Lula já deveria ser investigado?
Advogado diz que eventual investigação dependeria de indícios de que o petista tinha conhecimento e participação nas tratativas de Lulinha e lobista
O advogado criminalista André Fini, mestre em Direito Processual Penal, afirma que o fato do presidente Lula ter conhecimento da atuação da lobista Roberta Luchsinger com o seu filho, o empresário Fábio Luís da Silva, o Lulinha, não seria suficiente para colocá-lo na condição de investigado.
"O simples fato de o presidente saber que Roberta Luchsinger trabalhava com seu filho e com Fernando Bittar não seria suficiente para colocá-lo na condição de investigado. Conhecimento de uma atividade privada não se confunde com adesão a uma prática criminosa, e o Direito Penal não admite responsabilidade por parentesco ou mera proximidade".
Fini, contudo, diz que a situação mudaria caso surgissem indícios de que Lula tinha conhecimento de que seu nome, seu gabinete ou sua autoridade estavam sendo utilizados para “vender influência” dentro do governo e, ainda assim, tivesse consentido ou participado das tratativas.
"Nesse cenário, investigar sua conduta não seria uma opção política, mas uma exigência jurídica. O material divulgado até agora apresenta indícios relevantes sobre pessoas próximas ao presidente, mas, isoladamente, ainda não demonstra participação ou ciência qualificada do próprio Lula. É preciso examinar as mensagens completas, os registros de agenda, a cadeia de decisões administrativas e eventuais fluxos financeiros, sem antecipar culpa nem criar imunidade investigativa."
Roberta conversou com Lula?
Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) revelam que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e o amigo Fernando Bittar, um dos proprietários do famoso sítio de Atibaia.
A revista Veja divulgou trechos de conversas entre Roberta e o empresário Gustavo Gaspar, nas quais ela reforça sua proximidade pessoal e comercial com o filho de Lula (PT).
Em uma delas, a lobista diz ter conversado com o presidente da República.
Eis um dos diálogos:
Roberta Luchsinger: “Sabe, fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: Escolhe onde você quer ficar”.
Gustavo Gaspar: “Aquela empresa é para dar resultado”
Roberta: “Eu disse: onde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando”
Gustavo: “Um cara fod# da Faria Lima. Próximo de vocês”
Roberta: “Tô em cargo nenhum e ando onde eu quero.”
Roberta: “Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, todos vão. A gente é mesmo irmão, sabe.”
“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar”, finalizou a conversa.
Grupo “Musaranhos”
A proximidade entre Roberta, Bittar e Lulinha fica ainda mais evidente em um grupo de WhatsApp chamado “Musaranhos”.
Segundo a PF, a trinca mantinha conversas sobre negócios envolvendo o governo, especialmente para ter influência junto ao Ministério da Saúde.
Musaranho é um mamífero que se parece com um rato. Lulinha e Bittar eram os “Musos”, enquanto Roberta era a “Musa”.
“Convém indicar que Fabio Luis Lula da Silva aparece reiteradamente no material analisado como figura de elevada relevância mesmo que adote postura de menor exposição nas tratativas. As comunicações indicam que Fabio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos”, diz o relatório policial.
Canabidiol
A minuta de contrato enviada pela lobista Roberta Luchsinger a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula (PT), continha um plano de venda de medicamentos à base de canabidiol no valor de 626 milhões de reais, publicou O Globo.
O documento previa a venda, sem licitação, de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de remédios pela World Cannabis, empresa pertencente ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, ao Ministério da Saúde.
Segundo o jornal, a minuta foi encontrada pela Polícia Federal nos celulares de Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes, ambos investigados por suspeita de tráfico de influência.
Como lobista e amiga do filho do presidente Lula, ela teria sido contratada para viabilizar a negociação.
Uma testemunha que trabalhava para a World Cannabis contou à PF, em depoimento, que a minuta foi discutida pela equipe do “Careca do INSS” antes de ser enviada ao ex-chefe de gabinete de Lula.
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