O Irã vai enrolar Trump?
Diante de protestos em massa e ameaças de intervenção americana, Irã sinaliza interesse em negociar acordo nuclear para ganhar tempo
Ao sinalizar que poderia agir para defender os iranianos que protestavam nas ruas, Donald Trump colocou Washington diante de uma dura escolha entre pressionar o regime e negociar novamente o programa nuclear do país.
As mensagens trocadas por canais de bastidores de Washington e Teerã indicam que o governo iraniano procurou a Casa Branca com uma proposta para retomar negociações sobre um acordo nuclear.
Mas o timing desse gesto, logo após Trump dizer que poderia ir ao socorro da população iraniana, indica que o Irã quer desviar a atenção americana e evitar um posicionamento mais duro diante da repressão interna que já acumula centenas de mortos e milhares de presos.
Apesar de o governo afirmar que a situação está sob controle, as informações mais recentes dão conta que talvez não esteja.
A crise começou em dezembro devido à deterioração econômica e à alta da inflação, que tem derrubado o poder de compra da população, e evoluiu para um desafio frontal ao poder da República Islâmica.
A resposta violenta das forças de segurança e o apagão de internet implantado pelo regime complicam a avaliação independente do que acontece em muitas cidades iranianas, que hoje depende da rede Star Link, de Elon Musk, para chegar ao resto do mundo, mas que também tem sido vítima de embaralhamento eletrônico com equipamentos fornecidos por russos e chineses, ficando inoperante em parte do território.
Do lado americano, Trump disse que está considerando “opções muito fortes”, incluindo medidas militares, cibernéticas ou de apoio indireto aos manifestantes, e que poderia agir antes mesmo de uma reunião com líderes iranianos, caso os acontecimentos no terreno assim o exijam.
Essa fala recebeu críticas do ex-primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, que pediu aos EUA que evitem uma intervenção direta, advertindo que isso pode piorar a situação em vez de ajudar a população.
Dentro do Irã, o Parlamento advertiu que qualquer ataque americano poderia desencadear represálias direcionadas às forças dos EUA e de aliados na região, o que aumentaria o risco de escalada militar.
Mas é bom lembrar que o Irã ainda não repôs parte do seu arsenal de armas desde os 12 dias de conflitos com Israel em junho de 2025, e que seu maior fornecedor, a Rússia, está focando sua produção para uso interno junto ao front ucraniano, não podendo ajudar seu aliado persa nessa recomposição logística.
Nem mesmo a China, principal parceira comercial de Teerã, parece disposta a preencher esse vácuo. Embora Pequim continue enviando insumos químicos e tecnologia para a produção de mísseis, ela evita a entrega de sistemas de defesa prontos, cautelosa com as sanções de Washington e priorizando a estabilidade de seus próprios interesses econômicos no Golfo.
No Congresso americano também há debate sobre quão eficaz seria um envolvimento militar, e quais as consequências desse caminho, com alguns senadores argumentando que um ataque pode unir ainda mais uma parcela do povo iraniano em torno do regime.
Em paralelo, o exilado Reza Pahlavi, filho do xá deposto do Irã em 1979, segue conclamando os iranianos para seguir nas ruas, prometendo que voltará em breve ao país, para assumir a liderança de uma nova fase do país.
Portanto, a proposta de negociação nuclear está com toda a cara de ser um movimento para ganhar tempo, seguindo a escola de Putin, que reiteradamente vem obtendo isso com suas negociações deliberadamente infrutíferas em relação à almejada paz na Ucrânia. Será que o Irã vai conseguir também?
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