O desserviço de Érika Hilton para a causa trans
Identitarismo provocou rejeição em partes da sociedade e barrou a evolução desse importantíssimo debate na sociedade brasileira
A deputada Érika Hilton (foto) é uma mulher trans.
Como milhares de outros brasileiros, ela não se identifica com o seu sexo biológico, aquele que ela tinha quando nasceu.
Não é uma questão de escolha. É uma questão de tentar se adaptar, da melhor maneira possível, com aquilo que está em sua cabeça, mas que não estava em seu corpo.
Pessoas trans costumam enfrentar um penoso conflito interno para entenderem quem realmente são.
Depois disso, ainda precisam lutar para serem aceitas em suas famílias e na sociedade.
São vítimas de preconceito, enfrentam obstáculos para serem aceitas em empregos que lidam com atendimento ao público e são mais propensas ao suicídio.
Ainda que os brasileiros hoje estejam à vontade para falar sobre pessoas trans, a maioria mal entende as diferenças entre identidade gênero (como a pessoa se enxerga) e sexo (um dado da natureza).
A conscientização sobre esse tema ainda é algo recente, e tem um longo caminho que ainda precisa ser traçado.
A atuação da deputada Érika Hilton (foto), contudo, é um desfavor a esse processo de compreensão e assimilação das pessoas trans que está acontecendo na nossa sociedade, independentemente da política.
Érika é uma ativista do identitarismo, ideologia que busca privilégios para minorias.
Entre suas principais políticas está a defesa de cotas em concursos públicos e universidades.
O problema desse tipo de atitude é que ela reverte a ideia de que todos são iguais perante a lei, gerando rejeição entre aqueles que não são atendidos.
Para os identitários, a sociedade não é uma república em que todos têm os mesmos direitos, mas um ringue em que grupos distintos buscam benefícios para si próprios, em detrimento dos demais.
É um jogo de soma zero: se um ganha, o outro tem que perder.
É por isso que a atuação de Érika Hilton pode ajudá-la a ganhar seguidores e eleitores, mas nunca a fará benquista pela maioria da população.
E, infelizmente, esse incômodo com Érika pode se transferir a todas as pessoas trans, independentemente de suas opiniões políticas.
Para piorar, Érika recorre a uma retórica belicosa, usando a polarização para ganhar visibilidade.
Ela persegue pessoas que não comungam de suas ideias.
Um dos casos mais emblemáticos é o da estudante Isadora Borges, que foi entrevistada no Papo Antagonista.
Basta uma pessoa dizer que não acha que uma pessoa possa "mudar de sexo" em uma rede social para ser alvo da deputada na Justiça.
Perseguir pessoas por suas opiniões é um gesto autoritário e intimidatório, que reduz o espaço de discussão.
Se as pessoas não se sentirem livres para dizer o que pensam sobre as pessoas trans, elas também não serão expostas a ideias contrárias, e não poderão refinar e moderar seus pensamentos.
O debate também foi interditado pela militância do dicionário, que censura até mesmo pessoas simpáticas à causa, mas que não são capazes de utilizar adequadamente o complexo glossário de termos e pronomes.
Oportunidades são desperdiçadas.
E, quando questões são reprimidas, acumula-se uma enorme energia negativa, que pode explodir em momentos de crise.
É o que está acontecendo agora.
O identitarismo, assim, não apenas provocou rejeição à causa trans em partes da sociedade, como barrou a evolução desse importantíssimo debate na sociedade brasileira.
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