Reprodução/redes sociaisMaduro: incidentes recentes em território brasileiro não tiveram resposta de Brasília

O samba de Maduro

Bolsonaro adora atacar a Venezuela no discurso, mas no governo dele seguidores de Nicolás Maduro têm aprontado no território brasileiro sem ser incomodados
27.11.20

Uma eventual queda do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sempre foi vista como uma espécie de troféu para o governo Jair Bolsonaro. Por isso, desde o início do mandato, quando Maduro chegou a anunciar o fechamento da fronteira com o Brasil para evitar o envio da ajuda humanitária solicitada pelo autoproclamado presidente venezuelano Juan Guaidó, o governo brasileiro tenta se mover no plano internacional para enfraquecê-lo politicamente e se consolidar como o principal antípoda do ditador venezuelano na América Latina. Em 2019, dois meses após a posse, um dos filhos do presidente, o 03 Eduardo Bolsonaro, cogitou deflagrar um confronto ou mesmo franquear apoio a uma intervenção militar americana no país vizinho, o equivalente àquela altura a riscar um palito de fósforo perto de um barril de gasolina. Mas as bombas foram prontamente desarmadas pelo vice Hamilton Mourão e pela ala verde-oliva do governo. Mesmo intempestiva, a postura beligerante do filho de Bolsonaro expôs a disposição do governo brasileiro de fazer de tudo para fustigar o herdeiro político do chavismo – o que, claro, soaria como música aos ouvidos do eleitorado bolsonarista.

Ocorre que, a julgar pelos últimos lances da refrega, a ditadura de Maduro não só tem imposto reveses ao Brasil, como age como se sambasse na cara do governo Bolsonaro, seja arrumando maneiras de driblar medidas anunciadas pelo Itamaraty, abrigando integrantes do MST em sua embaixada ou mesmo promovendo incursões em território brasileiro para capturar dissidentes do regime, enquanto as nossas autoridades assistem a tudo impassíveis. O mais recente movimento venezuelano em solo nacional, realizado em plena pandemia, assume um enredo no mínimo nebuloso. Tudo ocorreu, aparentemente, sem grandes objeções das autoridades brasileiras. A partir do consulado venezuelano em Roraima foi articulado o transporte de uma alta funcionária do governo Maduro para a Rússia.

Em junho, já com as fronteiras brasileiras fechadas para estrangeiros, Janlisbert “Libertad” Velasco, uma alta funcionária do Ministério da Educação de Maduro, entrou em Pacaraima, município localizado na fronteira do Brasil com a Venezuela, no norte de Roraima. De lá, partiu para Boa Vista, a capital do estado, onde tomou um avião para São Paulo. O aeroporto internacional de Cumbica, em Guarulhos, serviria apenas de escala para “Libertad” rumar a Moscou, onde ela atuou como observadora internacional do referendo constitucional da Rússia, que permitiu a Vladimir Putin concorrer à presidência por mais dois mandatos, permanecendo no poder até 2036.

ReproduçãoReproduçãoA embaixada da Venezuela em Brasília: enclave bolivariano
Ao retornar de viagem, em 5 de julho, a chavista desembarcou novamente em Cumbica, mas num primeiro momento foi barrada pela Polícia Federal. Na ocasião, os agentes registraram que a funcionária de Maduro não possuía documentos diplomáticos, como passaporte e visto, e que, portanto, as alegações de que iria “visitar amigos” na Embaixada da Venezuela em Brasília, onde ficaria por dez dias — o bilhete foi comprado por uma militante do PT — não encontrariam respaldo legal. A venezuelana seria deportada imediatamente para Paris, cidade de onde partiu sua última escala na viagem de volta ao Brasil, mas conseguiu driblar as autoridades brasileiras. Obteve um salvo-conduto do Chile para regressar à Venezuela por meio daquele país, em um episódio bastante turvo – ela alega que um senador chileno intermediou o “sinal verde” validado pelo chanceler, mas o então ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, disse a Crusoé desconhecer o caso.

Logo depois de descobrir que não existiam linhas aéreas disponíveis entre o Chile e a Venezuela, Janlisbert Velasco, cuja proximidade com o falecido Hugo Chávez despertava atenção, obteve uma autorização judicial para, enfim, regressar a seu país pelo território brasileiro. Em 12 de julho, ela embarcou de Guarulhos para Manaus, de onde, no dia seguinte, partiu para a capital de Roraima. Em Boa Vista, de carro, ela seguiu até Santa Elena de Uairén, a primeira cidade venezuelana depois da fronteira. Em 14 de julho, a PF registrou a saída da chavista do país. Apesar dos percalços, a funcionária da ditadura venezuelana acabou conseguindo o que queria: ela usou o Brasil para ir e voltar da Rússia. O processo todo se desenrolou sem a participação efetiva do Itamaraty.

A trama é apenas mais uma evidência das estripulias recentes dos chavistas na cara do governo Bolsonaro. Na embaixada venezuelana em Brasília, por onde a subordinada de Maduro passaria em seu périplo, partidos e movimentos de esquerda são tidos em mais alta conta. O prédio, ainda sob domínio de diplomatas chavistas, virou uma espécie de enclave bolivariano no Setor de Embaixadas da capital brasileira. No início de novembro, funcionários da ditadura receberam Romênio Pereira, secretário de relações internacionais do PT. Na sexta-feira 13 de novembro, militantes promoveram um ato na embaixada para comemorar o aniversário da expulsão de representantes de Juan Guaidó do prédio – eles chegaram a ocupar o local por algumas horas em 2019.

A festa se justifica. Com a decisão do ministro do STF Luís Roberto Barroso de proibir a expulsão de funcionários chavistas do Brasil até o final da pandemia, o governo brasileiro está impedido de retirar os diplomatas de Maduro do prédio da embaixada. Enquanto isso, a embaixadora María Teresa Belandría, indicada por Guaidó e reconhecida por Jair Bolsonaro, dá expediente em um quarto de hotel. Os representantes leais ao chavismo perderam suas credenciais e não possuem mais imunidade diplomática no Brasil, mas a embaixada em si ainda é protegida pela Convenção de Viena e não pode ser acessada sem prévia autorização.

Janlisbert “Libertad” Velasco, em Moscou: viagem a partir do Brasil
Desde o episódio da ocupação da embaixada, há um ano, o MST passou a dar expediente no local. Conforme apurou Crusoé, em troca de comida e moradia, sete militantes se revezam semanalmente em funções como vigilância e portaria. Todos os funcionários brasileiros que executavam essas tarefas foram demitidos ou pediram as contas — muitos deles ingressaram com ações na Justiça do Trabalho para requerer o pagamento de salários atrasados e verbas rescisórias. “O pessoal que está trabalhando lá é o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que apoia eles”, atesta Raimundo Luís de Oliveira, presidente do sindicato que representa funcionários de embaixadas. “Um pessoal do MST fica lá na portaria como voluntário ajudando a manter a embaixada”, acrescenta.

Desafiar o governo Bolsonaro dentro do seu próprio território parece ter virado o esporte predileto de Maduro. Há duas semanas, Andrés Antonio Fernandez Soto, empresário venezuelano radicado em Roraima conhecido como “Toñito”, foi sequestrado em Pacaraima por um grupo de quatro homens que o levaram para o lado venezuelano da fronteira. Lá, militares o aguardavam, segundo testemunhas, e um helicóptero estava pronto para decolar com o sequestrado para um destino incerto. Acusado por diversos crimes nos tribunais militares da Venezuela, incluindo tráfico de ouro e armas, Toñito já foi colaborador do chavismo e conhece de perto seus subterrâneos. Atualmente, ele é um dos principais inimigos de Maduro.

A operação emperrou quando a picape usada no trajeto atolou em uma trilha enquanto cruzava a fronteira. Toñito, que levara um tiro na perna, foi então resgatado por moradores de Pacaraima, com apoio de indígenas venezuelanos. Oficialmente, a Polícia Militar de Roraima escreveu na ocorrência policial obtida por Crusoé que ele declarou ter sido levado por quatro brasileiros que se identificaram como policiais. Só que o próprio Toñito desmentiu o registro oficial: disse que os sequestradores falavam espanhol, e tinham sotaque venezuelano e cubano. A suspeita é que a polícia pôs na ocorrência que os sequestradores eram brasileiros para não admitir a ação de agentes a serviço de Maduro do lado de cá da fronteira.

Responsável por uma rádio online baseada em Pacaraima que faz oposição a Maduro, ele acusou “capangas do regime ditatorial” pela tentativa de sequestro. Um integrante do governo brasileiro, sob reserva, admite que uma das suspeitas é acde que o quarteto seja ligado às milícias paramilitares que apoiam Maduro, conhecidas como “colectivos”. A Polícia Federal investiga o caso, mas se negou a dar informações por meio de sua assessoria de imprensa. O Itamaraty não se manifestou. O Ministério da Defesa afirmou tratar-se de “assunto afeto aos órgãos de segurança pública, não cabendo ação do ministério”. Foi a segunda vez neste ano em que forças leais à ditadura de Caracas foram flagradas atuando em Roraima. Em julho, índios capturaram oficiais da Guarda Nacional Bolivariana que se embrenharam em território brasileiro em perseguição a um grupo de pemones, povo indígena que habita a região do lado venezuelano. Como rival de Maduro na América Latina, Bolsonaro se tornou, como se diz na gíria esportiva, um contumaz freguês.

Já é assinante?

Continue sua leitura!

E aproveite o melhor do jornalismo investigativo.

Só R$ 1,90* no primeiro mês

Edição nova toda Sexta-Feira. Leia com Exclusividade!

Assine a Crusoé

*depois, 11 x R$ 14,90

Deixar para mais tarde

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Bolsonaro se tornou freguês daquilo tudo que na campanha eleitoral ele dizia que iria combater. Eleito Presidente mostrou ser frouxo, desonesto, incapacitado e inútil.

  2. Imagina o governo brasileiro se mobilizando para barrar uma p. de luxo que foi a Rússia acompanhar um referendo entre lençóis e travesseiro. Seria muita falta do que fazer. Eu também não renovei a assinatura dessa revistinha de fofocas comunistas.

    1. vocês não tem assunto mais interessante pra abordar não? eita besteirol danado

    2. Tudo é comunista quando não falam o que vocês querem ouvir. O país nunca esteve numa situação econômica tão ruim como agora. Tenho vergonha de ser Brasileiro e ter votado neste BOZO.

  3. Meras picuinhas. Ainda que fofocas escritas eletronicamente não gastam papel nem tinta. O Capitão é imune a picuinhas bolivarianas e de delinquentes do MST.

  4. Mais uma reportagem recheada com fatos. Porém a tentativa do repórter mal encobre a tentativa de denegrir a reputação do atual governo. Torpe!!!!!

    1. Que reputação? O senhor deve ser servidor público, a situação hoje no país é a pior dos últimos 16 anos. A moeda perdeu valor em mais de 100% em 12 meses. Temos o pior salário mínimo da América do Sul, só ganhamos da Bolívia. Votei neste Presidente por falta de opção, ACORDA POVO.

    1. Concordo plenamente, gente sem neurônio, incapaz de reflexão e ponderação, loucos alucinados, sem capacidade de enxergar não mais que 30 graus. Intelejumentos

  5. Aliados da Rússia e do Iran o Brasil seria presa fácil. Não consigo entender porque o STF está apoiando esse Maduro Podre que não cai.

  6. Ué e a lorota de combate ao Comunismo? Tudo papo furado! A preocupação do traidor da Pátria é salvar ele e sua família da prisão!

  7. O Brasil é presidido pelo STF, conforme esse colunista e apoiado pelo PT e suas ramificações e esses comentaristas idiotas dessa revista.

  8. Alguns brasileiros estão comendo estrume e reclamando do sal. Só lembrando: tem justiça e tem um congresso corrupto eleito pelo povo. Ah, tem um Presidente da República que tem que conviver com isso, respeitando, pra não dizerem que é um ditador.

    1. Presidente que só vê o interesse de sua família. Traidor do povo

  9. O “Bolsanaro adora atacar a Venezuela”, como se a Crusoe não passasse 100% do tempo disseminando chamadas contra o presidente do Brasil. Aliás, jornalistas da Crusoe, vão pra Venezuela, lá tem o de melhor pra vocês. Assinantes, cuidado com a renovação automática, eu caí nesse golpe.

    1. É muito fácil deixar o diálogo apertando um botão, cancelando uma assinatura. Votei neste cara e quanta decepção, um homem que não está à altura de presidir uma nação.

  10. Vocês não entenderam que essa de não gostar da Venezuela é cinquinho do Bozo. Uma, porque se fossemos enfrentar a Venezuela levaríamos uma surra, nossa pólvora perto da deles é de uma bombinha de criança. Duas, porque o Bozzo já via a possibilidade do namoro com o Putin, amigo do Maduro, logo, tudo bem.

    1. Não fala besteira meu caro. Eles não tem combustível para nada e os soldados deles passam fome. Muitos dos armamentos deles estão parados por falta de manutenção. Sem logística não tem guerra.

    1. Já vi que você adora uma ditadura onde quem governa faz o que quer.

  11. Com honrosas excessões, o governo Bolsonaro é ineficiente. Late muito e não morde. Bolsonaro não tem liderança nem visão. Depois de quase dois anos no poder, não entendeu ainda (se é que um dia vai entender) seu papel na presidência e as possibilidades de que dispõe. Votei nele e, contra a esquerda, votaria de novo. Mas, como presidente ele é um deputado do baixo clero, não mais que isso.

    1. Intelecto mediano para baixo, não está à altura de tão grandioso posto. Infelizmente é o que temos, mais grande a decepção.

  12. Usar o Brasil para ir à Rússia onde seu regime tem apoio e ainda via solo brasileiro... sem dúvida já chamou a atenção das autoridades americanas. A chapa vai esquentar economicamente aqui.

    1. AQUI É CASA DE MÃE JOANA. SE OFERECER UMA BOA GRANA POLITICOS BRASILEIROS ARREGANHAM O RABO. OS AMERICANOS JA SABEM DISSO.

Mais notícias
Assine
TOPO