MarioSabino

Não seja uma zebra

07.02.20

A minha carreira jornalística começou como resenhista de livros, em 1984. Há 36 anos, jornais e revistas dedicavam muitas páginas por semana a resumos críticos de livros, e foi numa delas que apareceu pela primeira vez o meu nome na grande imprensa. Assinei na Folha de S.Paulo uma resenha de Desidéria (La Vita Interiore, no original), romance do italiano Alberto Moravia que conta a história de uma moça com vocação terrorista que tenta preencher o seu vazio existencial com perversões sexuais. Apesar de eu ter usado o clichê “uma narrativa repleta de fina ironia e beleza” (aparentemente, ninguém percebeu), gostaram, deram-me outros livros para resenhar e logo fui contratado para editar a seção literária do jornal. Uma temeridade, acho que já disse isso. Tinha 22 anos, estava no último ano da faculdade e não fazia ideia de como funcionava uma redação — faculdades de jornalismo nunca ensinaram nada. Ao fim e ao cabo, entre erros e acertos, acho que consegui dar conta do recado. Aprendi com Nicolau Sevcenko, o melhor colaborador, e consegui não desaprender com Emir Sader, cujas resenhas eu me obrigava a reescrever. Quanto a Antônio Houaiss, só era preciso achar os sujeitos das frases, a fim de me certificar que eles estavam mesmo lá, e abrir parágrafos. É mais fácil quando há ideias nos parágrafos, o que nem sempre era o caso.

Alberto Moravia escreveu dezenas de livros. Consta que quase levou o Nobel de Literatura de 1958. O ganhador foi o russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, romance que saiu pela primeira vez na Itália, uma vez que Boris Pasternak era autor proibido na então União Soviética. Dizem que a CIA patrocinou a saída dos originais de Doutor Jivago da União Soviética para a Itália, como forma de fazer propaganda contra o comunismo censor. Se for mesmo verdade, a CIA é também uma ótima crítica literária. De qualquer forma, poderiam ter conferido o Nobel de 1959 ou dos anos subsequentes ao escritor italiano. Não aconteceu. Espero que a CIA não tenha vetado o nome de Alberto Moravia. Não haveria razão. Grande amigo do cineasta Pier Paolo Pasolini, considerado subversivo, e eleito deputado no Parlamento Europeu como candidato independente numa lista do Partido Comunista, ainda assim Alberto Moravia se manteve como autor a uma distância segura das ideologias. O deserto moral e político à direita e à esquerda era o seu assunto. “Agora o revolucionário que vem inteiramente do povo, na sua pureza unívoca, equivale ao reacionário que vem inteiramente da aristrocracia”, disse certa vez.

Ele morreu em 1990, com quase 83 anos. Foi mais ou menos por aí que desisti de ler o restante da sua obra caudalosa. Desisti como quem deixa de ver um amigo porque os horários nunca mais bateram. Na semana passada, porém, peguei um livro de Moravia para reler: L’Amore Coniugale (O Amor Conjugal). Devorei a história de um burguês que descobre a verdade do amor ao descobrir que a mulher o traiu com um barbeiro. Neste momento, estou relendo Il Conformista (O Conformista), adaptado para o cinema por Bernardo Bertolucci. O protagonista, Marcello Clerici, quer conformar-se (no sentido de amoldar-se) à sociedade do seu tempo, ser apenas um homem como qualquer outro — e, para tanto, mantém um casamento com uma mulher prosaica e filia-se ao Partido Fascista (o pano de fundo é a Itália de Mussolini), com todas as consequências que isso acarreta. Deserto moral e político. Depois de reler o livro, vou reassistir ao filme de Bertolucci, se é que existe em DVD. Será também um prazer rever Dominique Sanda no auge da sua beleza.

Estou lendo ao mesmo tempo uma coletânea de ensaios, artigos e entrevistas de Alberto Moravia, intitulado Impegno Controvoglia (Engajamento de má vontade). Numa entrevista que deu quando completou 70 anos, em meio ao alastramento da praga terrorista na Itália, o escritor disse o seguinte:

“Um aspecto une todos os terrorismos: a ideia que o medo possa tornar-se um sentimento normal no homem — ou seja, possa coexistir com a confiança que está na base de toda sociedade humana. Em outras palavras, seja compatível com tudo aquilo que faz de um homem um homem. Ora, nós sabemos que não é assim. Na realidade, o medo, no homem, é a exceção, não a regra. Nos animais ditos selvagens, ao contrário, o medo é a normalidade, tanto é verdade que pode coexistir com um sentimento normalíssimo como o amor; as zebras se acasalam a dois passos do leão que as espia; no entanto, o homem aterrorizado perde todo o gosto pela vida. Os animais selvagens vivem tranquilamente a vida deles no medo, são inconscientes de ter medo, a tal ponto que o medo faz parte do seu modo de existir; já o homem que sabe ter medo suspende toda a relação com o real e vive aterrorizado no terror. O terrorismo é, assim, um modo violento de suspender, por todo o tempo que dura o medo, a humanidade do homem. Ou de obrigá-lo a habituar-se ao medo como os animais selvagens, fazendo com que o medo se torne um elemento constitutivo da sua própria alma.”

Quem se comporta como zebra contribui para transformar a savana em deserto — deserto moral e político. É tudo o que querem os terroristas que tentam nos conformar a eles próprios. Não seja uma zebra.

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  1. Somos descendentes dos antropoides que ao ouvirem algum ruido na floresta fugiram e não dos que foram ver do que se tratava e foram presas dos predadores. Temos o medo em nossos genes. Por isso estimo que 98% dos humanos vivem governados pelo medo sem o saber e não acessando à humanidade possível. Quantas pessoas tem a coragem de viver sem fazer seguro de vida ou plano de saúde?

  2. Quem critica, não necessariamente é petista ou quer destruir o gorverno, críticas devereriam servir para repensar decisões ou atitudes e não serem levadas como pessoal...a política brasileira virou um clássico de futebol brasileiro, uma briga de torcidas por times de "pernas de pau"

    1. Temos que lembrar que não é luta do bem x o mal. A maioria absoluta quer o mesmo, viver em uma sociedade sem corrupção, com mais oportunidades para todos e respeito. Vida digna em sociedade. Apenas discordamos sobre os caminhos a trilhar para chegarmos lá. Temos que cobrar dos nossos representantes e criticar os erros, para que possam se aperfeiçoar. E sermos construtivos e nos respeitarmos, para podermos exigir o mesmo dos políticos de todas as ideologias.

  3. Sabino, Crusoé é literalmente uma ilha, uma ilha de inteligência, sensatez e liberdade...me sinto indignado com os fãs de Bolsonaro que criticaram tanto os petistas reacionários e agora não admitem críticas ao governo atual...político não pode ter fã clube

    1. Eu sabia era lorota, mas era preciso tirar os que "fazem o diabo para ganhar uma eleição". Incluindo terrorismo sobre o bolsa família, na propaganda eleitoral. O medo também dá voto.

  4. O texto está abstrato para mim mas pensei: Nós, brasileiros, convivemos com 60.000 assassinatos ao ano.( por aí), né? Apesar da sensação de insegurança temos que tocar o barco em frente e engolir o medo. Felizmente, nesse sentido, há melhora nas estatísticas.

  5. Fiquei pensando sobre o medo como conselheiro. Ele muitas vezes induz as pessoas ao erro. Ou até à vingança. O povo, quase sempre sem voz, quando encontra uma brecha, se vinga! Nesse caminho, chego à conclusão que a eleição de Bolsonaro não foi uma escolha, foi uma vingança contra o "terrorismo" petista. Já que nos aterrorizam, vamos tratar de também aterroriza-los. Será que viajei? Ou nao?

    1. Já pensou se o Tiririca tivesse levado? Estaríamos mais ou menos na mesma.... situação.

    2. Eu votei no Bolsonaro por que era a opção contra o PT, mas se o opositor fosse o Tiririca, o Zé da Silva, qualquer um... eu votaria. Só não votaria, como nunca votei, no PT.

    1. Os medos são múltiplos,medo da volta da esquerda,medo dos assaltos e medo da impotência diante dos fatos... Porém nada disso deve nos vendar e as perguntas são muitas e o não conformismo ainda mais

  6. Gostaria de um dia ler algum comentário sobre as semelhanças do livro O Nome da Rosa de Umberto Eco e o Código da Vinci de Dan Brown pois nada me tira da cabeça que o segundo plagiou o primeiro

    1. A diferença entre Umberto Eco e Dan Brown é mais ou menos como a diferença entre o Ruy Barbosa e o José Eduardo Cardozo, sem o mau caratismo do segundo. (minha opinião, claro)

  7. Que desespero NARCISISTA em querer parecer intelectual. Minha lista de leitura é bem melhor que a sua. Deixe de ser chato, ninguém liga para sua vaidade e sua biblioteca. A gente paga para vocês descobrirem as falcatruas de Brasília, só isso.

    1. Que inveja em Marcos? Pode até ser que você leia melhores livros. Mas duvido que escreva melhores textos.

    2. Mande a sua lista, Marcos, tenho certeza de que será proveitosa para mim e os leitores. Obrigado. Abs.

    1. A modéstia é a menor das minhas grandes qualidades... Brincadeira, Márcia, obrigado pela leitura. Abs.

  8. Não vou elogiar mais, já que me repito toda semana. "faculdades de jornalismo nunca ensinaram nada..." essa frase lava minh'alma". Escrevi em muitos jornais, tive artigos publicados na Itália, Espanha, Portugal, Miami, e, acho que meu grande orgulho, um dos jornais que escrevi, já na era eletrônica, no final do ano, selecionava as 50 melhores crônicas do ano, e as deixava acessível aos leitores. Num determinado ano tinha 28 entre as 50! Dirigi e editei alguns jornais. Mas nunca fiz faculdade de

  9. Muito bom ! Mário, estou muito feliz em ser assinante da Crusoé, vou procurar ler, Alberto Moravia e assistir o filme. E procurar não ser uma zebra. Apesar de vivermos em tempos bastantes sombrios .

  10. Que texto! Alguns parágrafos voltei e reli. Sabino vez e sempre ( rsrs) dá nó na minha básica inteligência deficiente. Parabéns!

  11. Entristece constatar que, apesar do medo que certas instituições democráticas atualmente provocam, poucas são as zebras que oferecem resistência a esse terrorismo

  12. O arremate sobre transformar a savana em deserto, ao comportamo-nos como zebras, com a excitação imprudente diante do predador, é de uma clareza de cegar tuaregue!

  13. A grande ameaça vem com o desmantelamento do ordenamento jurídico do Estado Democrático baseado no império da lei. O privilégio do uso do monopólio da violência do Estado como instrumento de usurpação do poder é o verdadeiro terrorismo. A primeira vítima é a verdade, pois tem sido tolhida com a intimidação da imprensa, com a exceção da Crusoé Antagonista.

    1. Quantos milagres sem santo acontecerão até haver uma reação institucional ???

  14. O texto é uma raio-x da mente européia perdida em seu relativismo cultural, que vê com desdém os valores ocidentais e que é incapaz de identificar as reais ameaças à liberdade humana. Enquanto as zebras estão preocupadas em distanciar-se dos extremos achando-se sábias por isso, o imperialismo do leste observa pacientemente (e deve até rir dessa ingenuidade), confiante de que as zebras não notaram sua presença e segue calmamente para o bote fatal.

  15. O ecoterror meioambiental é irmão do "politicamente correto" - PC e ambos primos do PCC. O povo tem pavor do primeiro, medo do segundo e receio do último. rs

  16. Essa fala de Alberto Moravia sobre o terror se aplica muito bem a uma nova forma sutil de terror: o politicamente correto. Muita gente vive oprimida (aterrorizada) pela patrulha do P.C., talvez seja por isso que começaram a surgir os Trumps e os Bolsonaros como uma reação a esta distorção da realidade.

  17. Muito bom. Os nossos terroristas têm nome e endereço: políticos e magistrados aboletados na Praça dos Três Poderes. Nossas zebras são percebidas em muitos comentários.

  18. Seu não Mário, mas com esse congresso, com esse STF e com alguns elementos do governo, eu estou tendendo a ter sempre medo. Nunca se sabe qual nova cagada vai surgir, que novo bandido vai ser solto ou não vai ser preso e que novos custos vai nos impor. Morro de medo 😜

    1. Viver sem medo, impossível. Tds viemos ao mundo inocentes e normalmente sem medo. Lá pelos 07 anos, começamos a temer os semelhantes : pais irmãos religiosos professores colegas e outros qdo iniciamos nossa Liberdade, kem nos acolhe e não nos transmitem medos são os avós. Só a experiência nos protege do medo e qdo ficamos idosos temos medo da doença e morte. Assim é o medo, nosso eterno medo.

  19. Achei a introdução muito interessante, mas a conclusão, absurda! Transfere às vítimas dos terroristas a culpa por sentirem medo. Concordo que tenhamos que lutar contra sermos zebras, mas isso não se dá evitando o medo dos terroristas, mas matando os terroristas! Daqui a pouco vão começar a dizer que, além de sermos proibidos de reagir quando assaltados, também não poderemos sentir medo. Se alguém tem por propósito não te deixar viver em paz, essa pessoa tem que ser eliminada.

  20. Mario vc esta no bloco do SÓ DÁ EU. Apesar de respeitar sua carreira, narcizismo nao te cai bem. Pare de de se jogar confete. A mm msg, otima por sinal, poderia ser dada sem autopromoçao.

  21. Ótimo artigo, muito apropriado, principalmente a parcela dos leitores da revista que parecem querer pressioná-la a se tornar porta-voz de político através de terrorismo psicológico do tipo "vou cancelar minha assinatura". O fatalismo que propagam nos debates políticos e morais é ridículo, como se só houvessem duas alternativas, uma delas demoníaca, portanto não restando às "pessoas de bem" outra alternativa a não ser apoiar incondicionalmente o lado oposto. Terrorismo puro.

    1. Pensei a mesma coisa. Muita gente tentando, através do discurso do medo, medo do PT, da Venezuela; nos enfiar pela garganta um governo equivocado na maior parte de suas políticas.

  22. Falando em terror e savana, o nosso símbolo do cobrador de impostos é o Leão da Receita, que nos aterroriza. Os hábitos dos Leões e da Receita Federal são semelhantes.

  23. Parabéns, Mário Sabino, por este artigo inspirador e raro nas páginas das revistas atuais! Seus 36 anos de jornalismo devem ser celebrados com muito orgulho! Lembrar de Morávia e trazer alguns trechos de sua obra é um presente que você oferece a seus leitores, nestes tempos de medo e desumanidade. Sigamos com coragem e boa vontade: é na labuta diária e no enfrentamento das dificuldades que crescemos. É na (re)leitura dos grandes jornalistas e escritores que nos inspiramos e nos fortalecemos.

    1. Se o Documentário ganhar o Oscar, vou me sentir uma Zebra. E , não sei como reagir ?!

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