades na alimentação e até alagamento de ninhos em períodos de chuva intensa.
Mesmo cenário em Ubajara
O retorno do periquito-cara-suja não se limita à Serra das Almas. A cerca de 144 quilômetros de distância, no Parque Nacional de Ubajara, outra frente de reintrodução iniciada em 2025 já registra quase 50 ovos e 28 filhotes nascidos até o momento.
O registro mais antigo da espécie em Ubajara data de 1884, feito pelo naturalista cearense Antônio Bezerra. Agora, mais de 140 anos depois, o parque volta a receber e criar a ave.
Para Diego Rodrigues, chefe do parque, o momento vai além da biologia: “Mostra que, com planejamento, parceria e dedicação, é possível reverter processos de extinção local.”
A espécie quase não existia mais
O periquito-cara-suja chegou a estar classificado como criticamente em perigo de extinção até 2017, quando as ações de conservação ajudaram a melhorar seu status para “em perigo” na lista nacional. A espécie sofreu com décadas de tráfico de animais silvestres e perda de habitat e chegou a desaparecer de diversas regiões do Nordeste nos últimos 50 anos.
O trabalho que trouxe esses resultados envolve plantio de espécies nativas, instalação de comedouros, monitoramento contínuo e parcerias com organizações nacionais e internacionais. Segundo o diretor da Associação Caatinga, Daniel Fernandes, o objetivo é transformar a reserva em um ambiente cada vez mais capaz de sustentar espécies ameaçadas a longo prazo.
Depois de mais de cem anos ausente, o periquito-cara-suja não apenas voltou a aparecer na Serra das Almas, mas agora começa a reconstruir ali a sua própria história.





