Crusoé
08.07.2026 Fazer Login Assinar
Crusoé
Crusoé
Fazer Login
  • Acervo
  • Edição diária
Edição Semanal
Pesquisar
crusoe

X

  • Olá! Fazer login
Pesquisar
  • Acervo
  • Edição diária
  • Edição Semanal
  • Entrevistas
  • O Caminho do Dinheiro
  • Ilha de Cultura
  • Leitura de Jogo
  • Poder
  • Colunistas
  • Assine já
    • Princípios editoriais
    • Central de ajuda ao assinante
    • Política de privacidade
    • Termos de uso
    • Política de Cookies
    • Código de conduta
    • Política de compliance
    • Baixe o APP Crusoé
E siga a Crusoé nas redes
Facebook Twitter Instagram
Edição Semana 372

Dom Quixote contra mísseis e drones

Embora julgasse o soldado superior ao intelectual, a criatura de Cervantes dificilmente aceitaria a guerra moderna

avatar
Jerônimo Teixeira
6 minutos de leitura 20.06.2025 03:30 comentários 3
Dom Quixote contra mísseis e drones
Ilustração feita com IA
  • Whastapp
  • Facebook
  • Twitter
  • COMPARTILHAR

Donald Trump montou uma parada militar em Washington bem na data de seu aniversário. No dia anterior, Israel havia dado início à guerra aérea com o Irã.

Essa junção aleatória de exibições bélicas me botou a pensar no espanhol que em 1571 perdeu a mão esquerda em uma batalha naval contra os otomanos, nas proximidades da cidade grega de Lepanto. 

Não foram atos de bravura que perpetuaram seu nome: Miguel de Cervantes conquistou seu lugar na biblioteca dos séculos com Dom Quixote, publicado em duas partes, em 1605 e 1615. 

Desejo lembrar uma passagem desse clássico absoluto: o “discurso sobre as armas e as letras” proferido pelo protagonista em uma estalagem – que, em seu perpétuo delírio, ele toma por um castelo.  

O Cavaleiro da Triste Figura aborda um tópico muito discutido ao tempo de Cervantes: quem teria mais valor – o homem de letras ou o homem de armas?

Dom Quixote dá a palma para o homem de armas.

Em que se explica as razões da superioridade do soldado

O discurso de Quixote é longo. Começa no final do capítulo 37 do primeiro livro e se estende pelo capítulo seguinte.

Enlevado com a própria oratória, o cavaleiro até se esquece de comer, para desespero de seu escudeiro Sancho Pança, sempre atento às necessidades comezinhas impostas pelo mundo real.

O discurso reconhece vários méritos no ofício das letras. Na comparação ponto a ponto, porém, o guerreiro vence sempre.

Quixote observa, por exemplo, que muitos estudantes de seu tempo levam uma vida de fome, ou, com sorte, vivem “da sopa alheia”. No entanto, as agruras e privações do soldado são ainda maiores. 

“Dizei-me, meus senhores”, questiona Quixote, dirigindo-se a seus companheiros de taverna, “não são os premiados e gananciosos na guerra muito menos do que os que morreram nela?”.

O argumento mais poderoso é aquele que diz respeito à finalidade das obras do intelectual e do guerreiro. De novo, Quixote exalta a importância das letras, que zelam para “dar a cada um o que é seu” e para fazer com que as “boas leis” se cumpram.  

As armas, porém, garantem a condição necessária à atividade dos letrados: a paz. 

A finalidade da guerra é a paz, afirma Dom Quixote.

Em que se ousa duvidar da ideia de paz do cavaleiro da Mancha

A criatura de Cervantes não se demora sobre a aparente contradição de sua afirmativa, e nem os companheiros de mesa levantam qualquer objeção.

Ao contrário, o narrador informa que todos na taverna se admiraram com a inteligência do discurso.  A surpresa foi grande, pois Dom Quixote até ali só impressionara pela sandice de sua fé na cavalaria andante.

A apologia da guerra hoje dificilmente passará batida em uma mesa de bar (já quase não temos tavernas...). Para o bem e para o mal, passamos por décadas de protestos antibélicos que seriam inconcebíveis ao tempo de Cervantes.

Muito da conversa atual sobre paz, no entanto, carrega contradições mais fundas que o discurso do fidalgo da Mancha.

Temos por aí pacifistas que aceitam atrocidades quando cometidas em nome da “resistência”, palavra-fetiche dos falsos pacifistas. 

Também há aqueles que defendem veladamente a capitulação ao agressor, como se viver sob a bota de uma potência invasora fosse uma paz aceitável. 

Não é esse o sentido do “discurso sobre as armas e as letras”. Quixote não reconheceria uma guerra sem honra, nem uma paz sem dignidade.

Em que se especula sobre diferenças entre autor e personagem

Não há como saber se Cervantes acreditava, como seu personagem, que as armas excedem as letras. Sob o discurso da criatura, porém, é possível identificar uma mágoa muito pessoal do criador.

Depois de se recuperar do tiro de arcabuz que inutilizou sua mão em Lepanto, Cervantes tentou retornar à Espanha, mas foi capturado por piratas no Mediterrâneo. Passou cinco anos como cativo, em Argel. 

De volta a seu país, nunca foi devidamente reconhecido ou compensado por seus serviços. 

Na desanimada parada militar que Donald Trump promoveu no seu aniversário, um grupo de soldados desfilou – em passo normal, sem marchar – ao som de Fortunate Son, da banda Creedence Clearwater Revival, uma canção de protesto contra a guerra do Vietnã. 

Composta por John Fogerty, que serviu no Vietnã em serviços administrativos (não entrou em combate), a música dá voz a um recruta pobre, que não tem meios de fugir ao serviço militar, como fazem o filho do senador e o filho do milionário.

Cervantes talvez compreendesse o sentimento (ou ressentimento) de Fortunate Son. Dom Quixote, não. 

Em que Quixote tenta compreender a guerra moderna

A certa altura do discurso, Dom Quixote, herói destrambelhado cujas aventuras são sobretudo terrestres, se põe a discorrer sobre uma refrega entre “duas galeras que mutuamente se investem no largo e espaçoso mar”. 

Está descrevendo a Batalha de Lepanto. 

Ele lamenta a fúria dos canhões que mandam bravos soldados para “os abismos profundos de Netuno”. Venturosos foram os séculos, diz Quixote, nos quais essas armas não existiam. O inventor desses “endemoninhados instrumentos de artilharia” deve estar no inferno, acrescenta.

Os tais instrumentos do demônio se sofisticaram muito desde então. Um homem do século 17 – tanto faz se sensato como era Cervantes ou delirante como é seu imortal personagem – não reconheceria a guerra tal como ela estoura hoje nos céus de Kiev, Teerã ou Tel-Aviv.  

No capítulo oito do primeiro livro, Dom Quixote ensina a Sancho que “as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças”.

Este mesmo capítulo narra o episódio mais conhecido das desventuras do último cavaleiro andante: sua investida contra moinhos de vento, que ele toma por ameaçadores gigantes. 

Imagino sua triste figura cavalgando o esquálido Roncinante pelas ruas de uma cidade bombardeada, seguindo o rastro dos monstros de fogo que caem do firmamento.  

Jerônimo Teixeira é jornalista e escritor

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e o Antagonista

Diários

Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X

Redação Crusoé Visualizar

Nikolas critica Lula por deixar o Brasil de fora das negociações com EUA

Redação Crusoé Visualizar

Espriella suspende transição e acusa Petro de planejar golpe na Colômbia

Redação Crusoé Visualizar

Datafolha indica Salles à frente de candidato de Eduardo ao Senado

Redação Crusoé Visualizar

Deputados de esquerda apanham nas redes sociais

Redação Crusoé Visualizar

Flávio vai para Washington enquanto Lula não tem pressa

Duda Teixeira Visualizar

Mais Lidas

A aposta contra a CazéTV e o custo da resistência à inovação

A aposta contra a CazéTV e o custo da resistência à inovação

Visualizar notícia
A resposta dos produtores de etanol brasileiros aos EUA

A resposta dos produtores de etanol brasileiros aos EUA

Visualizar notícia
Atropelada

Atropelada

Visualizar notícia
Confusão de Trump com Fifa pode acabar no tapetão?

Confusão de Trump com Fifa pode acabar no tapetão?

Visualizar notícia
Datafolha indica Salles à frente de candidato de Eduardo ao Senado

Datafolha indica Salles à frente de candidato de Eduardo ao Senado

Visualizar notícia
Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil

Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil

Visualizar notícia
Deputados de esquerda apanham nas redes sociais

Deputados de esquerda apanham nas redes sociais

Visualizar notícia
Espriella suspende transição e acusa Petro de planejar golpe na Colômbia

Espriella suspende transição e acusa Petro de planejar golpe na Colômbia

Visualizar notícia
Flávio vai para Washington enquanto Lula não tem pressa

Flávio vai para Washington enquanto Lula não tem pressa

Visualizar notícia
FPF defende Raphael Claus após "insinuações"

FPF defende Raphael Claus após "insinuações"

Visualizar notícia

Tags relacionadas

Israel

Miguel de Cervantes

república islâmica do Irã

< Notícia Anterior

Presidente da Câmara não é primeiro-ministro

13.06.2025 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
Próxima notícia >

Contra a ameaça nuclear

27.06.2025 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
author

Jerônimo Teixeira

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (3)

Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-06-25 07:34:50

Dom Quixote é uma excelente obra, de fato.


RICARDO PISANI

2025-06-22 06:55:28

Excelente texto. Nada co


Albino

2025-06-20 08:29:30

Excelente digressão!!!


Torne-se um assinante para comentar

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (3)

Carlos Renato Cardoso Da Costa

2025-06-25 07:34:50

Dom Quixote é uma excelente obra, de fato.


RICARDO PISANI

2025-06-22 06:55:28

Excelente texto. Nada co


Albino

2025-06-20 08:29:30

Excelente digressão!!!



Notícias relacionadas

Por que a história não aceita reparações?

Por que a história não aceita reparações?

Dennys Xavier
03.07.2026 03:30 9 minutos de leitura
Visualizar notícia
A revolução silenciosa do Paraguai

A revolução silenciosa do Paraguai

Márcio Coimbra
03.07.2026 03:30 5 minutos de leitura
Visualizar notícia
Vítimas do chavismo

Vítimas do chavismo

João Pedro Farah
03.07.2026 03:30 5 minutos de leitura
Visualizar notícia
Rebelião no bolsonarismo

Rebelião no bolsonarismo

Leonardo Barreto
03.07.2026 03:30 4 minutos de leitura
Visualizar notícia

Variedades

Ver mais

Milhões de trabalhadores devem receber depósito extra do FGTS a partir de agosto

Milhões de trabalhadores devem receber depósito extra do FGTS a partir de agosto

Visualizar notícia
Suspeita de furtar bilhete premiado da Mega-Sena está sem o prêmio e sem trabalhar há três anos

Suspeita de furtar bilhete premiado da Mega-Sena está sem o prêmio e sem trabalhar há três anos

Visualizar notícia
Jovens brasileiros têm acesso gratuito a atendimento para saúde mental; entenda como funciona

Jovens brasileiros têm acesso gratuito a atendimento para saúde mental; entenda como funciona

Visualizar notícia
Multinacionais americanas ficam ao lado do Brasil em disputa com o Governo dos EUA

Multinacionais americanas ficam ao lado do Brasil em disputa com o Governo dos EUA

Visualizar notícia
Gigante da tecnologia mantém “tradição” e anuncia demissão de quase 5 mil funcionários

Gigante da tecnologia mantém “tradição” e anuncia demissão de quase 5 mil funcionários

Visualizar notícia
Motoristas vão continuar pagando taxa de licenciamento após decisão do Governo

Motoristas vão continuar pagando taxa de licenciamento após decisão do Governo

Visualizar notícia

Crusoé
o antagonista
Facebook Twitter Instagram

Acervo Edição diária Edição Semanal

Redação SP

Av Paulista, 777 4º andar cj 41
Bela Vista, São Paulo-SP
CEP: 01311-914

Acervo Edição diária

Edição Semanal

Facebook Twitter Instagram

Assine nossa newsletter

Inscreva-se e receba o conteúdo de Crusoé em primeira mão

Crusoé, 2026,
Todos os direitos reservados
Com inteligência e tecnologia:
Object1ve - Marketing Solution
Quem somos Princípios Editoriais Assine Política de privacidade Termos de uso