Ananda Migliano/Ofotográfico/FolhapressAs cúpulas das legendas decidem o destino do fundão eleitoral

Os donos do cofre

O financiamento público de campanha amplia, à base de dinheiro contribuinte, o poder dos caciques partidários, que usam os bilhões do fundo eleitoral para privilegiar aliados nas eleições e se perpetuar no poder
16.10.20

Em outubro de 2017, quando o Congresso aprovou o financiamento público de campanhas, a iniciativa foi vendida ao distinto público como uma medida moralizadora que surgia para pôr fim à farra das doações de empresas e, principalmente, reduzir a concentração de poder nas mãos dos diretórios nacionais dos partidos, dominados pelas raposas políticas de sempre – em geral, enroladas com a Justiça. Só que, como quase tudo o que sai da cachola das excelências, a máxima lampedusiana prevaleceu: as coisas mudaram para permanecer como estavam, ou mesmo para piorar o que já não era bom. Num país em que os partidos são controlados com mão de ferro por políticos que agem como se seus donos fossem, os bilhões dos fundos eleitorais e partidários, agora irrigados com dinheiro público, empoderaram ainda mais os caciques partidários.

Como os recursos são repassados às cúpulas dos partidos e depois são redistribuídos por elas, os comandantes das siglas privilegiam os seus, ou seja, parentes e aliados que rezam em suas cartilhas. É o que mostra um levantamento sobre a divisão de 2 bilhões de reais em recursos do fundão eleitoral e do fundo partidário realizado por Crusoé: os apadrinhados de parlamentares e líderes têm prioridade absoluta na hora da partilha. Os “donos” dos partidos não são nada generosos com os novatos, a não ser quando querem lançar amigos ou familiares na vida pública. O resultado é um cenário pouco democrático, em que um pequeno grupo decide quem serão os candidatos competitivos e com chances reais de vitória, enquanto consolida seu poderio nos pequenos municípios e nas capitais.

O candidato a vereador que lidera as doações dos partidos em todo o Brasil é Abou Anni Filho, do PSL de São Paulo. O jovem de 29 anos é filho do deputado federal Paulo Sergio Abou Anni, secretário-geral do diretório paulista do PSL. Ele recebeu 2 milhões de reais, o equivalente a 1% dos 200 milhões de reais que o PSL tem à disposição para distribuir entre todos os seus 21 mil candidatos a prefeito e a vereador no país. Com o slogan “Força em dobro”, em referência ao patriarca, o instrutor de trânsito tem entre suas bandeiras a luta contra multas aplicadas aos motoristas infratores. Eleito na onda bolsonarista de 2018, o pai do candidato a vereador ficou ao lado do presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, quando houve o racha entre as duas alas da legenda. O apoio ao cacique do partido após o rompimento com Jair Bolsonaro acabou sendo lucrativo para ele. Com 2 milhões de reais, o desconhecido Abou Anni Filho pode investir maciçamente em divulgação. Ele já gastou, por exemplo, quase 240 mil reais com a impressão de santinhos e adesivos dos mais variados tamanhos e contratou um batalhão de cabos eleitorais. Para se ter uma ideia do privilégio, Joice Hasselmann, a escolhida do PSL para disputar a prefeitura São Paulo, maior cidade do país, recebeu até agora metade do valor repassado ao jovem candidato.

Dois políticos do DEM aparecem na segunda e terceira posições entre os candidatos a vereadores com mais recursos do fundão eleitoral. Assim como o líder de repasses, eles também guardam relação de parentesco com integrantes da cúpula do próprio partido. Milton Leite disputará a reeleição e já recebeu 1,9 milhão de reais. Ele é vereador de São Paulo desde 2000 e atualmente preside o diretório municipal do DEM. Além de controlar o partido em São Paulo, Milton Leite é pai do deputado federal Alexandre Leite, vice-presidente nacional do DEM. Além da bolada de 1,9 milhão de reais do fundão, Milton Leite recebeu ainda 300 mil reais do fundo partidário. Os recursos serviram para turbinar sua campanha. Segundo vereador mais votado do Brasil em 2016, atrás apenas do colega Eduardo Suplicy, do PT, o candidato do DEM já gastou este ano quase 850 mil reais com militância de rua, além de 144 mil reais com material impresso.

Pai de Rodrigo Maia, Cesar Maia é um dos privilegiado com recursos do DEM
Já a terceira maior fatia do fundo eleitoral até agora abasteceu os cofres de campanha do vereador César Maia, do Rio de Janeiro, político que dispensa maiores apresentações. Ex-prefeito do Rio e pai do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ele recebeu 600 mil reais do fundão. Segundo o DEM, a distribuição dos recursos a que o partido tem direito segue uma resolução aprovada em setembro pela Comissão Executiva da sigla. O documento estabelece que 39% dos recursos do fundão serão aplicados com base nas indicações feitas pelos representantes do DEM no Congresso. Os outros 61% serão utilizados “consideradas as estratégias político-eleitorais do partido em âmbitos nacional e local”. Em outras palavras, o partido admite que quem define para onde vai o dinheiro do fundo eleitoral são mesmo os caciques da sigla. Logo, não surpreende que Maia filho tenha privilegiado Maia pai.

No levantamento feito por Crusoé, outros sobrenomes tradicionais aparecem entre os maiores agraciados com recursos para campanhas. O Podemos, por exemplo, favoreceu Mário Covas Neto entre os candidatos a vereador do partido em todo o Brasil. Tio do atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas, Mário está na Câmara Municipal desde 2013 e atualmente é presidente estadual do partido. O comando da sigla agraciou o candidato à reeleição com 350 mil reais – maior valor até agora ofertado pela legenda entre os que disputam um cargo nas câmaras municipais.

No PSL do Rio de Janeiro, quanto mais próximo do clã Bolsonaro, maior a chance de receber gordas fatias de recursos. Um dos escolhidos pela legenda para disputar a Câmara de Vereadores, Luiz Carlos de Chagas Júnior, conhecido como Chagas Bola, foi quem mais se deu bem. Amigo do senador Flávio Bolsonaro e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz, o sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro ganhou 300 mil reais do comando do partido. O PSL do Rio não está mais nas mãos de Flávio, hoje filiado ao Republicanos, mas internamente na legenda todos dizem que ele ainda mantém ingerência sobre o caixa eleitoral fluminense.

No Rio, como é possível notar, os escândalos envolvendo boa parte das autoridades locais não são capazes de reduzir sua influência nas decisões sobre o destino dos milionários recursos públicos. No Avante, a aposta é o advogado Vinícius Cordeiro, atual vice-presidente nacional da sigla e chefe do diretório estadual. Ele recebeu 268 mil reais e as bençãos do deputado federal Chiquinho Brazão, seu correligionário e irmão do conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro Domingos Brazão. O ex-integrante da corte de contas foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco, no ano passado.

André Bueno/Câmara de SPAndré Bueno/Câmara de SPCandidato à reeleição em São Paulo, Bruno Covas aparece em segundo no ranking de repasses do fundão
Entre as candidaturas a vereador, os critérios de preferência dos líderes partidários ficam mais evidentes, uma vez que há dezenas de nomes de um mesmo partido na disputa pelo mesmo cargo. Mas na divisão de recursos entre candidatos a prefeito em diferentes cidades, também é possível identificar o direcionamento de verbas a políticos que estão mais próximos do comando das siglas. Por exemplo, o campeão de receitas do fundão eleitoral é João Campos, do PSB, que disputa a prefeitura do Recife. O líder das pesquisas recebeu 7,5 milhões de reais, o maior valor até agora na disputa municipal. O montante representa quase 7% dos 109 milhões de reais a que a sigla tem direito no bolo do fundão. Pernambuco é considerado um estado-chave para o PSB, que quer recuperar o terreno perdido com a morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo, em 2014. João Campos, filho de Eduardo, é uma das apostas para manter a hegemonia do clã. Ainda na toada dos sobrenomes famosos, o próprio Bruno Covas, candidato do PSDB a prefeito de São Paulo, aparece em segundo no ranking dos maiores beneficiados com dinheiro do fundão. Uma das esperanças nacionais do partido, ele já recebeu 5 milhões de reais para tentar a reeleição.

“O dinheiro público é capturado por lideranças partidárias. Os recursos são dados de mão beijada a uma elite parlamentar, com base apenas no critério do autointeresse”, afirma o cientista político Bruno Bolognesi, do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários da Universidade Federal do Paraná. Enquanto lideranças de outros países precisam mobilizar a militância e dialogar com os eleitores para conseguir sobreviver, no Brasil, as verbas partidárias abastecidas com dinheiro público financiam até helicóptero, carro de luxo e banheira de hidromassagem nas sedes das legendas.

Para além da concentração dos recursos nas mãos dos caciques das siglas, há ainda um outro problema no sistema político-partidário brasileiro: o gasto de dinheiro público com legendas inexpressivas. “Há partidos pequenos que não ganhariam nem eleições para centro acadêmico de universidade e que receberam quantias milionárias do fundo eleitoral. Temos um sistema de financiamento que premia partidos sem representação”, diz Bolognesi. Entre os que receberão montantes injustificáveis está o Unidade Popular, conhecido como UP. Criada em 2019, a agremiação de extrema-esquerda ganhará nada menos do que 1,2 milhão para a campanha, assim como os inexpressivos PCO, PMB e PSTU. Mas se engana quem pensa que as práticas adotadas pelas legendas mais robustas não são reproduzidas pelas siglas nanicas. O tamanho da aldeia não importa: nos partidos menores também são os caciques que decidem para onde vai o dinheiro.

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  1. Uma crítica, construtiva (espero), Helena teu artigo é muito bom, como sempre!!! Só não entendi a foto do Artur na capa da matéria sem nenhuma referência pra ele, sendo que ele é o único candidato a prefeito de SP que não está usando o fundão. Do jeito que está ai parece que ele é o maior culpado dessa baixaria, sendo que é o único que nao tem... pelo menos em SP... Cabe uma nota explicativa ai... se eu foçe ele ia querer!!!!! Abraço. PS: MUITO BOA A MATÉRIA...

  2. Eduardo Paes, quando se candidatou para prefeito, em sua primeira eleição, acusou Cezar Maia, de desvio de dinheiro na construção da cidade da música. Fica muito claro que desvio de dinheiro, não e um parâmetro impeditivo de associação. Hoje os dois remam juntos no mesmo partido.

    1. Essa decisão, de não eternizar os políticos no poder, cabe aos eleitores. Precisamos transformar as cadeiras do poder em poltronas ejetáveis.

  3. Só podemos lamentar a podridão que reina nas casas legislativas , espalhadas pelo Brasil. Acabar com essa pouca vergonha de fundão e outras aberrações com dinheiro publico é obrigação do eleitor. Eu só voto em candidato que nao usa nosso dinheiro.

  4. Na verdade, os CHEFÕES dos Partidos Políticos são SAFADOS, CORRUPTOS, FALSOS e ORDINÁRIOS. E todos estão MILIONÁRIOS porque ROUBAM pra si a maior parte dessa VERBA PÚBLICA e "prestam contas" com Notas Fiscais FRIAS. Aliás, roubam o ano inteiro com falsas justificativas de gastos com pessoal e viagens. Por mim, esses BANDIDOS bem que mereciam a "guilhotina". Vamos fazer um plebiscito sobre isso?

    1. Isso que ia comentar. Nâo entendi pq colocaram a imagem dele logo no início. Pra mim, sugere que ele estaria recebendo fundo eleitoral, quando faz exatamente o contrário! Atenção CRUSOÈ!! Cuidado com essas fotos escolhidas "aleatoriamente".

  5. Ótima matéria Helena Mader! Enquanto não houver uma Reforma Política séria e de verdade, essa situação será perpetuada. Infelizmente, nosso dinheiro público é muito mal gerenciado. #ReformaPolíticaJá!

  6. Sob a égide desse sistema partidário não se pode dizer que as eleições são democráticas pois previamente a corja que mantém o poder se perpetua.

  7. Os Fundos Eleitoral e Partidários devem ser extintos no futuro. Só esse ano a doma dos 2 passa dos R$ 3 bilhões. O texto devia citar o partido NOVO q é o único q não usa esses recursos. Esse ano cedeu ao Min. da Saúde mais de R$ 36 milhões de sua parte no Fundo Eleitoral p ser usado no combate a pandemia. Foi um ato isolado , não acompanhado pelos demais partidos. O Maia não permitiu um destaque do NOVO ao PL do orçamento paralelo q previa o uso desses 3 bilhões de reais no combate ao Covid19.

  8. A matéria poderia ter ao menos citado sobre iniciativas em contrário, como a do Partido Novo, o pessoal do MBL e especificamente agora, o deputado Arthur do Val candidato a prefeito de São Paulo que aliás, é quem está na foto principal desta matéria!

    1. Não devia existir dinheiro público para isso , mais o povo contínua elegendo esses bandidos infelizmente . Lena

  9. Só para lembrar, o partido NOVO é o unico partido no Brasil que nao recebe di heiro público p campanha !!! inclusive li uma reportagem fe que seus integrantes são perseguidos por outros paridos e quando se elegem a pressão dentro da Câmara e senafo continua por abrirem mão de regalias !!! Vamos dar uma chance a esse partido !! Nos informar sobre ele !! Quem sabe !!

  10. E depois TRE e os Influenciadores do voto dizem que devemos votar para uma Democracia forte, mas quem quer pagar essa democracia brasileira?

  11. Culpa do STF que proibiu, a pedido do pt, a doação de empresas. agora piorou; ficaram ainda mais, mal acostumados. Arrancam na cara dura. Democracia bananeira.Fora esse enervante horário eleitoral. Haja sofrimento!

  12. O que fazer? O "fundão" é pago por todos nós. Se fosse $ de empresas/pessoas físicas ESTES dariam um jeito pra que nós pagassemos tb, como já se viu. Dá uma raiva. Somos todos lesados de um modo ou de outro.

  13. É pra mudar essas práticas oligárquicas que devemos dar valor aos candidatos que não usam fundo eleitoral, nem fundo partidário, assim como faz o Arthur do Val, candidato a prefeito de SP, e tidos os candidatos do Partido Novo, pois são esses os futuros parlamentares e gestores a ter independência no Congresso, podendo seguir suas consciências e realmente representar os interesses do povo, e não o interesse de seus caciques, como ocorre com outros que "devem favor" e são escravos de meia-dúzia..

  14. Tirar o dinheiro da bolsa da viúva indefesa, isto é, nosso dinheiro, e que nada pode fazer, é um clássico na política brasileira. Somente a imprensa independente noticiando/denunciando esses "crimes" é que nos dá esperança de alguma melhora! Continuem assim! Continuem, por favor!

  15. Grande João Campos, 26 anos, Partido Socilaista Brasileiro e investindo o dinheiro do povo onde mais importa: na manutenção do poder familiar. Nessas horas queria ser religioso e acreditar que o inferno está aguardando toda essa escória.

  16. Vejam como o TSE não entende de política e o dinheiro que deveria ser gasto para ajudar o cidadão é gasto pela gentalha da politica sujando a rua e em alguns casos certamente levado pra casa de alguém.

  17. Esperar que os políticos ponham fim a essa pouca vergonha, é sonhar. enquanto o povo não se levantar e exigir menores salários a esses vagabundos e cortar toda e qualquer verba eleitoral. isso não acaba. quer ser politico? banque sua campanha.

  18. Vamos tomar como base para a escolha de candidatos, evitar a todo custo a reeleição de caciques, bem como parentes e aliados mais próximos. Prefiro um candidato inexperiente, porém ficha limpa. A CRUSOE pode nos ajudar, trazendo informações sobre nomes novos.

    1. O engraçado é que a foto da matéria sobre uso do Fundão é do Arthur e nenhuma menção a ele não usar o Fundão é feita.

    2. O engraçado é que a foto da matéria sobre uso do Fundão é do Arthur e nenhuma menção a ele não usar o Fundão é feita.

  19. Os últimos trabalhos da Helena, esmiuçando o cenário político, deveria ser base para uma narrativa (ex-sbt) pró 2022. Sem normose, sem brparalelo. Mostrando o real peso do real nosso de cada dia.

  20. Sinto raiva em pensar que nosso dinheiro está servindo para dar boa vida a essa classe tão odiosa. Esse financiamento público de campanhas eleitorais tem de acabar.

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