Reprodução/ слуги народуO personagem de Vladimir Zelensky pode ser tornar real

O comediante favorito

Sem fazer grandes promessas ou inclinar-se por qualquer ideologia, o ator Vladimir Zelensky está à frente na corrida para ser próximo presidente da Ucrânia, que ainda sofre com a invasão russa de cinco anos atrás
05.04.19

O ator Vladimir Zelensky obteve 30% dos votos no primeiro turno das eleições da Ucrânia, quase o dobro do segundo colocado, o atual presidente do país, Petro Poroshenko, que ficou com 16%. Com boas chances de atrair a preferência dos demais eleitores que escolheram outros 37 candidatos na votação do último domingo, 31, Zelensky é favorito para vencer o turno final, marcado para o dia 21 de abril. Se acabar eleito, seu desafio será enorme. Zelensky, de 41 anos, não tem experiência em política, não fez promessas, não tem ideologia e seu partido foi criado há apenas um ano. A Ucrânia, por sua vez, ainda sofre com as consequências da invasão russa há cinco anos, que culminou com a anexação da península da Crimeia e com uma guerra no leste do país. Cerca de 13 mil pessoas morreram no conflito, 28 mil ficaram feridas e 1 milhão deixaram o país, que precisou contrair um empréstimo de 4 bilhões de dólares com o FMI para tentar aquecer a economia.

Desvendar as posições de Zelensky — estrela da série televisiva Servos do Povo, em que interpreta um professor que, quase por acidente, alcança o cargo de presidente do país — é uma missão árdua até para os especialistas no assunto. “É muito difícil falar sobre quais são suas visões. Em alguns momentos, Zelensky só quer fazer graça. Em outros, ele busca o consenso e evita posições claras que possam lhe tirar votos”, diz o sociólogo Vladimir Ishchenko, pesquisador no Instituto Politécnico de Kiev. A forma mais usada para tentar decifrar o candidato tem sido assistir a Servos do Povo. Esse é o nome do partido de Zelensky, que ele criou com ajuda de um advogado do canal de televisão. “Muitas pessoas confundem o personagem com o político, o que até tem ajudado a compreendê-lo”, diz Ishchenko.

Na série de televisão, Zelensky interpreta um professor de História que faz um discurso na sala de aula contra a corrupção. Um dos alunos filma a cena com o celular e divulga o vídeo na internet. O filme traz popularidade ao professor, que acaba se tornando presidente. Mas o roteiro tem muito mais peripécias. Elas são tantas que, se o programa for uma pista para entender como seria um governo de Zelensky, há motivos de sobra para preocupação. O ator, assim como a maior parte dos que entram em cena, fala russo, e não ucraniano. O personagem central corta as relações com o FMI, perde uma eleição fraudulenta, sofre um golpe de estado e é preso. Ao final, vê o país ser dividido em trinta reinos menores. Mais perturbador ainda: não há qualquer menção à ocupação de territórios no leste por soldados russos, nem à anexação da península da Crimeia, em 2014.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisZelensky no papel de um professor de História na série Servos do Povo
Zelensky, é verdade, já pontuou algumas diferenças entre o homem e o personagem. Ele avisou, por exemplo, que não pretende cortar os vínculos com o FMI. Em relação à Rússia, disse que será pragmático e falará pessoalmente com Vladimir Putin, algo que o atual presidente também fez para resolver pendências menores, embora os atritos na fronteira continuem a ocorrer. “Zelensky com certeza não é anti-Rússia. Ele não vê o presidente Vladimir Putin como um agressor que deve ser combatido por todos os meios. Ao mesmo tempo, ele é pró-Ocidente e entende que a Ucrânia deve seguir o caminho da Europa para alcançar um melhor padrão de vida”, diz o cientista político Vladmir Kulyk, do Instituto de Estudos Políticos e Étnicos da Ucrânia (a profusão do nome Vladimir nesta matéria não é fortuita. No século X, o rei Vladmir I batizou o reino de Kiev e instituiu o cristianismo como religião oficial. Depois, virou santo. O nome é um dos mais populares no país e também na Rússia de Putin).

Sem colocar-se claramente contra ou a favor de quem quer que seja, Zelensky conseguiu penetrar as barreiras ideológicas, nacionalistas e étnicas que normalmente conduzem os votos na Ucrânia. Ele prometeu até mesmo que, se eleito, fará uma consulta popular para saber quais são os assuntos mais importantes para os cidadãos. Depois disso, afirmou que realizará outro plebiscito sobre como lidar com eles. Pode parecer piada, mas funcionou. No primeiro turno, ele foi bem votado em praticamente todo o país.

Reprodução/TwitterReprodução/TwitterO atual presidente, Petro Poroshenko, vota no primeiro turno
Ao evitar um confronto direto com Putin – como faz o atual presidente –, Zelensky conseguiu ser popular no leste do país, mais próximo da Rússia. Ao elogiar o Ocidente, ele angariou apoio no oeste entre aqueles que acham que as reformas liberais do atual governo estão indo muito devagar ou estão sendo sabotadas por oligarcas corruptos. “No passado, os candidatos contavam com um apoio expressivo em uma ou duas regiões do país, mas Zelensky saiu-se bem em todas elas”, diz o cientista político americano Paul D’anieri, especialista em Ucrânia na Universidade da Califórnia. “Seus eleitores, principalmente os mais jovens, compartilham a sensação de que uma mudança dramática é necessária, ainda que tenha de ser conduzida por alguém não testado e sem ideias claras”, diz D’anieri.

Na quinta-feira, 4, Zelensky aceitou o convite feito por Poroshenko, o atual presidente, para participar de um debate. Em um vídeo publicado na internet, ele exigiu que o evento acontecesse em um estádio esportivo para 70 mil pessoas e que os dois candidatos passassem antes por um teste para detectar drogas e álcool no corpo. Uma cantora de ópera, Kamaliya Zahoor, ofereceu-se para interpretar o hino nacional no estádio. Mesmo sem propostas claras, Zelensky é entretenimento garantido, mesmo num país com 7% do território ocupado pela Rússia.

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    1. mais um vermelho desinformado. viva Putin, Lula e maduro.

  1. Boa Sorte!!! Para o sofrido e nobre povo ucraniano!!! Tomara que este “comediante”, uma vez eleito como Presidente daquela nação, assuma de corpo, alma e “comportamento”, o papel de um Presidente que é, exatamente, trabalhar duro, firme, honesta e muito seriamente, para levar a todos os lares de se país, progresso econômico, segurança, saúde, educação, paz e ALEGRIA. Né?

    1. * de ’seu’ país (mas... qualquer semelhança é mera coincidência)

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