Guerra no Irã e super El Niño podem criar tempestade perfeita para o agro
Alta nos fertilizantes e risco climático podem reduzir a produção agrícola e encarecer o preço dos alimentos
O bloqueio do Estreito de Ormuz já elevou os preços de ureia, amônia e enxofre, insumos que sustentam parte da produção agrícola mundial. Cerca de 30% dos fertilizantes negociados internacionalmente passam pela região, enquanto países do Golfo concentram quase metade da oferta de ureia e 30% da amônia usada no mundo.
A interrupção do fluxo ocorre justamente quando produtores do hemisfério norte definem plantio e compras para as próximas safras. Sem grandes estoques estratégicos e com custos maiores de gás, diesel e frete, o mercado agrícola entrou em um ciclo de encarecimento que pode se prolongar até 2027.
O risco ganha outra dimensão porque meteorologistas acompanham a possibilidade de um super El Niño entre o fim de 2026 e 2027. Modelos citados por centros climáticos apontam chance superior a 60% de formação do fenômeno e indicam que ele pode ser um dos mais fortes em décadas.
Episódios dessa magnitude costumam provocar secas prolongadas, ondas de calor e quebra de safra em áreas agrícolas da América do Sul, da Ásia e da África. Também aumentam o risco de enchentes em outras regiões, reduzindo produtividade e dificultando logística, armazenagem e transporte de alimentos.
Para o Brasil, a combinação entre fertilizantes mais caros e clima instável cria um cenário delicado para a safra de 2027. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome e depende fortemente de fornecedores que usam as rotas ligadas ao Golfo. Em 2025, cerca de 40% da ureia importada pelo Brasil passou por Ormuz.
Segundo o relatório "Dependência de Fertilizantes Importados: Risco para o Agronegócio Brasileiro", da CNI, a participação de insumos importados no consumo agrícola nacional em 2024/2025 está em 97,8% para derivados de potássio, 89% para nitrogenados e cerca de 70% para fosfatados.
Se o bloqueio persistir por meses, produtores podem reduzir adubação, trocar culturas ou reduzir área plantada. Um super El Niño ainda pode trazer calor acima da média e períodos de seca no Centro-Oeste e na região do Matopiba, afetando soja, milho e algodão. O efeito provável seria menor oferta de alimentos e preços maiores, pesando na inflação e colocando pressão sobre o Plano Safra e subsídios públicos.
O encarecimento pode atingir primeiro carnes, leite, óleos vegetais e produtos processados, porque dependem de grãos produzidos com forte uso de nitrogênio. Países africanos e asiáticos já discutem subsídios emergenciais e corredores seguros para navios de fertilizantes.
No Brasil, cooperativas e tradings acompanham a possibilidade de compras antecipadas, busca por fornecedores alternativos e pressão política por crédito mais barato aos produtores antes do início do próximo ciclo de plantio nacional.
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