Márcio Pannunzio /Fotoarena/FolhapressCampanha à moda antiga: investimento em militância de rua foi de 88,4 milhões de reais

Política mofada

Dos velhos santinhos aos cabos eleitorais na rua, a corrida eleitoral deste ano mostra o quanto as campanhas no Brasil ainda são analógicas, o que contribui para manter a transparência dos gastos longe do ideal
27.11.20

Nem mesmo a maior crise sanitária do século mudou a cara das campanhas no Brasil. A expectativa de que a corrida eleitoral de 2020 seria mais digital e, portanto, mais barata em razão da pandemia não se concretizou e a disputa foi tão analógica quanto as de décadas atrás. O balanço das despesas eleitorais expõe essa realidade. Contratação de cabos eleitorais, distribuição de santinhos e adesivos, publicidade em carros de som, comícios e panfletagens consumiram a maior parte dos 2 bilhões de reais do fundão eleitoral. Os candidatos a prefeito e vereador gastaram, por exemplo, 223,9 milhões de reais só com publicidade impressa, valor quase nove vezes maior que os 25,4 milhões de reais declarados para o pagamento de impulsionamento de conteúdo em redes sociais. O montante investido em contratação de atividades de militância de rua foi de 88,4 milhões de reais, quase 20 vezes mais do que os 4,7 milhões de reais pagos a empresas de criação de páginas na internet. Com a gastança com gráficas pelo Brasil afora, seria possível distribuir santinhos e adesivos para quase 1,5 bilhão de pessoas, o equivalente a 10 vezes o tamanho do eleitorado do país – e boa parte dessa montanha de papel foi parar literalmente no lixo.

A campanha baseada no corpo-a-corpo com o eleitorado, em que se gasta mais sola de sapato do que dinheiro com engajamento nas redes sociais, permite conquistar votos de moradores de áreas mais distantes dos grandes centros urbanos e de eleitores pouco afeitos à internet. Mas essa forma de pedir votos gera maior risco de irregularidades, como o caixa dois, segundo órgãos de fiscalização. É muito mais fácil desviar o dinheiro público que agora abastece os comitês a partir de contratos com gráficas e contratação de gente para distribuir santinhos, por exemplo, do que em acertos com gigantes da internet – e essa é uma das explicações para que muitos candidatos ainda torrem milhões com a campanha à moda antiga.

Entre os mecanismos mais arcaicos de captação de votos está a própria contratação dos cabos eleitorais. São pessoas pagas pelos candidatos para, uniformizadas com a logomarca dos políticos, distribuir panfletos e adesivos, segurar bandeiras às margens de ruas movimentadas ou em eventos como comícios. A Justiça Eleitoral recebeu até agora 131,8 mil notas fiscais de contratações de militantes de rua.

Uma breve análise das maiores despesas realizadas nessa rubrica indica coincidências suspeitas. Três das cinco empresas que mais ganharam dinheiro com a oferta de serviços de cabos eleitorais para campanha de 2020 atuam na área de limpeza e mantêm contratos com o poder público. A maior despesa com militantes de rua foi realizada por Emanuel Pinheiro, candidato do MDB à prefeitura de Cuiabá que disputa o segundo turno neste domingo, 29. Ele contratou a Cosmotron Construtora, Saneamento e Tecnologia por 844 mil reais para serviços como entrega de material gráfico nas ruas da capital mato-grossense. A empresa teve um contrato de coleta de lixo com uma prefeitura questionado.

Fernando Frazão/Agência BrasilFernando Frazão/Agência BrasilGastos com santinhos foi nove vezes maior que os declarados ao TSE com impulsionamento de conteúdo nas redes sociais
A Cosmotron tem os mesmos sócios de outra firma do ramo, a Metta Service, que foi contratada por Emanuel Pinheiro Neto, candidato à prefeitura de outra cidade, Várzea Grande, e é filho de Emanuel Pinheiro. Com um valor de 450 mil reais, o contrato da campanha do jovem de 25 anos é o terceiro maior do Brasil na rubrica militância de rua. Candidato sem sucesso à prefeitura de Teresina pelo PL, Fábio Abreu Costa foi mais um que escolheu uma empresa de limpeza para prestar serviços de cabos eleitorais: a Limpserv firmou contratos de 12 milhões de reais com o governo federal e também presta serviços à prefeitura da capital piauiense.

Em 2018, a gastança milionária com a contratação de cabos eleitorais serviu de subterfúgio para outra irregularidade: o uso de candidaturas laranjas. Muitas mulheres receberam dinheiro do fundão eleitoral, mas as despesas declaradas em suas prestações de contas pagaram gastos de campanha de candidatos do sexo masculino. Em julho, a Polícia Federal indiciou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, por omissão de gastos na prestação de contas. Segundo a PF, pelo menos 31 cabos eleitorais que panfletaram para o então candidato do MDB foram pagos com dinheiro da campanha de candidatas mulheres que supostamente atuaram como laranjas.

Na contratação de gráficas, o campeão de gastos é o candidato eleito para a prefeitura de Salvador, Bruno Reis, do DEM. Quase 3,2 milhões de reais, cerca de 31% dos 10,3 milhões de reais em despesas declaradas até agora pelo aliado de ACM Neto, foram repassados a gráficas. O maior contrato, de 931,5 mil reais, prevê apenas a confecção de santinhos. Outro, de 682 mil reais, foi firmado para a produção de galhardetes e bandeiras. Ao todo, foram oito contratos para a compra também de adesivos, pragões e praguinhas, como são chamados os autocolantes usados nas roupas.

Fabiano Cazeca, candidato do PROS à prefeitura de Belo Horizonte, também figura entre os políticos que registram os maiores contratos com gráfica. O empresário investiu 1,4 milhão de reais do próprio bolso. Parece não ter dado muito certo: ele conquistou apenas 2,5 mil votos. Já Elinaldo Araújo, do DEM, eleito para a prefeitura de Camaçari, na Bahia, registrou o terceiro maior gasto individual com publicidade impressa no Brasil entre os declarados até agora – foram 10 contratos com gráficas que somaram 1,7 milhão de reais. Nesse caso, pagos com dinheiro público. Com esse recurso, seria possível produzir 350 santinhos para cada um dos 160 mil moradores do município baiano. “Das nossas apurações, em regra geral, gastos com gráfica e material impresso em campanhas são o grande caminho para fraudes. Esse tipo de despesa já alimentou grandes esquemas”, afirma o procurador regional eleitoral Sérgio Medeiros, que coordena o Ministério Público Eleitoral em São Paulo. “No caso de gastos com impulsionamento de conteúdo, em que os pagamentos são feitos a grandes empresas, como Facebook e Instagram, há a emissão de nota fiscal, é tudo preto no branco. Infelizmente, apesar dos esforços de fiscalização, o gasto elevado com gráficas ainda dá azo a fraudes”, acrescenta Medeiros.

Em São Paulo, Covas e Boulos gastaram mais com gráficas do que com marketing digital
Até mesmo em São Paulo, maior centro urbano do país, a forma arcaica de fazer política persiste. O candidato do PSDB à prefeitura, Bruno Covas, gastou pelo menos 19 milhões. Além de despesas expressivas com propaganda eleitoral para a TV e com advogados, o tucano despendeu 929 mil reais em apenas um contrato de serviços gráficos, que previa a produção de santinhos e bandeiras. O valor é mais do que o dobro do contrato de marketing digital de Covas, fixado em 415 mil reais. Rival do tucano no segundo turno, o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, apresenta gastos mais modestos, mas a proporção com despesas analógicas é semelhante: ele repassou 268 mil reais a gráficas, 281 mil reais a produtoras de televisão, e somente 110 mil reais para impulsionamento de posts em redes sociais.

Nesse quesito, a disputa pela prefeitura de Fortaleza se destaca: os candidatos que concorrem ao segundo turno na capital cearense estão entre os que mais gastaram com campanha digital. Capitão Wagner, do PROS, gastou 2,8 milhões de reais até agora. Desse montante, a maior despesa foi com impulsionamento de conteúdo: ele repassou 526 mil reais ao Facebook e 216 mil reais ao Google para promover buscas associadas ao seu nome. Ainda assim, o candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro investiu 647 mil reais em publicidade impressa, como santinhos e adesivos. Seu rival, José Sarto, do PDT, apoiado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes, investiu 1,1 milhão de reais em plataformas da internet.

Outra forma ainda muito usada para fazer campanhas é a publicidade em carro de som. Alheios à poluição sonora, muitos candidatos alugam trios elétricos para fazer ecoar suas mensagens aos eleitores em altos decibéis. No total, os gastos somavam 10,4 milhões de reais até o início desta semana. Um dos campeões é o candidato à prefeitura de Alagoinhas, na Bahia, Radiovaldo Costa, do PT. Dos 92 mil reais de receita de sua campanha, o petista usou 60 mil reais para contratar carro de som.

E para quem achava que os comícios não teriam vez na pandemia, as declarações à Justiça Eleitoral contrariaram as previsões: foram gastos 4,3 milhões de reais. O valor inclui montagem de estruturas e palcos, luz, telão, show pirotécnico e locução – nada mais contraditório para quem, como a esmagadora maioria dos políticos, prometeu ao eleitorado a adoção de medidas capazes de combater a disseminação do vírus.

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  1. Reportagem medíocre típica da imprensa nacional. Qual a fraude? Favor explicar... as contas foram pagas com dinheiro do fundo eleitoral que existe justamente para isso!!! (não vou entrar na questão se o fundo deveria existir ou não). As despesas foram pagas e declaradas!!! Qual a fraude? A única hipótese é alguém TER GASTO MAIS DO QUE O DECLARADO (e a gráfica recebendo por fora e emitindo nota em valor menor/oficial). Então, qual a fraude? Existe indício de pgto por fora? A reportagem não achou.

  2. Muitos candidatos pouco importam com a vida dos cidadãos , dando às costas para à ciência e para às regras da cidadania.Afinal, no país da corrupção, leis são frouxas.

  3. O grande problema todos sabemos: a enorme abrangência territorial para que candidatos aos legislativos façam campanhas. O voto por circunscrição acabaria com isso. Diminuiria os custos para vereadores e deputados. No caso do voto majoritário a solução é inaplicável. Por outro lado é muito melhor gastar dinheiro público com propulsionadores movidos a feijão do que com o Google, controlando-se naturalmente a corrupção. Um trabalho temporário muito bem-vindo.

    1. o Brasil e seus políticos e ministros são uma vergonha! lena

  4. Pois é, enquanto muitos desempregados e outros tantos se afundando em empréstimos para sobreviver, sobra sempre dinheiro para a suja política brasileira. Da esquerda a direita, ninguém escapa da ganância. O TRE também deveria avaliar pequenas cidades com pouco mais de 15 mil eleitores. É de estarrece.

  5. Gente hipócrita! E assim a máquina gira: uns compram votos, outros vendem. E tá td dominado. 🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤑🤡

  6. No Rio a apatia é total! Os escândalos envolvendo todos os últimos 3 governadores e seus gabinetes não nos incentivam a acreditar em mais ninguém! Não há mais interesse na política local, suas figuras só nos causam repugnância.

  7. O certo é acabar com essa vergonha de FUNDO PARTIDÁRIO. Partidos são entidades privadas e devem existir com seus recursos, não com dinheiro do povo! Cambada de vagabundos !!!

  8. Não sejamos otários, a maior parte dessa grana, cerca de 2/3, foi para o bolso dos candidatos. Comprova-se isso comparando-se o custo unitário dos votos dos candidatos vencedores com os daqueles que foram derrotados, sem considerar o 2° Turno das eleições. Não foi à toa que brigaram tanto para o aumento da grana do Fundo Partidário.

  9. Porque a matéria não tem um viés de maldade? Os caras se lambuzando com meu, seu, nosso dinheiro e vcs fazem uma reportagem clean? Aposta 1,00 real que nenhuma candidatura resiste a uma auditoria. Segue o baile!

  10. Nós, os idiotas brasileiros, aceitamos tudo. Nada vai mudar. Teremos sempre os merdas governantes que merecemos.

  11. Oi Sra. Nader, vc acha que os sanguessugas politicos destecm país, mudariam o modud operandi..Nunca, cada vez mais vao ao pote de ouro que, os contribuintes pagam e esses inescrepulosos ainda se elegem à custa de nossos impostos, para nada produzirem em favor da sociedade .

  12. Apoio o aumento das mulheres na política. Fui candidata esse ano pela primeira vez. No meu caso optei pelas mídias e pouquíssimo material gráfico. A verba? Beeeeemmm pequena. Jamais daria para concorrer em pé de igualdade com ninguém. A prestação de contas? Super exigente. Pensei: como pode ter tanta fraude com tantos controles? Já sei: falta eh fiscalização.

    1. confesso que, dentro da cabine eleitoral fiquei na dúvida entre dois candidatos: 1o. TUDOZERO CONFIRMA. 2o. FILHODAPUTA NENHUM. VOTEI NO 1o. Pateta ė quem vai lá e escolhe um dos bandidos

    2. Mais que patetas, cabeças não pensantes, e ainda somos capazes de manter a atual estrutura carcomida.

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