ReproduçãoApoiador do Alternativa para Alemanha: partido agora se concentra na antiga Alemanha Oriental

Extremos rejeitados

Nas eleições da Alemanha, a população preferiu os políticos tradicionais e com experiência aos partidos populistas e com bandeiras ideológicas
01.10.21

As negociações para a formação de uma nova coalizão de governo na Alemanha deverão se arrastar por semanas ou meses. Ao final, elas serão formalizadas em um tratado de mais de 100 páginas, que selará a saída de Angela Merkel. Após 16 anos no poder, a chanceler do partido União Democrata Cristã, o CDU, de centro-direita, provavelmente será substituída por Olaf Scholz, o líder do Partido Social-Democrata, SPD, de centro-esquerda, vencedor da eleição do domingo, 26. Scholz já disse que pretende se unir com o Partido Verde e com os liberais para formar um novo governo, mas outras combinações são possíveis.

Apesar de as possibilidades permanecerem abertas, a futura composição do Parlamento, o Bundestag, já indica tendências ao consolidar sentimentos compartilhados também por eleitores de outros países. Com novos temas ganhando peso no noticiário do pós-pandemia, os alemães buscaram políticos pragmáticos e com experiência em resolver problemas. Ao fazer isso, muitos abandonaram os partidos populistas radicais.

Os dois partidos radicais que perderam força são o de extrema-esquerda Die Linke e o de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, o AfD. O Die Linke, fundado em 2007, abriga comunistas nostálgicos em relação à Alemanha Oriental, rejeita o capitalismo e defende a saída da Alemanha da Organização do Tratado Atlântico Norte, a Otan, e sua substituição por um pacto com a Rússia de Vladimir Putin. Em 2017, o Die Linke teve 9,2% dos votos. Neste ano caiu para 4,9%, o que é abaixo do patamar mínimo para entrar no Parlamento. O Die Linke só terá direito a estar no Bundestag porque venceu em três distritos. A outra agremiação extremista que perdeu espaço, o AfD, caiu de 12,6% para 10,3% dos votos. Com isso, o AfD passou de terceiro maior partido para o quinto lugar.

ReproduçãoReproduçãoMerkel: depois de 16 anos, ela cederá o cargo de chanceler
Um dos aprendizados que se pode tirar dessa eleição é que o Die Linke e o AfD serão apenas partidos de protesto. Eles não são compostos por membros com ideias em comum e um programa de governo. Apenas são agregações que empunham bandeiras do momento para conquistar os eleitores que não se viram representados nos partidos tradicionais”, diz o cientista político alemão Thomas Pluemper, professor da Universidade de Economia e Negócios em Viena, na Áustria, que estuda os partidos políticos na Alemanha. “Ao votar em um partido de protesto, o eleitor não imagina que um dia ele será governo. Apenas quer externalizar sua frustração com a política.”

O Die Linke e o AfD receberam mais votos na antiga Alemanha Oriental, onde existe um ressentimento em relação ao resto do país, mais rico e desenvolvido. Nas cidades da Alemanha Oriental, as duas siglas radicais apresentam-se como as vozes do “leste prejudicado”. Nos anos 1990, essa narrativa rendeu votos aos grupos de esquerda. Nos últimos anos, muitos dos seus eleitores migraram para o Alternativa para a Alemanha, indiferentes à acrobacia ideológica. Foi isso que levou o partido de extrema-direita a vencer as últimas eleições em dois estados, a Saxônia e a Turíngia, com 24% dos votos em cada um. No restante do país, contudo, o AfD perdeu espaço.

À procura de slogans capazes de mobilizar o eleitorado, o Alternativa para a Alemanha colecionou mais erros que acertos. Quando foi fundado, em 2013, sua bandeira era atacar o socorro financeiro à Grécia, que integra a zona do euro. Quando o assunto saiu do radar, o partido ficou sem palanque. Em 2015, a entrada na União Europeia de 1 milhão de refugiados sírios e de outras nacionalidades deu à sigla a sua principal razão de existir. O AfD, então, passou a criticar os imigrantes e a pedir a saída da chanceler Angela Merkel, para quem a Europa tinha uma obrigação moral em recebê-los. Só que o sucesso do país em receber centenas de milhares de pessoas nos anos seguintes e a queda no fluxo fez com que a imigração perdesse relevância e passasse a ser uma prioridade apenas para 20% da população. Isso exigiu que o partido, em março de 2020, começo da pandemia, abraçasse outra causa: passou a exigir do governo fortes medidas para conter o vírus. Durou pouco. Ao ver que um movimento chamado Querdenken ganhava visibilidade pedindo o fim dos lockdowns, o AfD deu outro cavalo de pau e se juntou aos manifestantes nas ruas. A guinada, porém, afastou seguidores. “Enquanto a posição anti-imigração unificava o partido, isso não aconteceu com a questão sanitária. Alguns são contra o lockdown e contra a vacinação, mas outros preferiram se imunizar”, diz a cientista política alemã Anne Kuppers, da Universidade de Jena, na Turíngia.

Reprodução/Twitter/Olaf ScholzReprodução/Twitter/Olaf ScholzOlaf Scholz: como ministro de finanças, ele promoveu a digitalização
Além de não achar uma boa causa, a legenda de extrema-direita também não foi capaz de se posicionar em relação aos problemas que reverberaram mais recentemente entre os alemães. O principal deles, depois das inundações que deixaram quase 200 mortos em julho, é a mudança climática. Enquanto os partidos tradicionais ofereceram soluções distintas, como o aumento do preço dos combustíveis ou o subsídio para fontes renováveis de energia, o AfD simplesmente negou que o aquecimento global fosse um problema. Preso aos bordões ideológicos, a sigla também não soube como abordar outros problemas apontados pelos eleitores, como falta de moradia e pobreza. “Não foi uma surpresa que as opções radicais não tenham tido sucesso”, diz o cientista político Marcel Lewandowsky, que estuda populismo na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

Caso o social-democrata Olaf Scholz, de 63 anos, consiga se firmar como o próximo chanceler, não se deve esperar uma grande mudança de rumo. O SPD integra a atual coalizão de governo, em que Scholz é o atual ministro das finanças e vice-primeiro-ministro. Assim, a propensão a elevar os gastos públicos, algo que desafia o caráter austero da Alemanha, deverá ser mantida. Em abril, Scholz anunciou um plano de 28 bilhões de euros para recuperar a economia. O projeto é baseado em dois eixos: mudança climática e transformação digital. Com a pandemia, a necessidade de ampliar os investimentos em tecnologia ficou evidente. Em um ranking europeu de serviços públicos digitais, a rica Alemanha está em 21º lugar em uma lista de 28 países. No início da crise sanitária, os 16 estados do país estavam recorrendo a antiquados equipamentos de fax para compartilhar suas estatísticas de Covid. Formulários para solicitar ajuda governamental tinham de ser impressos, assinados e levados até um órgão público.

Scholz também é tido como um moderado no interior do partido de centro-esquerda. “Scholz conversa com todos os grupos ao mesmo tempo. Nesse ponto, ele é muito parecido com o presidente americano Joe Biden. Eles não têm discursos ideológicos, que estimulam a polarização e criam rusgas entre as pessoas”, diz Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais na Universidade de São Paulo. Sua carreira política deslanchou como prefeito de Hamburgo, em 2011. Nessa cidade, ele conduziu um projeto para revitalizar a região do porto, fez diversos acordos com a iniciativa privada para fomentar a construção de moradias baratas e ainda equilibrou as finanças da cidade. Em 2015, Scholz conseguiu se reeleger e ficou no cargo até 2018, quando se tornou o líder do Partido Social-Democrata. Agora, deve virar chanceler da Alemanha pós-Angela Merkel.

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    1. Também gostei muito! Neste tipo de reportagem temos mais informação e menos opinião! Parabéns

  1. Em um trecho há a informação de que o Die Linke foi fundado em 2007. Logo depois, o texto diz que o Die Linke ganhos votos de ressentimento nos anos 1990. Enfim, o partido existia ou não na década de 1990? Bom, “business as usual” para a imprensa nacional...

    1. Die Linke foi fundado em 2007. O partido surgiu da união de uma parcela separatista do SPD, o WASG, e do partido de esquerda PDS que já existia na Alemanha Oriental, tendo sua origem em 1946. Esses "detalhes" é difícil para ser entendido quando não se conhece toda a história.

  2. “As negociações para a formação de uma nova coalizão de governo na Alemanha deverão se arrastar por semanas ou meses” ——> ATENÇÃO “inteligentinhos” que “sabem” que a solução para o Brasil é o parlamentarismo (pausa para gargalhadas!). Isso é parlamentarismo: semanas ou meses para formar um governo! E na Alemanha! Imaginem aqui! Vai dar muito certo mesmo...

    1. .. E a senhora Magda tem preguiça de digitar um NÃO completo, prefere um preguiçoso "ñ". ...

    2. São meses de negociação pra se encontrar um plano de governo que se mantenha estável durante todo o mandato. Aqui nós temos essa aliança executivo/legislativo difusa, confusa, com constantes achaques, subornos e chantagens de parte a parte, só havendo estabilidade quando um está no bolso do outro, como nos anos do mensalão. Parece melhor isso pra você?

    3. LSB (ñ tem coragem de colocar seu nome?), essa é uma das gdes diferenças entre os alemães e os brasileiros médios. As pessoas aqui, quando ñ qualificadas, qdo ñ entendem sobre o assunto, preferem não opinar. Vc escreveu um monte de desconhecimento, um monte de bobagens. Primeiro os brasileiros, inclusive vc, têm que aprender o que é e como funciona o parlamentarismo. Depois, talvez, entenda o porquê da demora. No parlamentarismo não há chance p/ o populismo, o que já é muito bom.

    1. No parlamentarismo alemão há coalizão qdo ñ se tem maioria.Diferente do BR onde há toma lá dá cá e compra de partidos. No caso atual,se os partidos menores,FDP+Die Grüne,decidirem juntos q querem se unir ao perdedor CDU,então o SPD,vencedor da eleição,está fora. Agora é queda de braço,de quem consegue impor + suas idéias e,lógico,consegue + cargos. Se qq um pular fora ou os 2 gdes NÃO se juntarem (gde coalizão) tem q haver nova eleição, o q ñ interessa p/ ninguém. DEMOCRACIA é COMPROMISSO,DEMORA

    2. Larga de ter complexo de vira-latas e aprenda a ler: SEMANAS ou MESES para formar um governo! Se fosse aqui, vc já tacharia de “bananismo”..

  3. No Brasil, políticos tradicionais não são confiáveis e muito menos líderes capazes de ações positivas para a população.

  4. Quando trabalhando por três anos na Alemanha eu vi meu filho de 5 anos indo ao Jardim da Infância a pé, junto com outras crianças do bairro, obviamente com monitores públicos apoiando nos cruzamentos, eu percebi que ali havia poucos paralelos com a Banânia. Quando entrou no 1º ano, as opções religiosas (obrigatórias) eram católico, protestante ou aula de ética. Aí percebi que era realmente outro mundo. Hoje ele é, por opção, cidadão daquela maravilhosa terra. Tenho muitas saudades dele e de lá.

    1. Hoje é um dia muito emocional para todos, é o Dia da Unificação Alemã. Merkel está na tv falando à Nação, praticamente sua última fala antes da grande despedida do governo. Nem acredito que já se passaram 31 anos desde que assisti pela tv à queda do muro em Berlin. O tempo passa mais rápido do que a gente gostaria.

    2. Geralmente os monitores públicos são os pais das crianças que se revezam nesse trabalho. GRATUITAMENTE! As famílias participam bastante dos trabalhos das escolas. Minha cunhada (78), até hoje, trabalha de graça fazendo bolos e ajudando na cantina da escola onde seus filhos, hoje todos doutores, com filhos adolescentes e morando em outras cidades, estudaram. Isso une famílias e escolas.

    1. Concordo com Magda e com sua opinião. Gostaria muito de uma "Merkel" no Brasil. Que o Brasil pudesse ser um país decente.

    1. Se você tem opiniões contraditórias por que não as apresenta para discussão? Ou é só um pseudo homem?

    2. Oi Taka.. esse teu jornal é uma b.o.s.t.a.. rs

  5. E no Brasil com raríssimas excessões, ninguém defende política nenhuma a não ser o próprio umbigo. Rabo preso então é generalizado. Triste demais. Parabéns aos alemães.

  6. uma nação equilibrada socialmente é diferente .. amargamos a ignorância é desequilíbrio social e econômico muitos ainda na miséria .. eis o drama de um povo.

  7. Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” O Brasil finalmente terá Um Governo Fundado no “IMPÉRIO DA LEI!” Não seremos LUDIBRIADOS com o “Velho Truque de MELHORAS na ECONOMIA!” Triunfaremos! Sir Claiton

    1. como homem ninguém mais digno .. mas um presidente sem sustentação política é repeteco de um filme com final infeliz que nos cansou .. um povo ignorante com democracia infelizmente é um problema a mais .. duro mas é isto.

  8. Concordo com tudo o que a Magda escreveu. Depois dos horrores do nazismo e do comunismo a Alemanha aprendeu que o centro democrático é o único caminho. E quem construiu o tal milagre econômico e social do pós guera foi o CDU que governou o país até 1969 com seu capitalismo humano baseado na doutrina social da Igreja. O SDP manteve a mesma visão apenas dando maior ênfase ao lado social mas nunca descambando para o radicalismo. Willy Brand foi um ótimo Chanceler. Lição para o mundo.

    1. LSB, eu poderia fazer um comentário, mas, primeiro, quero saber o que VOCÊ entende por "coletivista". Ah, o que vc entende por "madrassas"? Eu conheço Madrasa (um tipo de escola árabe), mas o que isso tem a ver com a política alemã?

    2. Comunista não é, mas coletivista sim. De fato, o brasileiro não tem a menor ideia das correntes políticas, suas semelhanças e diferenças... só sabe o que as madrassas ensinam...

    3. Ivan,a Alemanha ainda está mto longe de ser perfeita,mas investe mto em educação,coisa q falta no Brasil.Enqto ñ houver "vacina" contra esse vírus (educação deficiente),ñ há Moro,Vieira,Leite ou Tebet q dê jeito no país.Nos chats onde participo fico HORRORIZADA c/a falta de conhecimento de português,história,geografia,ciências... a turminha ñ conhece o básico de nada!!Mas acha-se "qualificada" p/chamar Merkel de comunista (nem sabem o q é isso) e julgar a política dela.VERGONHA ALHEIA e TRISTEZA

    1. Seja bem vindo. Não esquece de trazer o casaco. Manhãs com +7° C, noites com +3° C. Depois piora :)

  9. A materia de capa é sobre Michele Bolsonaro… Quanta mediocridade, quanta “jequice”, que gentalha… Até quando seremos refens? Ler sobre Angela Merkel, traz um sopro de esperança na humanidade. Isso sim, foi uma Estadista com E maiusculo. Bato palmas 👏🏼👏🏼👏🏼

  10. Pouco nos interessa o que se passa na Alemanha, a não ser, que o futuro governante, um social-democrata, não deseje um alinhamento ideológico com a China comunista. Isso não é maniqueísmo, mas tão somente uma preocupação com o ideal que a Alemanha pós guerra, passou a ter, com a democracia e liberdade de expressão.

    1. Pra mim interessa muito pois sou cidadã dos 2 países. De qq maneira deveria interessar ao Brasil, sim, o que se passa aqui, pois a "palavra" da Alemanha tem um peso ENORME no que decide a União Européia que, por sua vez, pode facilitar ou dificultar a vida do Brasil. Como vivemos numa Aldeia Global, tudo o que se passa num país tem interferências em outros que, por sua vez, também interfere em terceiros e assim por diante. Mas viagens a Marte brevemente serão programadas a Marte...

  11. Parabéns,Duda T.!Sou moradora do país há 34 anos e tenho lido na imprensa e nas redes sociais brasileiras todo tipo de absurdo,dsd q Merkel é comunista até q os refugiados estão acabando c/o país.A ignorância de brasileiros q nem de seus bairros nunca saíram,mas sentem-se qualificados p dar opinião sobre a Alemanha é um ESPANTO.Seu artigo é neutro,perfeito,retrata a situação no país como ela é. Dsd o final da guerra somente 1 única vez o país foi governado p FDP (P.Liberal), senão só SPD ou CDU

    1. Acaba de sair uma nova biografia da "nossa Angie". "Angela Merkel - Die Kanzlerin und ihre Zeit" - Ralph Vollmann, Verlag C. H. Beck. Comprei mas ainda não li. Parece bom pois vi muitos políticos com o livro na mão durante a campanha eleitoral.

    2. Cris, também fico triste com a saída da Sra. Merle. Grande e exemplar governante.

    3. Concordo Magda. Morei anos na Alemanha e essa reportagem está excelente (como sempre aliás). Também choro a saída de Merkel.

    4. Os alemães,dps da 2a. Guerra Mundial,aprenderam q partidos e governos extremistas só trouxeram e trazem desgraça,por isso o povo é conservador c muita consciência. SPD e CDU,como vc escreveu,são partidos de centro,um + social,outro + pela economia.Mas os 2 são,em geral,sérios,responsáveis,equilibrados,pensam só no bem do país e do povo. Ñ há individualismo ou populismo.Até msm Merkel (já choro sua saída!) é + festejada fora do q dentro do país. Dps de 16 anos votando nela/CDU,agora votei no SPD

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