A universidade que trocou o ensino pela militância
Grevistas da USP programaram uma roda de conversa sobre “o papel da juventude contra o Tarcísio”
A universidade pública brasileira sempre foi um espaço político. E isso nunca constituiu um problema em si.
Universidades existem justamente para produzir pensamento crítico, tensão intelectual e liberdade de debate.
O problema começa quando a política deixa de conviver com o ensino e passa a substituí-lo.
A recente programação divulgada por grupos grevistas da USP talvez seja um retrato quase didático dessa transformação.
Entre as atividades propostas aparecem: “pressionar a reitoria”, confecção de cartazes para marcha política, uma roda de conversa sobre “o papel da juventude contra o Tarcísio” e até um “campeonato de assobio”.
Tudo isso dentro da principal universidade pública do país.
A questão não é moralizar a participação política dos estudantes. Jovens sempre participaram da vida política brasileira — e frequentemente tiveram papel importante nela.
O ponto mais delicado é outro: em que momento uma universidade deixa de funcionar prioritariamente como espaço de formação acadêmica e passa a operar como estrutura permanente de mobilização ideológica?
Essa distinção importa.
O problema surge quando a epistemologia do conhecimento jurídico cede espaço à lógica da militância permanente, da manipulação política ou da substituição da reflexão teórica por slogans ideológicos.
A universidade perde sua centralidade quando abandona sua vocação intelectual para transformar-se apenas em arena de disputas identitárias ou partidárias.
Universidades públicas não pertencem a grupos militantes. Elas pertencem à sociedade brasileira — inclusive aos milhões de cidadãos que jamais conseguirão colocar os pés em suas salas de aula, mas que as financiam diariamente por meio de impostos.
Em nenhuma parte séria do mundo faculdades de direito funcionam como centros de caridade ou plataformas de mobilização política contínua.
Isso não significa indiferença diante das desigualdades sociais ou afastamento das demandas humanas concretas.
Ao contrário: cabe justamente à universidade pensar, de maneira racional e estrutural, como o sistema jurídico pode ser aperfeiçoado para atender melhor à sociedade.
Por isso, existe uma expectativa legítima da sociedade em relação à USP: excelência acadêmica, produção científica, formação intelectual de alto nível e pesquisa relevante para o país.
Quando a universidade parece gradualmente substituir essas funções por uma lógica contínua de ativismo político, a reação social torna-se inevitável.
Talvez o trecho mais revelador da programação seja justamente a roda de conversa sobre “o papel da juventude contra o Tarcísio”.
A formulação é importante porque ela desloca o debate do campo universitário para o campo da militância político-partidária direta contra um governo democraticamente eleito.
E isso altera qualitativamente a natureza do movimento.
Uma coisa é a universidade discutir criticamente políticas públicas, segurança, orçamento ou educação. Outra, muito diferente, é transformar a estrutura universitária em espaço orgânico de engajamento político permanente contra adversários ideológicos específicos.
A consequência mais grave talvez não seja sequer política, mas institucional.
Porque ambientes hegemonicamente militantes tendem a produzir um fenômeno silencioso: o desaparecimento do dissenso legítimo.
Alunos que discordam passam a se calar. Professores evitam confrontos. O pluralismo vai sendo substituído por conformidade moral e simbólica.
E uma universidade sem pluralismo deixa de ser plenamente universidade.
Há ainda um aspecto frequentemente ignorado nesse debate: o direito dos estudantes que querem simplesmente estudar.
Os mais prejudicados por greves prolongadas raramente são os grupos politicamente organizados. São os alunos trabalhadores, bolsistas, estudantes de origem humilde e aqueles que dependem da universidade pública como única possibilidade concreta de ascensão intelectual e profissional.
Para esses estudantes, a paralisação permanente não é performance política. É atraso de vida.
O verdadeiro risco talvez seja a naturalização desse modelo universitário em que a militância deixa de ser episódica e passa a constituir a própria identidade institucional da universidade.
Quando isso acontece, a universidade deixa de formar cidadãos livres e começa a formar apenas militantes previsíveis.
E nenhuma democracia madura deveria considerar isso um sinal de saúde intelectual.
Maristela Basso é professora de direito internacional na USP
Instagram: @maristelabasso.adv
Linkedin: Maristela Basso Advogados
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Comentários (3)
Andre Luis dos Santos
2026-05-23 20:08:27Análise irretocável. Esses militantes são uns vagabundos. ZERO contribuem pra sociedade.
A Univrrsidade pública hoje tem só militantes e baderneiros. E nós, gastamos nosso dinheiro payrocinando-os.
Marcos
2026-05-23 18:27:35FORMADORES DE LIXO HUMANO.