RuyGoiaba

Um país de palhaços

17.09.21

Todo mundo viu — você também, certo? — aquele vídeo em que o humorista André Marinho imita Jair Bolsonaro em um jantar na casa de Naji Nahas, o Bernie Madoff brasileiro (nesse caso, “brasileiro” significa “nascido num país em que gente rica não fica em cana por muito tempo”), para as gargalhadas de Michel Temer e outros presentes, na maioria brimos endinheirados. A imitação de Bolsonaro, ótima, rendeu muita “discussão política” sobre a chacota com o presidente e ainda mais sociologia freestyle de má qualidade, como na perspicaz observação de que a mesa do jantar era quase toda composta de “homens brancos velhos”. Claro: faltou Lula, que além de jovem é mulher trans e negrx (e já foi aliado de praticamente todos os políticos que aparecem no vídeo).

Dias antes, Marcelo Adnet, que compete com André Marinho pelo prêmio de melhor imitador presidencial — acho o texto do Adnet melhor, mas Marinho está mais próximo da tosqueira do original —, tinha respondido àquele áudio verdadeiro de Bolsonaro, no qual os caminhoneiros não acreditaram, com seu “Bolsonaro fake” convocando os manifestantes da categoria a deixar a boleia dos seus caminhões e dançar a Macarena de madrugada. Quem segue Marinho e Adnet nas redes sociais já sabe disso faz tempo — e certamente já riu muitas vezes com as imitações que os dois fazem de um grande elenco de políticos.

O que o leitor talvez não saiba é que os próprios políticos estão entrando nessa seara humorística. Reportagem do site Metrópoles traz um vídeo em que Fábio Faria, ministro das Comunicações e genro de Silvio Santos, imita o sogrão para fazer piada com o dólar. “Você está fazendo o Show do Milhão porque o dólar está 6 reais. Se estivesse 2 reais, quem faria era eu e a Patrícia [Abravanel, filha de Silvio e mulher de Faria]. Você sabe que 1 milhão de reais não vale nada, Celso”, brinca Faria ao lado de Celso Portiolli, o atual apresentador do Show do Milhão.

Certo, o Patrão é Imitação 101 — até eu consigo fazer um Silvio Santos passável (ma oe!). O problema é que, no Bananão, a política não se limita a isso; pelo contrário, empenha-se numa concorrência deslealíssima com os humoristas profissionais. O presidente não imita ninguém — faltam a ele talento e neurônios para a tarefa —, mas o que são as aparições dele diante dos “apoiadores” no Alvorada se não o stand-up do Bolsonaro, com claque fiel e tudo? Ele até já levou um palhaço profissional, o Carioca do Pânico, para responder a perguntas desagradáveis de jornalistas sobre o PIB. Outro palhaço por profissão, Tiririca, já foi o deputado federal mais votado do Brasil: naquela época (2010), o Bananão quis variar um pouquinho, mas depois seguiu elegendo palhaços amadores.

Não queria repetir o que já escrevi várias vezes sobre a “ala ideológica” do governo substituindo o globalismo pelo SBTismo, nem sobre a distância sanitária necessária para que a comédia funcione — ou seja, não funciona (e não é comédia) se você estiver DENTRO dela. Mas o problema de rir dos políticos palhaços é que o alvo da piada (o inglês butt of the joke é muito mais eloquente) somos nós, contribuintes que subsidiam a palhaçada. Na verdade, estamos mais para o garoto do filme It que é puxado para o bueiro e tem o braço arrancado pelo palhaço Pennywise; ainda assim, seguimos rindo. Afinal, o Brasil é como os tubarões das praias de Pernambuco: você dá a mão e eles querem logo o braço.

(Como a crise é também estética, solicito aos brasileirinhos que me leem: por favor, evitem ser literais e protestar por aí com nariz de palhaço. É uma cafonice prima-irmã daquele olho verde-e-amarelo chorando e me dá ganas de virar eu mesmo o Pennywise e arrancar o braço de quem faz. Pela atenção, obrigado.)

***

A GOIABICE DA SEMANA

O flop bem flopadinho das manifestações de 12 de setembro — a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo contou 6.000 pessoas na Paulista, o que é mais ou menos equivalente ao público de um Portuguesa x Juventus no Canindé, naquela remota época em que havia público nos estádios — é mais uma prova de que esses petistas que ficam nas redes sociais gritando “Bolsonaro fascista, genocida, vai dar o golpe” etc. só querem mesmo sinalizar virtude: se acreditassem de fato nisso, não se dariam ao luxo de escolher companhias nas manifestações para tirar o sujeito de lá. Pelo visto, o fascismo não é tão ruim assim — dá para esperar mais um ano até colocar o Painho lá de volta.

Fabricio Bomjardim/TheNews2/FolhapressFabricio Bomjardim/TheNews2/FolhapressNão é só no pixuleco do 12 de setembro que Lula e Bolsonaro estão abraçados

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  1. Ri da ignorância alheia; gosta de se sentir superior aos “toscos” que não têm neurônios; MAS se for estudar o que aconteceu na Bolsa de Valores do Rio, talvez perceba que seu entendimento do mundo não é muito melhor do que daqueles de quem ri e humilha...

  2. O meu senso de humor já de esgotou. Nenhum humorista imitador na atualidade me faz rir. Neu politico, ou melhor política, que me fez rir foi a anta Dilma original. Aquela sim sabia falar bobagens e nem percebia. Agora a sua coluna é a única que ainda me empolga.

  3. perfeito. faltou só mencionar o Coringa: a nemesis da imprevisibilidade e do caos. o palhaço do crime que causa estragos.

  4. Minha preocupação após assistir ao vídeo e ler sua crônica: no final Banãnia terá "libertas quae será tamen"? Aplaudo Adnet e Marinho w através da ironia nos despertam para o perigo que corremos de "pular cordas com correntes"

    1. Rita, quem escreve Libertas QUO SERA TAMEN aqui, sou eu, em em provocação ao STF e TSE pra barrarem os bandidos no baile.

  5. Muito estranho! André Marinho filho de Paulo Marinho antes amigo agora inimigo de Bolsonaro sabe-se lá porque. rsrsrs. Em uma mesa que se encontravam os verdadeiros donos do Brasil, o verdadeiro palhaço está aqui recolhendo impostos e indo votar em cada eleição acreditando exercer a cidadania, escolhe o representante que será a cortina de fumaça, para aqueles que não eleitos possam governar.

  6. É, Banânia não tem jeito mesmo. Se Pennywise fosse brasileiro, eu votava nele em 2022 e a gente já ia pro esgoto logo de uma vez. Cansei!

  7. É o destino do bananal ser um eterno e interminável clássico Portuguesa X Juventus numa sexta feira chuvosa em SP: não vale nada, ninguém está interessado e pouco importa o resultado. Os palhaços, inúmeros, seguem seu show sem graça e o contribuinte muito ocupado com sua tragédia diária de sobrevivência não consegue parar e dizer, "chega, não aguento mais essa palhaçada com o meu dinheiro"

  8. Os humoristas fazem seu trabalho para reflexão da sociedade, sobre pessoas e temas que enaltecem o seu trabalho. Muitas vezes as críticas do humor são irônicas e passam a ser confundir co. realidade. Quando não sabermos mais distinguir as falas dos humoristas e seus protagonistas, realmente devemos ficar preocupados...

  9. O único palhaço que devemos contemplar, aplaudir , agradecer por existir é o profissional de circo, que estuda e se prepara para o ofício de fazer seu público rir.

  10. O " Par Perfeito de 22 " está contemplando a BANDEIRA BRASILEIRA . Espero que A 3A VIA abrace esta BANDEIRA BRASILEIRA, e nos contemple, em 22, com outro " PAR PERFEITO " , e consiga nos presentear ao vencer a próxima batalha eleitoral.

  11. Goiaba, eu vou ser sincera. Eu ri muito com a imitação do Marinho, quando Mário Sabino me deu um tapa na cara e lembrou-me de todos os que estavam ali. Confesso, sou uma das palhaços da história. Porém, a vida no Bananao é tão dura que é difícil não rir para não cair em prantos. Obrigada como sempre por me fazer rir as 05:09 da madrugada 😅😅😅 e me fazer refletir pelo resto do dia. Ah, entre Marinho e Adnet, prefiro Marinho, mas Adnet é impagável também.

    1. Só chorando pela situação toda! Não da para rir! Que país é este! Onde meus ancestrais me trouxeram? Na real vcs tb são um desastre!

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