José Patrício/Crusoé

Levi, o virologista

Antes dedicado ao desenvolvimento de testes para doenças como zika, ele agora enfrenta o desafio de criar kits que permitam diagnosticar o coronavírus no menor prazo possível
08.04.20

José Eduardo Levi estava na praia quando leu pela primeira vez sobre o surgimento de um novo tipo de coronavírus que começava a espalhar pânico entre os moradores de uma província chinesa. Era 1º de janeiro de 2020. Ele estava de férias, longe do front das pesquisas em um laboratório de São Paulo. De pronto, o bioquímico especializado em virologia pensou que se tratava de um problema isolado. Uma semana depois, ele e os colegas chegaram à conclusão de que o vírus tinha potencial de se espalhar pela China. Em meados de janeiro, diante dos dados sobre a transmissibilidade da doença, Levi percebeu que a chegada do novo coronavírus ao Brasil era iminente. Ali caiu a ficha: era preciso se mobilizar para desenvolver, no menor espaço de tempo possível, testes que pudessem acelerar o diagnóstico quando a doença chegasse com força por aqui.

Especialista em formatar exames de doenças virais, Levi logo passou a trabalhar no assunto. Ele já carregava no currículo experiências que ajudariam na nova missão. Em 2003 e em 2012, havia acompanhado, ainda que à distância, os debates científicos em torno das epidemias de Síndrome Respiratória Aguda Grave, a Sars, e de Síndrome Respiratória do Oriente Médio, conhecida como Mers, ambas causadas também por coronavírus. Nos dois casos, as doenças não viraram um problema sanitário no Brasil e o virologista não teve que desenvolver testes para detectá-las. À diferença do SARS-CoV-2, a ameaça de agora, os vírus causadores daquelas epidemias tinham letalidade mais alta, mas seu nível de transmissibilidade era menor.

Os primeiros coronavírus, micro-organismos que causam infecções respiratórias, foram isolados nos anos 1930. O batismo, entretanto, só aconteceu em 1967: o vírus ganhou esse nome por sua aparência no microscópio, semelhante a uma coroa. “Não é nenhum vírus desconhecido. A gente já faz testes para outros quatro tipos de coronavírus, que infectam mais crianças, causam pneumonias e síndromes respiratórias menos graves”, observa Levi.

Depois de pesquisadores chineses publicarem a primeira sequência genética completa do novo vírus, um grupo de virologistas de uma universidade de Berlim criou um protocolo para o desenvolvimento de testes moleculares diagnósticos. Levi havia trabalhado com parte da equipe e os colegas mandaram ao Brasil material de referência para as pesquisas. Como o país naquele momento não tinha nenhum caso e os pesquisadores acharam improvável conseguir amostras do vírus diretamente com a China, foi montada uma operação de guerra para transportar o material biológico da Alemanha para o Brasil.

O trabalho foi feito em conjunto com o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, onde Levi é professor. O grupo de laboratórios Dasa, para o qual ele presta consultoria, bancou o transporte. “A gente distribuiu (o material) para muitas instituições públicas e privadas. Isso foi fundamental para todo mundo ter controle positivo para desenvolver o teste. Montamos, validamos e, a partir da terceira semana de fevereiro, pouco antes do Carnaval, passamos a oferecer os primeiros testes comerciais”, diz. Na semana seguinte, houve o primeiro caso confirmado no Brasil, detectado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Sabíamos que era só uma questão de tempo.”

O protocolo para os exames, àquela altura, já estava definido também por aqui. A ideia era que os pacientes com suspeita de Covid-19 não fossem a uma clínica ou laboratório, para não haver risco de disseminação da doença. A coleta deveria ser domiciliar. “Logo percebemos que não seria possível manter essa operação. A demanda rapidamente ficou gigantesca e vimos que faltaria reagente. Restringimos então os testes para pacientes hospitalizados e profissionais de saúde”, conta o pesquisador. “Agora, estamos lutando para aumentar nossa capacidade de testagem e apoiando o governo em um projeto de expansão dos testes. Há uma certeza: só voltaremos a ter uma vida minimamente normal quando tivermos a capacidade de testar e isolar os casos positivos. Sem testes, nenhuma estratégia vai funcionar muito.”

O teste molecular que Levi ajudou a desenvolver por aqui detecta material genético do vírus em secreções do trato respiratório, colhidas com um swab – uma espécie de cotonete usado para retirada de material microbiológico das narinas (ou da parte interna das bochechas). É possível detectar a presença do vírus mesmo quando o paciente está assintomático. Há alguns pormenores no processo de testagem que podem interferir diretamente no resultado. Após cerca de sete dias com os sintomas – e normalmente quando eles costumam dar uma trégua – o paciente costuma desenvolver uma resposta imune. Nessa etapa, a partir da produção de anticorpos, é possível identificar a doença por meio de exames de sangue. A depender de quando o exame de sangue é feito, portanto, o resultado pode não refletir a realidade. “O problema desse formato de teste é que, se for feito na fase dos sintomas, ele pode ser enganoso. Não pode ser um teste para indicar ou deixar de indicar o isolamento”, explica Levi. Um terceiro tipo de teste, similar ao molecular, só que com resultado mais rápido, está em desenvolvimento.

Levi fez toda sua trajetória acadêmica na Universidade de São Paulo. Tinha apenas 17 anos quando foi aprovado no vestibular para ciências biológicas e, logo no começo do curso, começou a trabalhar no Instituto Ludwig de Pesquisas para o Câncer. Em 1987, passou a fazer testes moleculares. “Aprendi como fazer da forma artesanal, de um jeito muito rudimentar. Isso me ajudou depois a desenvolver os testes.” Em 1993, três anos depois de concluir a graduação, o virologista concluiu o mestrado em bioquímica e biologia. Em 2000, concluiu a tese de doutorado em microbiologia. Além de professor colaborador do Instituto de Medicina Tropical da USP e consultor da rede privada de laboratórios, ele é pesquisador do Hospital Albert Einstein.

Antes da pandemia, Levi dedicava-se à rotina de diagnóstico molecular de vírus transmitidos pelo sangue e às arboviroses, como zika e febre amarela. Hoje, o foco está na mais nova versão do coronavírus. Ele lembra que o laboratório público Bio-Manguinhos, a unidade produtora de imunobiológicos da Fiocruz, produz kits diagnósticos, mas depende de insumos que precisam vir de fora. “Mesmo sabendo fazer testes, precisamos dos insumos, que não são produzidos no Brasil. O grande desafio agora é equacionar isso”, diz. “O Brasil não tem a cadeia completa produtiva de biologia molecular.” No seu front, Levi chefia uma equipe de 40 pessoas que, agora, estão dedicadas quase que exclusivamente ao desenvolvimento dos testes para a nova doença. “A gente progressivamente foi renunciando aos outros exames.” Mas nem isso parece suficiente. Diante da dimensão da pandemia, a sensação é de enxugar gelo.

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  1. Parabéns, Dr. Levi! Como doutor em microbiologia, cientista, pesquisador, professor e "peão" em chão de laboratório, o senhor merece toda a nossa gratidão! Que essa dedicação se reverta em saúde e paz para o senhor e toda a sua família - e a leveza de consciência do dever cumprido. É com profissionais da sua categoria que conseguiremos atravessar esse deserto. Deus o abençoe e o proteja!

  2. Que belo trabalho, Levi! Por mais que eu diga qualquer palavra, ainda assim será pouco diante do que vocês vêm fazendo pelo país. Prefiro resumir a uma única palavra: GRATIDÃO!

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