Crusoé
25.05.2026 Fazer Login Assinar
Crusoé
Crusoé
Fazer Login
  • Acervo
  • Edição diária
Edição Semanal
Pesquisar
crusoe

X

  • Olá! Fazer login
Pesquisar
  • Acervo
  • Edição diária
  • Edição Semanal
  • Entrevistas
  • O Caminho do Dinheiro
  • Ilha de Cultura
  • Leitura de Jogo
  • Poder
  • Colunistas
  • Assine já
    • Princípios editoriais
    • Central de ajuda ao assinante
    • Política de privacidade
    • Termos de uso
    • Política de Cookies
    • Código de conduta
    • Política de compliance
    • Baixe o APP Crusoé
E siga a Crusoé nas redes
Facebook Twitter Instagram
Edição Semana 401

Sem garantias, mas cheio de desejos

Os antigos sabiam que o amanhã não se afirma. Ele, no máximo, se arrisca

avatar
Dennys Xavier
5 minutos de leitura 02.01.2026 03:30 comentários 2
Sem garantias, mas cheio de desejos
Estação da Luz. Foto: Flickr/Scott Ogle
  • Whastapp
  • Facebook
  • Twitter
  • COMPARTILHAR

Na gramática do grego antigo, o futuro sigmático [assim chamado por causa da presença do s (sigma) na formação verbal] carrega mais do que uma projeção temporal: ele está cheio de desejo, mas vazio de garantia.

O verbo grego, ao se dobrar sobre o futuro, não promete, apenas espera. Os antigos sabiam que o amanhã não se afirma… ele, no máximo, se arrisca.

É significativo que, ainda no grego de Sócrates e Platão, boulomai (querer) e elpis (esperança) estejam semanticamente próximos nas práticas do discurso futuro.

E mais: o futuro não era um tempo neutro, mas uma declaração existencial, uma aposta.

Conjugar no futuro era, por vezes, desejar, por outras, arriscar-se a falhar.

Diferente do modo indicativo moderno, o futuro do verbo no grego preservava o desassossego do porvir.

O amanhã não existe, é uma fábula, uma ficção. Tanto quanto não se pode fazer nada sobre o passado (na melhor das hipóteses, aprender com ele para evitar ulteriores problemas… estaríamos dispostos? Não parece…).

Esses tais gregos antigos, mestres em nomear o indizível, jamais confundiram o futuro com uma promessa.

Ao conjugarem o verbo no tempo vindouro, não o faziam com a certeza mecânica dos relógios modernos.

Seu “futuro desiderativo” não era previsão, era desejo enunciado com hesitação, com parcimônia, como quem fala sob o peso da dúvida.

Sabiam, como nós deveríamos saber, que o amanhã não é extensão do hoje, mas o seu desafio em tudo aberto e incerto.

E 2026 nasce assim: não como um presente embrulhado em ouro, mas como uma figura esfumaçada na linha do horizonte.

Não há “nova era”, nem aurora dourada. Você pode pular ondinhas, fazer todas as práticas de superstições do manual da esperança esvaziada… de lá, nada sai.

Há, como sempre houve, o mundo. E o mundo, este velho palco de desordem, pretensões e muita insensatez continuará sendo o que é: hostil à verdade, ingrato com os bons, caótico em sua tessitura, cínico com os que esperam justiça sem luta.

Não nos enganemos. Não temos merecido algo diverso.

Nos noticiários, seguimos colecionando absurdos com o estoicismo vulgar de quem já não se espanta.

No Brasil, a violência subiu à tribuna, o crime fez escola e o arbítrio veste toga.

Enquanto isso, o mundo se distrai com guerras encenadas em tempo real, tribunais de lacração global e uma economia mundial operando em desequilíbrio crônico, sustentada por dívida, ressentimento e algoritmos.

Não há qualquer indício de que 2026 será melhor do que 2025.

E talvez essa seja a sua única virtude, se tivermos olhos de ver: não nos iludir.

Pois é precisamente desse despojamento de esperanças fáceis que nasce o terreno sólido da ação real.

Um ano sem promessas pode ser, paradoxalmente, o mais fértil para o florescimento da responsabilidade: aquela antiga virtude que já não goza de prestígio nos manuais de cidadania, mas que segue sendo a chave de toda decência possível.

Sim, os tempos são difíceis. Mas desde quando a realidade foi fácil para quem escolheu viver com lucidez?

Desde quando a verdade foi popular?

Talvez 2026 nos chame a isso, vale dizer: a uma dignidade que não depende de resultados, mas de posturas. A um tipo de presença moral que age mesmo quando não espera aplauso, recompensa ou alívio.

Este novo ano, portanto, exigirá mais do que já sabemos ser o melhor: coragem sem espetáculo, bondade sem vaidade, pensamento sem coleira.

De todos os perigos que rondam 2026, talvez o mais insidioso seja o da anestesia: o hábito de aceitar o absurdo como rotina.

Por isso, não esperemos de 2026 milagres. Não acredito neles.

Mantenhamos os pés fincados no real, sem ceder à vertigem dos slogans, sem fugir para o refúgio das esperanças mágicas.

Como ensinava Epicteto, “não nos cabe controlar o mundo, mas sim os juízos que emitimos sobre ele”.

Que esses juízos, ao menos, permaneçam íntegros. Ao menos eles!

O ano de 2026 se anuncia como uma página em branco, mas essa metáfora é mentirosa.

Nenhuma página está em branco… há sempre os resíduos do ano anterior, as cinzas do que foi feito e os espectros do que não foi.

E nós, agentes históricos, não escrevemos com tinta mágica, mas com ações em meio à incerteza, com o peso da liberdade nas mãos.

Os gregos sabiam disso. Quando Aristóteles fala de práxis, de agir, ele não está falando de ativismo, mas de uma arte difícil: agir deliberadamente num mundo sem garantias, onde cada escolha implica o risco de falhar; e, ainda assim, é preciso escolher.

Não esperar. Agir. Práttein, em grego, é fazer em meio à incerteza. É decidir sob o véu do imprevisível. O novo ano será nosso campo de práxis, não de promessas. E isso basta.

Há de bastar!

Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia

X: prof_dennys

Instagram: prof.dennysxavier

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

Diários

Como as dívidas influenciam o voto

Duda Teixeira Visualizar

Trump atrela acordo com o Irã ao reconhecimento de Israel

Redação Crusoé Visualizar

Irã e EUA se aproximam de acordo, mas divergências persistem

José Inácio Pilar Visualizar

A reação da rede social ao marmitex de Zema

Redação Crusoé Visualizar

O desejo de Motta em relação à PEC do 6x1

Redação Crusoé Visualizar

PM da Bahia nega informações sobre capitão da PM amigo de Eduardo Bolsonaro

Redação Crusoé Visualizar

Mais Lidas

A alma é treinável

A alma é treinável

Visualizar notícia
A luta pela sobrevivência dos nanicos

A luta pela sobrevivência dos nanicos

Visualizar notícia
A universidade que trocou o ensino pela militância

A universidade que trocou o ensino pela militância

Visualizar notícia
As contradições de Flávio

As contradições de Flávio

Visualizar notícia
As duas memórias da Europa

As duas memórias da Europa

Visualizar notícia
Crusoé nº 421: O voto de chuteiras

Crusoé nº 421: O voto de chuteiras

Visualizar notícia
Diplomacia de coerção

Diplomacia de coerção

Visualizar notícia
Lula inventa uma nova categoria de vítima

Lula inventa uma nova categoria de vítima

Visualizar notícia
O desejo de Motta em relação à PEC do 6x1

O desejo de Motta em relação à PEC do 6x1

Visualizar notícia
O plano do Centrão

O plano do Centrão

Visualizar notícia

Tags relacionadas

futuro

previsão

< Notícia Anterior

A mentira de Lula às mulheres

26.12.2025 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
Próxima notícia >

Servidor público precisa de código de ética?

09.01.2026 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
author

Dennys Xavier

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (2)

Sandra Carvalho

2026-01-07 16:59:30

Nossa, isto é perfeito: "No Brasil, a violência subiu à tribuna, o crime fez escola e o arbítrio veste toga." Lamentável...


Clayton De Souza pontes

2026-01-04 21:16:51

A todo momento vemos essa incerteza se materializar e situações impensáveis, como a prisão do Maduro, aumentam ainda mais nosso leque de cenários. 2026 promete muitas emoções


Torne-se um assinante para comentar

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (2)

Sandra Carvalho

2026-01-07 16:59:30

Nossa, isto é perfeito: "No Brasil, a violência subiu à tribuna, o crime fez escola e o arbítrio veste toga." Lamentável...


Clayton De Souza pontes

2026-01-04 21:16:51

A todo momento vemos essa incerteza se materializar e situações impensáveis, como a prisão do Maduro, aumentam ainda mais nosso leque de cenários. 2026 promete muitas emoções



Notícias relacionadas

A alma é treinável

A alma é treinável

Dennys Xavier
22.05.2026 03:30 6 minutos de leitura
Visualizar notícia
As duas memórias da Europa

As duas memórias da Europa

Josias Teófilo
22.05.2026 03:30 4 minutos de leitura
Visualizar notícia
O conto de fadas tradwife

O conto de fadas tradwife

Izabela Patriota
22.05.2026 03:30 5 minutos de leitura
Visualizar notícia
Cannes: um espectro ronda os festivais

Cannes: um espectro ronda os festivais

Josias Teófilo
15.05.2026 10:09 3 minutos de leitura
Visualizar notícia

Variedades

Ver mais

Testes são iniciados e brasileiros terão que pagar para usar o WhatsApp

Testes são iniciados e brasileiros terão que pagar para usar o WhatsApp

Visualizar notícia
Em meio a surtos, saiba os vírus que mais preocupam a saúde dos brasileiros na atualidade

Em meio a surtos, saiba os vírus que mais preocupam a saúde dos brasileiros na atualidade

Visualizar notícia
Investigação aponta causa da morte de gado no Mato Grosso do Sul

Investigação aponta causa da morte de gado no Mato Grosso do Sul

Visualizar notícia
Quase 70 mil canetas emagrecedoras foram apreendidas em cidade brasileira

Quase 70 mil canetas emagrecedoras foram apreendidas em cidade brasileira

Visualizar notícia
China inicia missão espacial que ajudará a enviar humanos à Lua até 2030

China inicia missão espacial que ajudará a enviar humanos à Lua até 2030

Visualizar notícia
Mega-Sena sorteia maior premiação da história e duas apostas são vencedoras

Mega-Sena sorteia maior premiação da história e duas apostas são vencedoras

Visualizar notícia

Crusoé
o antagonista
Facebook Twitter Instagram

Acervo Edição diária Edição Semanal

Redação SP

Av Paulista, 777 4º andar cj 41
Bela Vista, São Paulo-SP
CEP: 01311-914

Acervo Edição diária

Edição Semanal

Facebook Twitter Instagram

Assine nossa newsletter

Inscreva-se e receba o conteúdo de Crusoé em primeira mão

Crusoé, 2026,
Todos os direitos reservados
Com inteligência e tecnologia:
Object1ve - Marketing Solution
Quem somos Princípios Editoriais Assine Política de privacidade Termos de uso