Adriano Machado/Crusoé

Sexagenária, isolada e em crise

Crusoé traz um ensaio fotográfico especial da aniversariante Brasília em quarentena e testemunhos de personalidades sobre sua relação com a cidade, vista com preconceito em razão dos maus hábitos dos políticos
24.04.20

“Brasília nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”, disse Lúcio Costa, ao justificar os traços que definiram a capital do país. Desde que o urbanista trespassou duas linhas imaginárias sobre uma imensidão de cerrado no coração do país, Brasília ganhou 3 milhões de habitantes. Virou uma metrópole pulsante, a terceira maior do país, com personalidade própria e mazelas inescapáveis a qualquer grande centro urbano. Patrimônio mundial da humanidade, a cidade ornamentada pelas obras de Oscar Niemeyer completou 60 anos no último dia 21. Ainda vista com preconceito pelas patifarias de políticos e associada instantaneamente à corrupção, Brasília é muito mais do que a sede dos conchavos e dos malfeitos. A capital de todos os brasileiros consolidou-se como um celeiro das artes e da inovação, um caldeirão em que se misturaram culturas e tradições de todos os cantos do país para formar um povo único e orgulhoso do chão vermelho sobre o qual caminha.

Para homenagear o aniversário da cidade, Crusoé mostra uma versão da capital desconhecida por aqueles que a veem apenas pelas lentes da política. Personalidades que nasceram na capital ou que foram por ela acolhidos mostram um pouco do lado humano de Brasília. Cheiros, cores, o horizonte e o céu inigualáveis estão na memória do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, do jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira, do maestro Carlos Cohen e da atriz Maria Paula. Em depoimentos, eles mostram por que o plano de Lucio Costa se transformou em uma terra singular. As seis décadas da cidade tombada são celebradas em um momento sui generis. A quarentena imposta pela pior crise sanitária do século esvaziou as movimentadas avenidas sem esquina. Em um ensaio do repórter fotográfico Adriano Machado, Crusoé mostra cenas da capital inéditas para os próprios brasilienses. O vazio na paisagem outrora palpitante causa estranhamento e desconforto, mas destaca peculiaridades das belezas de Brasília.

Fernando Gabeira: as cortes passam, o encanto fica

“Vivi 16 anos em Brasília e a conheci em círculos como se jogasse uma pedra no lago.

Meu horizonte era apenas um pedaço do Plano Piloto e isso me levou a um grande equivoco. Numa entrevista à Playboy, disse que Brasília tinha apenas putas e lobistas. Foi um pequeno escândalo. Visitei o então governador Arruda e pedi desculpas públicas. Parece bizarro, mas era o meu modo de fazer política.

No discurso de Juscelino, e sou dos que ainda se lembram da sua figura sorridente, ele afirmou que Brasília era uma ruptura com a rotina e o compromisso.

Não a sentia assim. As cidades povoadas pela burocracia tendem a ser monótonas. Além disso, havia o rígido planejamento definindo as quadras e suas funções.

Acostumado a outros lugares, não compreendia bem que as farmácias estivessem numa quadra, temia uma especialização tão grande que certos objetos singulares seriam impossíveis de encontrar.

Felizmente, descobri a Feira do Paraguai, que dissolve essa lógica e nela poderia encontrar muito do que procurava.

Fui descobrindo também o pequeno comércio nas quadras, as barracas de quentinhas, as costureiras que pregavam botão e consertavam a roupa rasgada.

Usava motocicleta, deslocava-me muito facilmente. Era possível, inclusive, descansar alguns minutos após o almoço.

No principio, enfrentei a cidade de bicicleta. Havia uma pequena montanha entre a Câmara e meu hotel. Parava na base para tomar fôlego e as putas gritavam: força, deputado!

Foi nessas noites meio desertas de Brasília, lembrando-me também de algumas cidades europeias, que tive uma intuição e a audácia de expressá-la num debate em torno do filosofo alemão Peter Sloterdijk, em São Paulo: o futuro das ruas será dos entregadores de pizza.

Jamais imaginei que minhas previsões seriam subitamente cumpridas. Não posso imaginar como está Brasília na quarentena.

Sempre que muda o governo, muda a corte. Costumo ouvir os moradores estáveis sobre a nova corte. Um deles é meu querido amigo Orlando Brito, cujas lentes contam para mim as principais histórias da cidade.

Não posso imaginar como está Brasília nesse aniversário. Meu amigo Brito continua cobrindo os acontecimentos e temo por ele e outros jornalistas, pois a extrema-direita resolveu atacá-los fisicamente.

De longe, comemoro o aniversário da cidade que aprendi a gostar e onde vivi bons momentos. Sei que as cortes passam e as pessoas queridas ficam, assim como o encanto dos grandes parques e a imensidão do planalto.”

(O jornalista Fernando Gabeira foi deputado federal por quatro mandatos consecutivos, de 1995 a 2011)

 

Cláudio Cohen: mais perto do céu

“Para mim, a principal marca de Brasília são os grandes espaços abertos. Temos esse céu azul muito próximo, uma amplitude, além da bela arquitetura. É uma cidade muito limpa, com muita qualidade de vida. Cresci na Asa Sul, em meio à sensação de liberdade de brincar embaixo dos blocos e de correr e andar de bicicleta nos pilotis.

O Lago Paranoá também nos dá esse sentimento de liberdade, a água transmite muita paz. Essa configuração de Brasília me permitiu, como artista, ter uma liberdade criativa muito grande. A capital tem uma diversidade muito forte, sobretudo para a minha geração, a primeira de Brasília. Como todo mundo veio de fora, compartilhamos culturas diferenciadas. Sempre que eu ia a compromissos profissionais no Rio Grande do Norte ou no Rio Grande do Sul, eu ouvia expressões que já conhecia, porque tinha amigos de várias partes do país.

O lado internacional de Brasília, por conta da proximidade com as embaixadas, também é muito forte. Essa diversidade estimula a criatividade. A arte é uma coisa muito natural na cidade, é algo muito valorizado. Quando fazemos concertos didáticos para crianças de escolas públicas que nunca viram uma orquestra na vida, elas naturalmente demonstram uma emoção enorme. A gente percebe uma sede de cultura nas pessoas daqui.

É justamente por saber que Brasília é uma cidade especial que fico incomodado quando relacionam a cidade à corrupção. Muita gente substitui a parte pelo todo, como se Brasília fosse só isso, uma sede de poder. A cidade tem uma vida à parte da Esplanada, uma vida real.”

(Cláudio Cohen é o maestro titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília)

O vazio da quarentena: a cidade em fotos

 

Maria Paula: a cidade do acolhimento infinito

“O que mais me aproxima de Brasília são as relações simbólicas que eu tenho com a cidade. Assim como as pessoas trabalhadoras com as quais eu cresci, tenho o hábito de acordar cedo, sou pontual, trabalho muito, estou constantemente na linha de frente. Sempre me voluntario quando necessário, seja para lavar a louça de casa, seja para ficar à frente de alguma causa social. Tenho certeza de que essas minhas características têm muita relação com o fato de eu ter nascido em Brasília.

Meus mentores, que são meu pai, os amigos dele e os pais dos meus amigos, são pessoas extremamente honestas, pioneiros de Brasília que trabalharam muito, de forma muito correta. Isso norteou a minha vida, a minha carreira e a minha personalidade. Cresci com a mentalidade de que deveríamos estudar. No meio artístico, especialmente quando fui para o Rio de Janeiro, era raro encontrar um colega com curso superior. Assim que possível, fui fazer mestrado na UnB (Maria Paula também é psicóloga), porque passei a minha infância em meio a essa consciência de que precisamos estudar e buscar sempre a melhor formação possível. Sinto muita gratidão por ter nascido e crescido em Brasília, isso norteou o meu caráter.

É triste ver a imagem que a cidade tem, a pecha da corrupção, que é muito reforçada pela cobertura da mídia, sobretudo dos escândalos políticos. É uma imagem deturpada, que não corresponde à realidade. Cresci em um ambiente sem discriminação, convivíamos com pessoas de todas as partes do Brasil. Os preconceitos naturalmente iam por água abaixo. A gente tinha amigos mineiros, nordestinos, goianos, gaúchos. Isso ajudou a desenvolver nas pessoas uma capacidade de acolhimento infinito. Uma das minhas melhores amigas na adolescência era filha do embaixador do Kuwait, então convivi com diferenças culturais extremas. Algumas mudanças de Brasília, entretanto, me entristecem.

Muito do que vivi na minha infância se perdeu, diante do crescimento da desigualdade social. Grandes bolsões de pobreza se formaram e, em algum lugar, perdeu-se um pouco do plano inicial de Lucio Costa, Juscelino Kubistchek, de Bernardo Sayão, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, todos os gênios que bolaram essa cidade tão inovadora.”

(A atriz Maria Paula integrou o elenco do programa humorístico Casseta&Planeta Urgente!)

 

Ayres Britto: espaços alongados, floridos e passarinhados

“Há 17 anos, vim morar em Brasília. Não tinha noção do quanto iria inflar os meus pulmões com o oxigênio da mais pura arte de quem? Lúcio Costa, Niemeyer, Burle Marx, Athos Bulcão e Ceschiatti. Daí o esplendor da arquitetura da cidade, do Lago Paranoá e dos mais alongados e abertos e arborizados e floridos e passarinhados espaços urbanos. Tudo debaixo de um céu tão bonito que se as nuvens cobrassem pedágio dele, ele pagaria. Ave, Brasília, os que nunca vão morrer de inanição amorosa por você lhe saúdam.”

(Carlos Ayres Britto é ex-ministro do Supremo Tribunal Federal)

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  1. Tenho uma relação amorosa com nossa capital federal que visito certa de 3 a 4 vezes ao ano para reuniões setoriais há mais de 15 anos! Sua arquitetura me atrai, seu céu azul e jardins , sua população de multiorigem me me acolhe sempre de maneira que aprecio! Mesmo circular pelos seus lindos prédios de poder sempre é uma esperiencia! Apesar de relembrar sempre a frase de um falecido amigo cujo filho morou aqui na época do governo militar! Brasília é uma ilha da fantasia! É hoje ainda o é!

  2. Parabéns para Brasília !! Terra miscigenada e amada por todos os candangos que trabalharam com suor para sua construção e deram essa característica peculiar para os brasilienses. Orgulho de ser Brasiliense !!

  3. Uma cidade construída segundo uma arquitetura Comunista para ser a Capital do País! Dinheiro que não tínhamos gasto em ostentação e distanciamento dos políticos do povo. Uma verdadeira tragédia! Que os responsáveis queimem eternamente no mármore do Inferno!

  4. Arquitetonicamente, urbanisticamente, simbolicamente e humanisticamente até os limites do Plano Piloto, toda admiração, orgulho, encantamento e amor por esta espetacularmente linda cidade, delírio real porque '10 GRANDES BRASILEIROS ousaram sonhar' e, com milhares de outros GRANDES BRASILEIROS, tiveram força, habilidade e coragem para edificar!!

    1. Pesar imenso pelos infames predadores que nunca souberam respeitar, honrar e dignificar a maravilhosa capital do BRASIL. Pesar imenso pelas cidades satélites - zonas administrativas - que sucumbiram ao desleixo predatório dos que nunca quiseram delas, obrigatoriamente, cuidar.

  5. A imagem glamurosa infelizmente não se sustenta. Brasília custa uma imensa fortuna ao povo brasileiro, que dela muito pouco recebe em troca. A capital não passa de um curral de maracutaias perpetradas por indivíduos engravatados, assessorados por aspones.

    1. Lúcia, A nossa querida Brasília deu muito mais ao povo brasileiro que ela recebeu dele. A civilização Brasileira deu um grande passo evolucional ao construir Brasília. Poucas civilizações da terra conseguiram essa facanha, que é digno de nota. Mas infelizmente junto dela veio a corrupção das empreteiras que contaminou ainda mais o nosso já carregado ambiente político. É preciso de tempo e muito esforço para melhorar o estado atual, mas não esqueça que a cada quatro anos temos eleições.

  6. Impressões verdadeiras, as sinto também; contudo, infelizmente, as impressões negativas me afastaram e continuam me afastando de minha terra natal. Parabéns Brasília, terra onde se encontram todos brasileiros.

    1. A Capital Federal touxe desenvolvimento para o interior do País. Interiorizando um País que tinha 90% da sua população a 200km da costa. Ineficiência se restringe ao Congresso, que em sua maioria são abutres, hienas e sanguessugas do dinheiro do povo.

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