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O vídeo de Michelle Bolsonaro e o carisma que não se herda

Vídeo da ex-primeira-dama expõe a colisão entre uma pretensão herdada de Flávio Bolsonaro e um carisma vivo de Michelle

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Rodrigo Prando
7 minutos de leitura 26.06.2026 11:43 comentários 0
O vídeo de Michelle Bolsonaro e o carisma que não se herda
Foto: Divulgação/ PL
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Em pouco mais de vinte e seis minutos, divididos em duas postagens publicadas na véspera de um jogo da Seleção, Michelle Bolsonaro (foto) fez aquilo que nenhum adversário do bolsonarismo havia conseguido: expôs, de dentro, a fragilidade de sua própria sucessão. E mais: acabou dando uma aula de política aos filhos de Bolsonaro, sem gritar, sem estridência. Não é, apenas, briga de família, “lavar roupa suja em público”. Não. É mais profundo que isso.

O cerne da questão é o espólio político e eleitoral de Bolsonaro, inelegível e preso. O senador Flávio Bolsonaro, seu filho, foi o escolhido pelo pai. Todavia, atravessou, nas últimas semanas, sucessivos desgastes.

O maior deles, o áudio enviado a Daniel Vorcaro. Agora, as publicações de Michelle podem ser colocadas na segunda posição de problemas na pré-candidatura.

O pano de fundo da disputa no Ceará, trazida à tona por Michelle, é somente a ambientação de uma movimentação maior.

Michelle não apenas se defende do que chama de “punhalada”, de ter sido maltratada por Flávio e seus irmãos. Em verdade, a ex-primeira dama responde ao clã Bolsonaro que não é neófita na política e apresenta suas credenciais.

Convém, inclusive, retomar, ainda que, panoramicamente, alguns autores clássicos da Política.

Leia mais: Pior que o vídeo de Michelle foi a reação de Flávio Bolsonaro

Maquiavel

Maquiavel, autor de O Príncipe, costuma ser invocado de modo apressado para dizer que herdar um reino é frágil.

O secretário florentino afirmava o contrário: os principados hereditários, enraizados no costume e na longa linhagem, são os mais fáceis de manter. A fragilidade não está na herança em si — está em herdar um principado que ainda é novo, antes que ele se tenha sedimentado em hábito e tradição. E é esse, exatamente, o caso bolsonarista.

O bolsonarismo é um principado novo, fundado por Jair com a virtù e a fortuna de quem conquista. Flávio não o conquistou: recebeu-o de mão em mão, sem o tempo que converte fundação em dinastia e sem as armas próprias que fundaram a coisa.

Tem, portanto, a insegurança do príncipe novo — sem virtude comprovada, dependente de autoridade emprestada —, sem a estabilidade do herdeiro de um trono antigo. É a pior das posições maquiavélicas.

Weber

Max Weber, por sua vez, nos ensinou que o carisma é, por definição, uma qualidade pessoal e extraordinária reconhecida pelos seguidores e que, justamente por isso, ele não se transmite por decreto.

O momento decisivo de todo movimento carismático é a sua rotinização, ou seja, o instante em que o líder original sai de cena e a comunidade precisa decidir se o vínculo se converte em instituição ou se dispersa.

Weber catalogou as saídas possíveis para essa crise. Entre elas, a designação de um sucessor pelo próprio líder e a transmissão hereditária do carisma. São, não por acaso, as formas mais frágeis: nelas, a autoridade já não brota do reconhecimento, mas da herança.

É precisamente aí que Flávio se encontra. Ungido pelo pai, candidato por designação, ele reúne as duas modalidades mais derivadas de legitimidade carismática — e nenhuma das duas garante que a base reconheça nele a graça que reconhecia no fundador.

O carisma do pai não se transfere ao filho pela só vontade do pai. Ele precisa ser, outra vez, reconhecido. E o reconhecimento não se herda.

Michelle

Michelle, aqui, ocupa o polo oposto dessa equação. Seu vínculo com a base — sobretudo com o eleitorado feminino e evangélico, onde o bolsonarismo é ao mesmo tempo mais deficitário e mais devoto — não passa por Flávio nem depende dele.

Como presidente do PL Mulher, ela não é figura periférica do espólio: é um centro autônomo de legitimidade dentro do mesmo movimento. Seu carisma é weberianamente do tipo genuíno, porque repousa num reconhecimento direto, não numa linhagem.

Os vídeos expõem, então, a colisão entre uma pretensão herdada (Flávio) e um carisma vivo (Michelle), abrigados sob o mesmo teto partidário. 

Os vídeos não ficaram só no terreno das palavras. Há símbolos, e estes comunicam uma visão de mundo e elementos ideológicos. 

O cenário dos vídeos é uma peça de retórica tão deliberada que a própria autora pediu, logo de início, que reparássemos nos detalhes: "O detalhe faz toda diferença".

Ao fundo, uma parede de diplomas em molduras douradas, que objetiva uma refutação visual exata da frase que ela atribui a Flávio: "Você chegou ontem e não entende de política". Se a palavra do enteado busca desqualificar, o ambiente a recredencia.

Em sua blusa, bordadas, as palavras amor, alegria, paz (seriam os frutos do Espírito?). Michelle asseverou que foi "apunhalada" enquanto, literalmente, veste mansidão. Acusa e ataca sem perder a graça, sem gritos ou ofensas. Além disso, outros símbolos: uma estrela de Davi, um copo no formato de cálice, a mão em sinal de libras (amor) e o ambiente doméstico, ao que tudo indica.

Se, de fato, for o ambiente de sua casa, doméstico, pode-se recuperar Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta.

Em casa

Numa cultura política em que a fronteira entre o privado e o público nunca se constituiu fortemente, a família costuma operar como unidade de poder. E a sucessão vira herança e a herança entre herdeiros vira litígio.

O “homem cordial” não distingue o lar do Estado; tampouco o bolsonarismo. Por isso o desentendimento não pôde ser absorvido por nenhuma instância partidária mediadora: foi nitroglicerina pura em vinte e seis minutos de Instagram, transmitido direto à base, no idioma iconográfico exato dessa base, retomando constantemente Deus e os valores cristãos.

DaMatta, em suas obras, sempre tratou do dilema brasileiro: a “casa”, espaço dos afetos e da intimidade, das pessoas, convive com a rua, local da impessoalidade, dos indivíduos e da igualdade republicana. Michelle levou  para a rua (para o debate político) um assunto que muitos acreditam deveria ficar no âmbito caseiro e familiar. A escolha foi deliberada e bem pensada.   

Qual o significado eleitoral desse episódio? Muitos, de antemão, dizem que Lula é o principal beneficiado, mas essa é a versão mais superficial. Na quarta-feira, 24,, pouco antes do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, foi anunciada a saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado (assim como Flávio por suspeitas de envolvimento no caso do Banco Master).

Hoje, o tema político das notícias seria Jaques Wagner e Lula, tema já enfraquecido pela vitória do time brasileiro contra a Escócia; todavia, os vídeos de Michelle trazem mais desgaste para Flávio e alívio para Lula, querendo ou não.

Há que se considerar, essencialmente, o movimento realizado por Michelle numa aula de estratégia política para o clã Bolsonaro: a esposa que cuida do marido, do PL Mulher e que luta contra as injustiças sofridas.

A mulher cristã e evangélica que consolida seu capital político próprio para um movimento futuro e que, certamente, pode estar renegociando, por cima, seu preço dentro do movimento bolsonarista.

O que os vídeos revelam, por fim, e que há de sobreviver ao resultado eleitoral de outubro, é outra coisa: o bolsonarismo descobriu, em público, que carisma não se herda.

Jair pode ungir um filho; não pode transferir-lhe a graça que só a base concede. E Michelle, ao responder ao clã sem um grito sequer, não apenas se defendeu — sugeriu que essa graça, no espólio bolsonarista, talvez já não more onde o testamento mandou.

Leia mais: Não vi e nem vou ver, diz Ciro Gomes sobre vídeo de Michell

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