AlexandreSoares Silva

Esquerda à direita e direita à esquerda

03.09.21

Esquerda e direita não se definem pelas causas que defendem, essas tanto faz, são intercambiáveis; elas se definem pelos métodos com que defendem as causas que defendem.

Uma maneira mais pomposa de dizer isso é que é uma diferença de alma. Por algum motivo, Deus criou esses dois tipos de seres humanos. As causas em si mudam, não importam, e uma causa antes defendida com fanatismo por um lado logo é abandonada e adotada fanaticamente pelo outro; e vice-versa.
Quer exemplos? Pois tome cinco exemplos:

Guerra — Você, como eu, provavelmente cresceu em um período em que a causa antiguerra era um apanágio de hippies, estudantes, jornalistas, dramaturgos, atores de cinema etc. A esquerda, enfim. Junto com eles lá estavam os isolacionistas americanos à direita, mas eram poucos e quase invisíveis. O que aconteceu? Eu mesmo, em 2003 vagamente pró-Guerra do Iraque por nojo dos pacifistas de esquerda, nos últimos anos mudei com toda a direita para um certo isolacionismo, e vivi para ver grande parte da esquerda virar pró-guerra (especialmente quando Donald Trump queria recolher as tropas americanas). Agora eu sou o sujeito do “Paz e Amor”, e os hippies envelhecidos são o oposto. Qual causa define a esquerda, qual a direita? Nenhuma, era tudo contingente.

Pobres — Não repararam que a esquerda abandonou os pobres como se fossem animais de estimação indesejados, abrindo a porta do carro no meio da estrada? Dois séculos falando de proletários, e os esqueceram em um segundo em troca de imigrantes e transgêneros. Agora a esquerda é esnobe e elitista, toma Chablis e ri dos pobres; os operários votam na direita, e a direita obviamente adotou os operários abandonados. Eu também não me excluo disso: bastante elitista e esnobe anos atrás, agora a minha simpatia está com a classe baixa, média-baixa e média. E isso é para sempre? Não, a esquerda pode abandonar os transexuais e voltar a ser populista, e em cinco ou dez anos a direita pode voltar a ser elitista – quem sabe?

Ecologia — A ecologia sempre foi uma causa conservadora, como atestam Edmund Burke, Tolkien, Lincoln, Theodore Roosevelt, o ecologista Wendell Berry, Richard Nixon (conservador de reservas florestais e criador de leis ambientais) e Roger Scruton. Segundo o último, a esquerda adotou de repente a causa ecologista porque ela oferece “aos ativistas de esquerda, que perderam suas grandes causas, como o socialismo, uma oportunidade de se sentirem heroicos de novo”. Mas de novo as coisas estão mudando. Ainda não testemunhamos o completo abandono da ecologia pela esquerda, mas o nível de histeria parece ter diminuído um pouco, não? Me deixe profetizar que Greta Thunberg vai viver para ver um mundo em que a ecologia vai ser de novo a preocupação dos conservadores.

Grandes corporações — Antes uma tradição da esquerda, a desconfiança em relação às grandes corporações (Facebook, Twitter, Amazon, grandes jornais, estúdios de cinema etc) agora é uma característica da direita “populista“.

Monarquia — Claro que o processo inverso pode acontecer também, e a esquerda adotar causas de reacionários como se não fosse nada, e sem aliás jamais se dar conta disso. A causa monárquica, por exemplo, pode ser adotada de um momento para o outro pela esquerda. Como? Ora, basta juntá-la aos movimentos identitários. Convença, por exemplo, os movimentos negros de que a monarquia é uma antiga tradição africana (o que é, obviamente) e logo eles estarão defendendo linhagens antigas de reis bantus, exigindo plebiscito pela volta da monarquia segundo modelos zimbabueanos e assim por diante. Documentários esquerdistas premiados seguirão o dia a dia de casas reais africanas vivendo no Brasil, historiadores encherão os cadernos de cultura nos jornais com as virtudes e a sapiência dos reis zulus, a Netflix vai fazer séries sobre reis negros assumindo o poder num Brasil imaginário, Gregório Duvivier vai escrever colunas terminando com o bordão Viva Sua Majestade Ileaê Bantu IV, Caetano Veloso vai compor uma música dizendo “Chegou Sua Majestade linda Rainha Mãe Menininha Ababalaê Oxossi III”, e logo teremos de novo um rei ou rainha no Brasil. É a monarquia mais provável de termos nos próximos anos (chamai-me de louco, e salvarei os vossos insultos para reler num futuro breve.)

Mas comecei dizendo que esquerda e direita se definem não pelas causas que defendem, mas pelos métodos com que defendem as causas que defendem. Que métodos são esses?

A direita: institutos, vídeos, cursos, coaches, think tanks, podcasts, um ou outro pensador reacionário. A esquerda: todas as peças, todos os filmes, todos os romances, todas as séries, todos os episódios de todas as séries, e mais um ou outro protesto com pessoas peladas ou, se vestidas, queimando lojas.

Resumindo, a direita apela à razão, embora muitas vezes seja burra demais para fazer isso direito; a esquerda apela aos sentimentos, embora muitas vezes não tenha nenhum, e os poucos que têm sejam evidentemente meio falsos.

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  1. É de um jeito muito similar ao que eu penso sobre esses "paradigmas" entre esquerda e direita. Basta um levantar uma bandeira, que o outro levanta outra para contrapor. Nada mais do que espertalhões tentando achar meios de te convencer.

  2. Defini nesse momento, ao ler esse texto de análise rasa, o cancelamento de minha assinatura. Boas palavras, boa articulação, conteúdo sofrivel.

    1. Verdade., É um raciocínio lúdico,de que adianta o suposto Vale Gás,sem comida na panela.

  3. O único jeito de frear a China é apoiando leis trabalhistas na OMT e cobrando pela emissão de CO2 na OMC... os países do mundo devem cobrar isso e fazer a china pagar pela poluição! E nós ganharmos com crédito carbono!

  4. Realmente está tudo do avesso. Por isso nao devemos seguir co. um nem outro. Uma via de Centro, sensata, qualificada e experiente. Tasso Doria e Ciro são os mais preparados execitivos, via certa sem rabo preso. Aliados a Moro Simone A.Vieira Leite e Artur Virgílio. Formem Arco de Aliança numa chapa já fev o i do quem vai pra Ministério A ou B e Judiciário.

  5. Reflexos de uma mesma causa raiz... a hipocrisia se manifestando nas relações humanas, conforme a conveniência do momento.

  6. A cada dia, a cada tema, cresce minha dificuldade em me definir a direita ou à esquerda. Acho que sou social democrata em cima de um largo muro. Muro não, pois muro divide. Agora o autor me sugere mais um método de me posicionar: razão ou emoção? Ainda to na dúvida!

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