BeltaLukashenko cumprimenta policiais, com rifle nas mãos: mais de 6 mil detidos nos protestos

O mais soviético resiste

Com apoio russo e a tática de prender e expulsar os líderes da oposição, o ditador da Belarus, Alexander Lukashenko deve seguir no poder, apesar dos protestos
10.09.20

Na manhã de segunda-feira, 7, a bielorussa Maria Kalesnikava, flautista e maestrina de 38 anos, foi empurrada por homens mascarados para o interior de uma van em cuja lataria estava estampada a palavra “Comunicação”. De Minsk, a capital da República de Belarus, ela foi levada com outros dois críticos da ditadura de Alexander Lukashenko, Anton Rodnenkov e Ivan Kravtsov, para a fronteira com a Ucrânia, ao sul. Os outros dois opositores tinham sido alertados de que, se não deixassem o país, eles ficariam presos indefinidamente. Mas Kalesnikava recusou o destino que queriam impor a ela. Rasgou o seu passaporte e jogou o que sobrou dele pela janela, impossibilitando sua entrada no país vizinho.

Kaleniskava agora está detida em Minsk, assim como outros rostos que se destacaram nos protestos que se seguiram à eleição de 9 de agosto. No pleito, Lukashenko, há 26 anos no poder, declarou-se vencedor com 80% dos votos. A suspeita de fraude foi o que levou mais de 200 mil bielorussos a se manifestar. Setores da sociedade que nunca haviam desafiado o ditador, como professores, médicos e funcionários de estatais, uniram-se às passeatas. Nos últimos dez dias, porém, todos os que lideraram o movimento foram presos, deportados, deixaram o país após receber ameaças ou se encontram desaparecidos.

Na quarta-feira, 9, o advogado Maksim Znak, de 37 anos, um dos últimos integrantes do “Conselho de Coordenação” da oposição em Belarus, foi sequestrado. Uma foto de Znak sendo conduzido por homens mascarados em roupas civis foi publicada no Telegram. Após avisar pelo telefone que havia homens em frente ao prédio em que ele estava, a ligação caiu. Znak só teve tempo de mandar a frase “são mascarados” por mensagem de texto. A polícia e os serviços secretos não confirmaram a prisão de Znak, mas o enredo corresponde ao ocorrido com outros adversários da ditadura, que foram detidos e depois apareceram como exilados ou presos. Da precária comissão formada pelos manifestantes para negociar uma transição com o governo, apenas a escritora Svetlana Aleksiévich, vencedora do prêmio Nobel de Literatura, permanecia livre até esta quinta-feira. Mesmo assim, durante a semana, um grupo tentou invadir seu apartamento.

ReproduçãoReproduçãoKaleniskava, antes de ser detida: ela se recusa a sair do país
A neutralização das vozes dissidentes denota uma mudança na estratégia repressiva usada por Lukashenko. No início, a tática era a de prender manifestantes. Mais de 6 mil chegaram a ser detidos. Quando deixavam o cárcere, dias depois, vários deles exibiam hematomas pelo corpo. No entanto, nada disso surtiu efeito, e as manifestações seguiram numerosas. A nova estratégia parece observar os conselhos oriundos da Rússia, pois emula as táticas tradicionalmente empregadas pelo Kremlin. A investida passou a ser contra todas as cabeças da oposição. Além disso, mais de 50 sites que cobriam os protestos foram bloqueados.

Ao pedir ajuda a Vladimir Putin, a Belarus reata as relações com a Rússia, que andavam estremecidas. Ao longo de sua história, os laços entre os dois países foram estreitados e afrouxados em diversos momentos. Antiga Bielorússia, o país foi parte do Império Russo, tornou-se independente em 1918 e teve regiões anexadas pela Polônia até ser totalmente anexado pela União Soviética, em 1939.

Com o colapso da URSS, em 1991, a Belarus não trilhou o caminho de seus vizinhos, como a Lituânia e a Polônia, que abriram seus mercados e se democratizaram. Em vez disso, seguiu como “o mais soviético dos ex-estados soviéticos”, nas palavras de Maxim Samorukov, do Centro Carnegie de Moscou. Passou a viver de refinar o petróleo russo e revendê-lo para o Ocidente. A prática propiciou estabilidade econômica, postergando reformas de mercado e permitindo a manutenção da antiga oligarquia. Lukashenko, um ex-diretor de uma fazenda coletiva, eleito presidente em 1994, foi quem mais se beneficiou dessa articulação comercial entre o Leste e o Oeste.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisPutin e Lukashenko: russo quer afastar aliado da Otan e UE
Há alguns anos, Lukashenko começou a se aproximar dos Estados Unidos e da União Europeia. Sanções contra a ditadura foram retiradas e o país deixou de ser visto como mero satélite de Moscou. Na sua campanha para as eleições deste ano, Lukashenko atacou frontalmente a Rússia e ordenou a prisão de supostos mercenários russos. Foi o pior momento na relação bilateral. Contudo, quando os protestos começaram em agosto, Lukashenko, a fim de se manter no poder, não hesitou em cortar os vínculos com o Ocidente e fazer as pazes com a Rússia. Para Putin, não poderia haver regozijo maior. Ao ter o presidente vizinho como refém, ele mantém a Belarus longe do Ocidente, representado pela União Europeia e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A aproximação com a Rússia deve ampliar o abismo entre o ditador e a população. Nos anos 1990, os bielorussos apoiaram o arcaísmo de Lukashenko porque viram nele uma garantia contra a instabilidade econômica. Esse sentimento diluiu-se com os anos. No ano passado, pesquisas mostraram que a maioria da população prefere trabalhar no setor privado a ganhar salários estagnados em alguma estatal. Jovens que viajam com frequência para a Polônia e para a Lituânia não suportam mais o comportamento autoritário de Lukashenko, que chegou a visitar policiais antimotim com roupas militares e um rifle nas mãos.

Com a eclosão dos protestos, jovens lideranças opositoras alimentaram a esperança de que países ocidentais se envolveriam na causa – e, com isso, Lukashenko acabaria destituído. Mas a cobertura dos protestos no Ocidente não teve o alcance esperado. Para piorar, durante a semana, dezenas de jornalistas estrangeiros tiveram suas credenciais apreendidas. Preocupados com eleições, pandemia e crise econômica, países do Ocidente fizeram ouvidos moucos aos bielorussos. Em momento algum, Lukashenko perdeu o controle das Forças Armadas ou o apoio da elite. Com a oposição acéfala, as possibilidades para a democracia na Belarus ficaram ainda mais reduzidas.

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  1. Não sei mais o que é democracia, ouço tantas definições ultimamente: ser sindicalista, dar aumento de salários, taxar os ricos, congelar preços, criar programas sociais insustentáveis, ser contra Donald Trump, fazer protesto contra racismo, defender o meio ambiente, até Belarus quer nos confundir, pois mesmo estando a 26 anos no poder, o ditador é eleito com 80% dos votos. Só que não, essa democracia que querem nos empurrar não passa de uma máscara. Tudo acaba sendo relativizado.

  2. Qualquer um verifica indícios de quem era e é "democrático" no Brasil. Conhecemos o ditado de verificar com quem andas e direi quem és. Passamos vários governos financiando 99% de ditaduras na AL e Africa. Muitas sem condições de pagar, estão a nos dar calote de BILHÕES. Fizemos obras superfaturadas em dezena de países, TODOS amados e endeusados por nuestra esquerda. Portos e Metrôs, etc. Tudo concluído com nosso $$$. Tudo arquitetado por PT, PSOL e outros. Visite Cuba, Porto Mariel, vc pagou.

    1. É uma "democracia" distorcida! Na verdade, é uma OLIGARQUIA, o governo dos poderosos que, quando sobem ao poder, não querem largar mais, utilizando o "poder" para manter o "poder"...

    2. Já ouvi dizer que Cuba é uma democracia. Como conheço a Ilha, não sabia se ria ou chorava. Como alguém pode acreditar ? Tenho um amigo cubano que desde criança é incentivado a contar algo que pareça contrário ao regime, e é sempre "premiado por essa lealdade" ao governo. Por algum "premio qualquer" entregam até irmãos e pais. Falavam comigo o que não falavam com seus familiares, a ração que recebem termina antes de 30 dias, depois é o se vira nos 30. Vá morar lá, comprove. É isso que queres ?

    3. Verdade. Vivemos numa "democradura". Aqui, mesmo que existam provas fortes contra criminosos, se ele tiver algum padrinho no STF, não passa nem 24 horas atrás das grades. E as provas colhidas durante o processo são anuladas. Como q base legal eles podem anular provas de um crime é q eu não sei...mas vivemos numa bela "democradura", né? Aqui, ministro do STF confraterniza com suspeitos e não se declaram suspeitos. Quem disse q o crime não compensa? E há quem diga não ser uma "democradura"...

    4. Cada um tem a democracia q merece. Pq temos q nos politizar e ficar a mercê de “autoridades” q não aceitam aos q divergem de suas “arrogâncias” e “ganâncias”. Seja na “liberdade” americana ou na “prisão” do Kim, tds nos somos pagadores de impostos e então, somos iguais.

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