Milei enfrenta a conta do ajuste
Milei reduziu a inflação e manteve o superávit fiscal, mas a recuperação perdeu força e o endividamento das famílias aumentou
A Argentina de Javier Milei chegou ao terceiro ano de governo com uma contradição. A inflação caiu, o governo preservou o superávit fiscal e a economia voltou a crescer, mas a recuperação perdeu força e o custo do ajuste aparece no orçamento das famílias.
Os dados do Indec mostram avanço de 2,3% do PIB no primeiro trimestre de 2026 sobre um ano antes, mas apenas 0,7% na comparação com os três meses anteriores.
O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento de 3,5% para o ano e inflação média de 30,4%, números melhores que os registrados antes de Milei. Ainda assim, o ritmo não se espalhou de maneira uniforme pela economia.
O endividamento mostra com mais clareza o custo dessa transição. Mais de 20 milhões de argentinos têm dívidas e cerca de 6 milhões estão em atraso, segundo a Central de Devedores do Banco Central e estimativas de consultorias reproduzidas pela BBC.
O problema ganha outra dimensão porque parte dessas dívidas financia alimentos e serviços básicos. Em 20 de agosto, uma manifestação reuniu em Buenos Aires pessoas que pedem mecanismos para renegociar débitos e limites para os juros cobrados por bancos e carteiras digitais.
O crédito é um dos pontos de maior dificuldade. Não são poucos os casos de argentinos que passaram a recorrer a empréstimos para cobrir despesas correntes e depois tiveram dificuldade para pagar as parcelas.
Os juros altos e a perda de renda disponível passaram a pesar sobre famílias e pequenas empresas, enquanto a indústria enfrenta concorrência maior de produtos importados.
O governo percebeu o problema em um momento politicamente delicado. O ministro da Economia, Luis Caputo, anunciou medidas para estimular o crédito imobiliário, permitir maior uso de depósitos em dólares para financiar empresas e reduzir o custo de alguns empréstimos.
A União Industrial Argentina, porém, pede alívio fiscal para pequenas e médias empresas, diante da queda da atividade, do emprego e do acesso ao crédito.
A estratégia de Milei produziu uma melhora nas contas públicas e reduziu a inflação, mas agora enfrenta uma questão mais difícil: transformar estabilidade em crescimento que chegue ao consumo, ao emprego e às empresas menores. O petróleo de Vaca Muerta e a mineração ajudam a trazer dólares, mas não compensam a fraqueza de setores ligados ao mercado interno.
À medida que se antecipa a disputa de 2027, aumenta a pressão sobre Caputo. O esperado encontro com Scott Bessent no G20 nessa semana recoloca a relação com os Estados Unidos no debate econômico argentino, depois do apoio americano concedido no ano passado.
Ao mesmo tempo, o governo tenta estimular o crédito e o consumo sem abandonar a política de corte de gastos que sustenta o ajuste fiscal.
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