Divulgação/The White HouseBiden em seu discurso de posse: "Sem unidade não há paz, apenas amargura e fúria"

Um presidente para remediar

Joe Biden assume a Casa Branca com uma longa lista de tarefas, que inclui unificar o país, controlar a pandemia e recuperar a economia. A história americana mostra que a missão pode não ser tão difícil quanto parece
22.01.21

Com uma Bíblia gasta que é de sua família há 127 anos, o democrata Joe Biden prestou juramento à Constituição americana nesta quarta, 20, e tornou-se o 46º presidente dos Estados Unidos. No discurso que proferiu logo depois, à sombra do Capitólio — o mesmo edifício que foi invadido e vandalizado por apoiadores do agora ex-presidente Donald Trump —, Biden pediu união aos americanos. “Sem unidade não há paz, apenas amargura e fúria. Nenhum progresso, apenas um confronto exaustivo. Nenhuma nação, apenas um estado de caos”, disse. “Temos de acabar com essa guerra não civilizada, que coloca democratas contra republicanos, a cidade contra o campo, conservadores contra liberais. Podemos fazer isso se abrirmos nossas almas em vez de endurecer nossos corações.” Biden também ressaltou que o país precisa enfrentar de uma só vez diversos desafios: extremismo, terrorismo doméstico, aumento da desigualdade, mudança climática, perda de empregos e um vírus que já matou mais de 400 mil americanos.

A lista de problemas é desanimadora. A esperança é que, em quase 250 anos de democracia contínua, os Estados Unidos já superaram inúmeras crises. Em várias delas, o discurso de unidade dos seus líderes conseguiu se firmar na consciência coletiva. Um paralelo possível para o instante atual aconteceu após os atentados terroristas do dia 11 de setembro de 2001. Nas ações que deixaram 2,7 mil mortos, os americanos subitamente se deram conta de que não estavam tão seguros como imaginavam. Em discursos que fez nos dias após o episódio, George W. Bush pediu a união da nação. Em pouco tempo, sua aprovação chegou a 90% — o maior índice já obtido por um presidente americano. “O discurso de Biden durante sua campanha muitas vezes se parecia com o de George W. Bush após o 11 de setembro. Ele falava, por exemplo, em derrotar o vírus, como se nós estivéssemos em uma guerra. É uma estratégia que pode ressoar na alma americana”, diz a cientista política Lilly Goren, professora da Universidade Carroll, no estado do Wisconsin. E foi exatamente isso que ele fez abertamente, ao declarar que o país está em estado de guerra contra a pandemia.

Duas décadas após os atentados às Torres Gêmeas, esse objetivo de união ficou mais complexo porque a sociedade americana está muito mais fragmentada. Três em cada quatro cidadãos dizem discordar das pessoas do partido oposto àquele com o qual simpatizam não apenas nas questões políticas, mas também na maneira de ver a vida. Além disso, entre os republicanos, 36% se identificam mais como “trumpistas” do que como republicanos tradicionais. E uma boa parte deles, 68% dos republicanos, foi contaminada pela retórica do ex-presidente de que a eleição de novembro foi fraudada. Até os últimos momentos de sua presidência, Trump seguiu afirmando que ganhou a eleição de lavada e se recusou a participar da posse de Joe Biden – uma mentira, evidentemente. Da mesma forma, para muitos dos seus seguidores, não há aproximação possível. Para alguns, até ações violentas são justificáveis.

ReproduçãoReproduçãoO presidente americano presta juramento com a mão sobre a Bíblia da família
Para proteger Joe Biden, a vice Kamala Harris, seus familiares, congressistas e diplomatas que participaram da posse, cerca de 25 mil integrantes da Guarda Nacional foram enviados para Washington. A região onde ficam a Casa Branca e o Capitólio foi bloqueada para o público. A cidade estava sitiada. Apenas alguns poucos escolhidos acompanharam o juramento, sentados em cadeiras reservadas e seguindo as regras de distanciamento social. Como não havia povo para mostrar, as câmeras que transmitiram a posse de vez em quando exibiam os soldados em suas roupas camufladas. O clima de insegurança só tem comparação com a posse de Abraham Lincoln, em 1861. Após sua eleição no ano anterior, seis estados se declararam independentes e formaram os Estados Confederados da América (a bandeira dos Confederados estava com os arruaceiros que invadiram o Capitólio neste ano). Como recebia ameaças de morte a todo momento, Lincoln precisou entrar disfarçado em Washington em um trem secreto. Atiradores de elite se posicionaram nos telhados e janelas do Capitólio em construção, para proteger o novo presidente em seu discurso. Lincoln não conseguiu evitar a Guerra Civil, que deixou 620 mil mortos, mas saiu dela vitorioso e manteve a coesão dos Estados Unidos. Também foi bem-sucedido ao acabar com a escravidão. Nos rankings que os americanos gostam de fazer a cada quatro anos para avaliar os melhores presidentes da história, Lincoln sempre obtém o primeiro lugar.

Um dos fatores que pode amenizar a tensão na sociedade americana é a larga experiência de Biden na política. Aos 78 anos, ele foi eleito senador pela primeira vez aos 30, em 1972. Depois disso, foi empossado mais seis vezes na Casa, sempre fazendo o juramento com a mesma Bíblia familiar. É muito mais tempo do que os ex-presidentes que estavam na posse na última quarta. Barack Obama, hoje com 59 anos, assumiu a presidência após um único mandato como senador. Bill Clinton, de 74 anos, só tinha experiência como governador de um estado pequeno, o Arkansas. George W. Bush, de 74 anos, foi eleito após governar o Texas. Entre 2009 e 2016, anos em que foi vice-presidente de Obama, Biden tomou como um de seus papéis a missão de negociar com os congressistas, com os quais já tinha construído relações pessoais. Essa convivência agora pode ajudá-lo a aprovar suas propostas, como o plano econômico de 1,9 trilhão de dólares.

Se for bem-sucedido, Biden seguirá o caminho de outros dois ex-presidentes democratas que também contavam com uma sólida experiência no Senado: Harry Truman (1945-1953) e Lyndon Johnson (1963-1969). No Congresso, o presidente Truman passou o Plano Marshall, que ergueu a Europa após a Segunda Guerra. Johnson atuou contra o próprio Partido Democrata e promulgou a lei dos direitos civis, em 1964, e a lei dos direitos de voto, em 1965. “Biden sabe muito bem como o Congresso funciona. Se avançar em sua pauta, ele mandará uma mensagem poderosa para o povo americano, principalmente para aqueles que foram bombardeados por informações falsas e estão descrentes com a democracia”, diz a historiadora americana Lindsay Chervinsky, especialista em presidentes e professora da Universidade George Washington.

ReproduçãoO Capitólio, após invasão, pronto para a festa: Washington foi sitiada
O plano que Biden quer aprovar no Congresso inclui seguro-desemprego, auxílio para as famílias, perdão de dívidas imobiliárias, crédito para empresas e verbas para a compra de testes de Covid e para acelerar a distribuição de vacinas. Até agora, os Estados Unidos vacinaram 17 milhões de pessoas. Biden quer imunizar 100 milhões nos primeiros 100 dias de governo. A economia vem se expandindo desde o terceiro trimestre de 2020 e este ano o PIB deve crescer 5%. Em dezembro, o PIB poderá voltar aos níveis de antes da pandemia. Contudo, problemas podem surgir, como aumento na inflação e nos juros. Há dúvidas ainda sobre como se comportará o mercado de trabalho. “Os presidentes sempre se beneficiaram com o crescimento da economia. O perigo para Biden é que a criação de vagas ficará abaixo das expectativas da maioria dos indivíduos. Muitos empregadores tentarão substituir as pessoas por máquinas e tecnologia para evitar problemas futuros com funcionários doentes. Essa tendência já estava ocorrendo, mas foi acelerada pela pandemia”, diz o economista Michael Walden, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte.

Apesar de estar em um partido com mais ânimo para o intervencionismo estatal, Biden sabe que o dinheiro público não será suficiente para reativar o país. “O que vai salvar a moderna economia americana de hoje não é um plano ao estilo do New Deal, de Franklin Delano Roosevelt em 1930. Para aquecer a economia americana de verdade, o setor privado será fundamental”, projeta o economista Fernando Ribeiro Leite, professor de história do pensamento econômico no Insper. “A vantagem da economia americana é que ela é muito resiliente e flexível. Os americanos sempre conseguiram se reinventar, criando mercados e produtos.”

Sendo um político com gosto por história, Biden recheou seu discurso inaugural com fatos antigos. No Salão Oval da Casa Branca, onde despachará pelos próximos quatro anos, ele pendurou diversos retratos de ex-presidentes, como Abraham Lincoln e George Washington. A pintura com maior destaque é a de Franklin Delano Roosevelt, a quem coube contornar a crise mundial de 1929. Se Trump era um revolucionário ávido por desmontar o sistema, Biden é um tradicionalista, que buscará inspiração no passado para avançar rumo o futuro. “Nossa história tem sido uma luta constante entre o ideal americano de que todos nascemos iguais e a dura e horrível realidade de que o racismo, o comunitarismo , o medo e a demonização há muito nos apartam. A batalha é perene e a vitória nunca está garantida”, disse Biden, em um trecho de seu discurso de posse que resume o quadro geral que ele, agora, terá de enfrentar.

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  1. “Para ALGUNS, até ações violentas são justificáveis”. Comentário sobre republicanos/conservadores/apoiadores do Trump; pois se FOSSE referente a esquerdistas/progressistas/BLM - e o jornalista FOSSE HONESTO INTELECTUALMENTE - deveria escrever: “Para a MAIORIA, ações violentas RECORRENTES, e como ‘primeiro argumento’ - quase ‘profilático -, são justificáveis”.

  2. Fico imaginando, como que um ser humano que tenha o mínimo de valores, morais, éticos, religiosos, de amor ao próximo e de urbanidade, consegue construir uma narrativa que encontre algo de valoroso em Trump! Francamente, estamos caminhando para a fanatização do indivíduo, em detrimento ao pensar. Acorda 🇧🇷

  3. A meu ver os Estados Unidos deram o primeiro passo para a reorganização de sua política, sem negacionismo e com uma elevada dose de bom senso e espírito público. Espero que tenhamos a mesma sorte em 2022.

  4. Governo novo e o vírus continua matando. Bélgica segue liderando mortes e seu primeiro ministro é o maior Genocida do mundo. Itália, França e Espanha disputam segundo lugar e subsequentes assim como seus governantes genocidas. Isto sem falar na Suécia, o Genocida de lá não recomenda máscaras nem distanciamento muito menos lockdown. Infelizmente o mundo vive um genocídio da ciência politizada.

  5. Mais um canalha que se sujeita ao comando dos pouquíssimos que mandam no mundo. Todos os que opoem a eles (Bruxelas) como fez Trump, serão perseguidos. O ser humano gosta de ser enganado. O nome do ator que agora fala bonitinho é Biden. Não governa nem manda nada.

    1. O que fez Trump? Disseminou o ódio, a discórdia , a mentira e tudo de pior que um ser humano carrega dentro de si. Em suma, o demônio em pessoa. Parabéns americanos. Desejo que façamos o mesmo

  6. Desejo que em 2022 o Brasil tenha a mesma sorte que os EUA e apareça um candidato tão esclarecido, coerente, experiente e comedidos com a palavras, a exemplo de Fernando Henrique, para competir com nosso atual Presidente.

  7. Exato, quem remedia nao cura. Ele nao tem nem o vigor, nem o entendimento, para mudar o que precisa e muito menos a vontade. O discurso falado nao se associa com as acoes, nao se enganem com o discurso, verifiquem o que vem sendo feito.

    1. Não entendeu o comentário e xinga. Típico da indigência mental de nossa era.

    2. Conseguiu falar um monte e conseguiu dizer merda nenhuma. Parabéns! Já está preparada para trabalhar coma turminha do Bostonaro.

    1. Está seria a vice do Biden que fingiu que tomou vacina com agulha entortada. É a ciência.

  8. Acho engraçado ver os supostos analistas levando esse cara a sério, como se ele não fosse senil e fosse ele mesmo que irá governar o país. Às vezes podemos vê-lo lendo o teleprompter e dá para ver que ele não tem ideia do que está lendo. Deus tem piedade dos Estados Unidos.

    1. A pequenês e o ódio precisa ser abolido do coração das pessoas, ou só restará cinzas

  9. Um discurso histórico, com forte apelo de união e como os anti vivem falado que o cara tá gaga mais de meia hora, ao vivo sem gaguejar e sem estar lendo nada, imagino se não estivesse gaga

  10. Biden é um conservador no verdadeiro significado da palavra. Quer conservar as melhores tradições americanas de democracia que foram atacadas vilmente por Trump. Este sim, um verdadeiro inimigo do país infiltrado no seu posto máximo. Stalin estaria comemorando cada dia de Trump na Casa Branca

  11. Com um presidente com vasta experiência política,equilibrado e competente,os Estados Unidos com certeza,terão um período de paz e de progresso!

  12. JOEL BIDEM É UM CRIMINOSO PEDÓFILO GLOBALISTA QUE SE CURVA A VENDER OS EUA À XI O DITADOR DO PARTIDO COMUNISTA CHINÊS COM FRAUDES ELEITORAIS E O GOLPE DO CAPITÓLIO COM ANTIFAS DISFARÇADOS DE PRÓ TRUMP. CADEIA PARA BIDEM E LIBERDADE PARA A AMÉRICA!! E AS ELEIÇÕES SERIAM REFEITAS CORRETAMENTE EM MARÇO COM O EXÉRCITO TONANDO CONTA SEM A DOMINION OU SMARTMATIC E MAQUINAS VICIADAS DE CONTAR VOTOS.

    1. O vírus da imbecilidade contaminou o bolso minion que copiou e colou este comentário. O Gabinete do Ódio aproveita esses replicadores de falsidade e desinformação para tentar destruir a democracia.

    2. https://br.noticias.yahoo.com/joe-biden-pedofilia-foto-enterro-presidente-estados-unidos-110055451.html https://www.boatos.org/mundo/joe-biden-candidato-democrata-pedofilo.html/amp https://oglobo.globo.com/fato-ou-fake/e-fake-que-fotos-mostrem-joe-biden-assediando-criancas-24744604

    3. Ou esse cara aí fumou uns.. ou ta sob efeito da "farinha".. completamente pirado..rsrs

    1. "AMÉRICA É COMO UM CORPO SAUDÁVEL E SUA IMUNIDADE COMO UM TRIPE: PATRIOTISMO. MORALIDADE E ESPIRITUALIDADE. SE NÓS PUDERMOS MINAR ESTAS TRÊS ÁREAS. AMÉRICA IRÁ COLAPSAR DESDE DENTRO. " Joseph Stalim

  13. Para não variar, a cobertura inacreditavelmente tendenciosa de Crusoé omite que inúmeros elementos dentro do partido Democrata já pedem abertamente pela censura completa aos conservadores (no que terão a ajuda do Big Tech, de onde vêm vários ministros do Morto Muito Louco), a criação de um estado policial que capacite a CIA a agir em território nacional e contra os próprioa cidadãos e até mesmo em campos de reeducação. Se isso soa como "remediar", bom, apoiem também Venezuela ou Coreia do Norte

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